Trajetória: a vida nas ruas em Mariana

Trajetória: a vida nas ruas em Mariana

Amanda de Paula Almeida, Luciano Lobo, Maria Eduarda Gomes

Mariana é uma cidade rica em histórias e identidades. Em tantos rostos, de variadas idades, perfis, sorrisos, pedidos, sotaques e gestos, observamos também aqueles olhares acanhados, sofridos e angustiados de pessoas que vivem em situação de rua. Quem são essas pessoas? De onde elas vêm? Quais são as suas trajetórias?

Das áreas de arquitetura histórica no centro da cidade às partes mais modernizadas, percebemos, nas ruas, calçadas e bancos das praças, a presença desses indivíduos. No Terminal Turístico da cidade conhecemos o seu Antônio. Com a perna afetada pela trombose, sua mochila com poucos pertences e sua saudade em voltar para casa, ele pode ser encontrado diariamente sentado no Terminal, em um momento de reflexão e tranquilidade.

Em uma terça-feira, próximo ao final da tarde, encontramos ele ali mais uma vez. Sempre muito receptivo, nos recebeu ao seu lado com um sorriso no rosto, mas, perceptivelmente, com um olhar cansado e cheio de incertezas advindas dos seus árduos 53 anos de vivência. Vivência essa que, para ele, ainda está longe de terminar. Morando em Mariana há quase dois anos, em busca de novas oportunidades, seu Antônio espera reencontrar na sua cidade natal, Rondonópolis, no Mato Grosso, sua ex-esposa e seus dois filhos, de 14 e 24 anos. “Tô [há] muito tempo sem ver meus filhos, tô precisando voltar pra lá”, afirma seu Antônio.

Mas, vivendo ainda em Mariana, suas preocupações se concentram em necessidades básicas, como moradia, alimentação e saúde. E, ao falar dessas necessidades, o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, Centro POP, aparece como local de acolhimento e segurança, tanto para o mato-grossense quanto para toda população que se encontra na mesma situação.

Centro pop

O Centro POP fica — como deve ser, de acordo com o caderno de orientações técnicas nacionais — no centro da cidade. Em Mariana, o espaço está na Rua Mestre Nicanor, número 137; pelo menos por enquanto, já que até 5 de maio a instituição precisa desocupar o lugar onde funciona atualmente. O novo espaço ainda não foi escolhido. O Centro deve seguir as orientações nacionais e, portanto, contar com certos requisitos, como: ambiente acessível; iluminação, ventilação, conservação, salubridade e limpeza; espaços privados para higiene pessoal; ambiente adequado para lavagem e secagem de roupa; refeitório para alimentação; espaço para guardar pertences individualizados. Outras especificações podem ser conferidas no caderno de Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro Pop.

Fachada do Centro POP, instituição que apoia e auxilia as pessoas em situação de rua em Mariana – Foto: Maria Eduarda Gomes

O conceito do Centro POP surgiu em 2009, após a aprovação da Política Nacional para População em Situação de Rua, que definiu como responsabilidade do Governo Federal a garantia dos direitos e bem-estar desse público. Entretanto, o Centro POP de Mariana foi inaugurado somente dez anos depois, em maio de 2019 — o que já diz muito sobre as prioridades e invisibilização das pessoas em situação de rua.

Os serviços ofertados pela instituição são: alimentação (café da manhã, almoço e jantar — este sendo o único que não é oferecido dentro do Centro, mas distribuído na Unidade de Assistência Institucional – UAI, na Rua Dom Viçoso, número 254, no Centro); higiene (banho, uso do banheiro e lavagem de roupas); guarda de pertences; emissão de documentos sem taxação; espaço de ressocialização; processo de escuta atenta aos sujeitos; encaminhamento para a UAI (em casos específicos de pessoas que estão sendo acompanhadas pelo Centro por mais de três meses e estão em processo de sair das ruas).

 

A coordenadora do local, Paolla Araújo, reforça o trabalho dos funcionários para que o local continue operando: “Hoje nossa equipe aqui dentro do Centro POP é composta por dois educadores sociais de nível médio, um educador social de nível superior, três técnicos, sendo que dois são assistentes sociais e uma terapeuta ocupacional. Além de dois estagiários, um de sociologia e o outro de serviço social, duas meninas da limpeza, um vigilante e a coordenação”.

Centro POP, Mariana, situação de rua
Mural com quebra-cabeça simbolizando as peças que mantém o Centro POP em funcionamento – Foto: Luciano Lobo

 

Paolla Araújo também relata que o serviço do lugar se mantém disponível a quem o procura de forma espontânea e, em algumas situações, é realizada também a busca ativa. Paolla explica que, nesses casos, a população marianense entra em contato com o Centro POP e oferece informações sobre alguma pessoa em situação de rua. No entanto, o intuito desse contato da comunidade, normalmente, é retirar o morador do espaço público que ocupa.

“Explicamos que a gente não pode retirar a pessoa da rua, é direito da pessoa ficar na rua. O que a gente pode fazer é oferecer os serviços aqui do Centro POP”, afirma a coordenadora.

Dados

Estatisticamente, pensando na representação em números na cidade de Mariana, a coordenadora do Centro POP relata alguns dados. Segundo ela, atualmente, cerca de 30 pessoas encontram-se em situação de rua na cidade. Os principais motivos são: 80% pela dependência química, 10% saúde mental e 10% andarilhos — ou seja, pessoas que estão apenas transitando pela cidade, sem perspectiva de moradia.

Outros dados relevantes citados por Paolla representam o gênero e a idade das pessoas que geralmente utilizam o espaço do Centro. Sobre o gênero, homens são a maioria, com, aproximadamente, quatro mulheres vivendo nessa realidade. Quanto à idade, a maior parte desses indivíduos tem de 18 a 39 anos. Em seguida, estão as pessoas entre 45 e 59 anos. O restante é composto por pessoas acima de 60 anos. A coordenadora ainda nos relatou que não há menores de idade vivendo nas ruas da cidade de Mariana nos dias de hoje. Dados a respeito de aspectos étnico-raciais não foram divulgados pela instituição.

“Cada um é muito específico, cada um tem sua história, cada um tem sua trajetória, cada um tem um porquê de estar nessa situação. Isso vai sendo trabalhado com o tempo, pelos técnicos. Seria muito superficial dizer que em todo atendimento a gente visa tirar a pessoa da rua através do emprego, não é. Tem gente que não consegue se haver com um emprego formal. Às vezes a liberdade pra ela é maior do que o emprego”, declara Paolla.

E agora, Antônio?

Durante a nossa conversa, seu Antônio foi informado que a matéria ficaria pronta nos próximos dias. Afirmamos que o procuraríamos para apresentar o material. Imediatamente, o senhor disse que não estaria aqui após o próximo sábado. Ele iria voltar para o seu Pantanal. Se engana quem pensa que é por não gostar de Mariana. “Aqui é terra boa, povo acolhedor, ajuda bastante. Minas Gerais é bom, muito bom”, afirma o senhor. No entanto, com algumas rugas e lágrimas nos olhos, ele admite, como de início, a saudade de casa. O saudosismo esteve presente em toda a conversa. Falamos da vida, sobre o que ele fazia antes de estar na Primaz de Minas, sobre a sua saúde… Mas as falas de Antônio retornavam para o mesmo ponto: o seu lar.

A dor parece aumentar ao pensar que não é a primeira vez — nem a última — que o homem se ausenta; Antônio trabalhava como caminhoneiro. A BR-116, sentido Rio-Bahia, é trajeto conhecido pelo motorista. Eram dois, três meses longe da família, carregando soja pelo Brasil afora. O homem se empolga ao lembrar dos tempos vividos no passado, quando ainda era um jovem rapaz pelas rodovias do país. Demonstra, inclusive, entender sobre o plantio da soja que carregava e do café.

Recebemos um convite ao final da nossa entrevista. Quando chegasse ao Pantanal, o senhor garantiu que estaria nos esperando com um café. Nossa função seria levar pão de queijo.

Apesar do riso, da gratidão a Deus ao levantar seu boné para o céu e da receptividade, os olhos de seu Antônio não escondem sua história. A distância, o caminho sem destino, o caminhão quebrado; seus trejeitos remetem à dificuldade vivenciada. Dificuldade marcada na pele e no coração. Talvez seja por isso que o Antônio queira voltar.