“Eu não sabia nem o que era o SUS”, disse o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello. E você, será que sabe?

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Arte: Gabriel Pereira
PRODUÇÃO: GABRIEL FIGUEREDO, GABRIEL PEREIRA E VITÓRIO DINIZ
 

“Eu não sabia nem o que era o SUS”. O general da ativa do Exército e atual ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse isso durante o lançamento da campanha Outubro Rosa de 2020, dias após tomar posse como ministro titular, e três meses e meio depois de assumir a pasta como ministro interino. Se o ex-ministro não sabia, será que não tem muita gente por aí que também não faz a menor ideia do que seja o SUS? 

Com o Brasil vivendo o seu pior momento da pandemia da COVID-19, com o colapso nacional da saúde e a ausência de qualquer postura efetiva de enfrentamento por parte do Governo Federal capaz de transformar os rumos do nosso país, o tema está no centro dos debates. Então, está mais do que na hora de entender porque o SUS é tão importante para nós brasileiros! E no final você ainda pode ganhar um papel de parede do Zé Gotinha (é sério!).

O Brasil no mundo
 

Não é difícil encontrar por aí reclamações sobre a demora no atendimento ou falta de profissionais de saúde em alguns locais, sobretudo no interior e nos rincões do Brasil. mas, por outro lado, podemos nos orgulhar de algumas conquistas reconhecidas pelo mundo todo. Por exemplo: você sabia que o Brasil tem o maior sistema público de transplante de órgãos do mundo? 

Segundo dados da Associação Brasileira de Doação de Órgãos e do Ministério da Saúde, 96% dos transplantes realizados no país foram feitos gratuitamente pelo SUS, totalizando 26.518 procedimentos no ano de 2018. Em números absolutos, o SUS fica atrás apenas dos Estados Unidos. Graças aos esforços como o da organização sem fins lucrativos Gift of Life, criada em 1996, os estadunidenses alcançaram a marca de 32 doadores efetivos por milhão de pessoas em 2017 (5º lugar do ranking mundial), contra as 16,6 no Brasil (25º), segundo o Registro Internacional de Transplantes e Doações de Órgãos. 

Além disso, o Brasil também é reconhecido internacionalmente, até mesmo antes da criação do SUS, pelo seu Programa Nacional de Imunização, que obteve sucesso na erradicação de doenças como a poliomielite e a rubéola. Em uma operação que envolveu instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) e o Instituto Butantan no desenvolvimento e na produção de imunizantes, 92 milhões de brasileiros foram vacinados em apenas três meses, na pandemia de Influenza A H1N1 em 2010.

E aí, uma pandemia
 

Em 9 de fevereiro de 2020, quando em outros países a situação da Covid-19 já estava ficando crítica, o Governo Federal repatriou 34 brasileiros que viviam em Wuhan, na China, origem e até então epicentro da (ainda) epidemia da Covid-19. O primeiro caso confirmado no Brasil foi em 26 de fevereiro de 2020, em São Paulo. A primeira transmissão interna foi registrada em 5 de março. 

De acordo com a CNN Brasil, em fevereiro de 2020, o país dispunha de aproximadamente 41 mil leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sendo metade destes no SUS e a outra metade pertencente ao setor privado. O mesmo levantamento mostra que, em um ano, foram abertos cerca de 25 mil leitos de UTI, criados exclusivamente para atender pacientes em tratamento da Covid-19. No entanto, 60% dos leitos são exclusivos para os 25% da população que possui planos de saúde. Da outra metade, dependem mais de 150 milhões de brasileiros, que só têm o sistema público como suporte de saúde. Paralelo à pandemia, o SUS ainda precisa dar conta dos seus demais serviços e atendimentos convencionais. É uma conta que não fecha, e o resultado é a superlotação generalizada do sistema de saúde.

Não fosse a existência do sistema público, este cenário poderia ser ainda mais grave. Porém, o SUS não caminha sozinho, é preciso que a gestão compartilhada de municípios, estados e União saiba conduzir e estar atenta às suas necessidades. Mas, infelizmente, não foi essa a postura que vimos do chefe do executivo do nosso país. Ao invés de assumir as rédeas e coordenar a nível nacional o enfrentamento à pandemia, fez justamente o contrário. Foram várias as vezes que Jair Bolsonaro veio a público para minimizar a gravidade da pandemia, deslegitimar as recomendações de autoridades sanitárias, sabotar as medidas de enfrentamento criadas por outros governantes e promover aglomerações, trabalhando continuamente pela livre circulação do vírus.

E não acaba aqui. Durante a pandemia, Jair Bolsonaro protagonizou inúmeras ações controversas. Segundo a reportagem da BBC News Brasil, em janeiro de 2021, a União já havia gasto aproximadamente R$ 90 milhões em medicamentos como a cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida, que compõem o chamado “tratamento precoce”, defendido pelo presidente, e prescrito de maneira irregular através do aplicativo TrateCOV do Ministério da Saúde. Todos sem eficácia comprovada para o tratamento da Covid-19 e alguns com efeitos colaterais perigosos. E foi por discordarem de Bolsonaro acerca da eficácia do tal tratamento e da necessidade de adesão ao isolamento social, que Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich tiveram que entregar seus cargos como ministros da saúde. Teich não chegou a completar um mês na pasta. Ao todo, em pouco mais de um ano, quatro ministros diferentes já ocuparam a pasta, dificultando ainda mais a construção de uma base sólida para o combate à pandemia.

O mais longevo e obediente deles, o general da ativa Eduardo Pazuello, permaneceu no cargo por 10 longos meses, sendo apontado como um dos principais responsáveis pelas cenas trágicas causadas pela falta de oxigênio em Manaus, que levou pessoas internadas na UTI à morte por asfixia. O Governo Federal admitiu que foi informado do desabastecimento antes do colapso acontecer. Em janeiro de 2021, o Amazonas viveu o seu pior momento, registrando mais de 2.500 mortes em decorrência da covid-19. Pazuello é investigado neste episódio por determinação do STF, e deverá ser também alvo de investigações da CPI da Covid.

Em 2021, a descoberta de novas variantes mais transmissíveis desenhavam um quadro ainda mais severo na pandemia. O colapso nacional do sistema de saúde era iminente e foi alertado pelas autoridades sanitárias. Um lockdown rigoroso e imediato se fazia necessário para conter a disseminação do vírus. Bolsonaro então, na contra-mão do que vinha sendo articulado por prefeitos e governadores, agiu ativamente para que o lockdown não fosse realizado, com a justificativa de que a economia não poderia parar. Ao mesmo tempo em que reduzia a população alvo e o valor pago pelo Auxílio Emergencial. O preço da cesta básica ultrapassava os R$500, enquanto mais de 19 milhões de pessoas passam fome e o país ganha 11 novos bilionários na lista da Forbes.

A vacina chegou, mas caminha a conta-gotas por conta da negligência do Governo Federal, que desde o início politizou a aquisição delas, colocando em dúvida a sua eficiência, recusando a compra dos imunizantes e protagonizando episódios patéticos, como o dia em que sugeriu que o imunizante da Pfizer poderia transformar o vacinado em jacaré.  Com o surgimento das novas variantes, a falta de adesão ao isolamento social e a circulação livre do vírus em contato com pessoas que já foram imunizadas, corremos um sério risco de que uma nova mutação escape aos efeitos das vacinas, e tenha potencial de gerar uma nova epidemia.

Durante o fechamento dessa matéria, em abril de 2021, o Brasil vive o seu pior momento desde o início da pandemia, registrando recordes diários de mortes em decorrência da Covid-19. Atualmente a média móvel ultrapassa a casa dos 3000 óbitos e cerca de 70 mil novos casos são registrados diariamente. Ao todo, são mais de 353 mil mortes e 13,4 milhões de casos confirmados. O cenário nacional é de terra arrasada, um cemitério a céu aberto com longas filas de espera para internações nos hospitais. O Governo Federal tinha em mãos um sistema público de saúde mundialmente reconhecido e um Programa Nacional de Imunizações capaz de atender toda a população. Em meio a uma crise sanitária global, na qual a prioridade na maioria dos outros países é salvar a vida de seus cidadãos, matar parece ser mesmo a maior especialidade de Bolsonaro.

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