Terceira idade conectada

Como a pandemia mudou a relação dos idosos com as tecnologias
 
PRODUÇÃO: MARIA FERNANDA MACHADO, MARIANA ASSIS E RAYSSA AGUIAR
 

A videoconferência estava marcada para as 18h. Em poucos minutos, Lucy Procópio, de 72 anos, entra na chamada com naturalidade, como se estivesse fazendo mais uma das atividades corriqueiras de seu dia. Não demonstra acanhamento, tampouco falta de intimidade com a tecnologia. A moradora de Mariana estreitou as relações com o mundo digital durante a pandemia. “Tenho assistido muitas lives no Facebook e conversado com os familiares no WhatsApp”, conta.

 

video conferencia
Durante o isolamento social, Lucy Procópio, de 72 anos, intensificou sua relação com a tecnologia, algo cada vez mais presente no seu dia a dia. Foto: Márcia Machado.

A pandemia afeta os idosos de diferentes formas, alterando hábitos e maneiras de se relacionar, mas eles estão encontrando nas tecnologias de comunicação grandes aliados para superar as distâncias e manter vínculos com familiares e amigos. É o caso de Mônica Lamêgo, de 67 anos. Residente em Mariana, ela comenta que a tecnologia foi essencial para se aproximar do seu filho, que mora em São Paulo. “O meu filho caçula não parava em casa, não tínhamos tempo para conversar, só quando eu ia até lá”, afirma a aposentada.

A suspensão de visitas domiciliares, idas à igreja e até mesmo passeios ao ar livre, como o jardim ou a praça, modificaram, integralmente, a rotina e o cotidiano de muitos idosos. Foi a partir dessa readequação de hábitos que a tecnologia tornou-se símbolo da comunicação durante o período de distanciamento social. Na pandemia, eles participam de lives, fazem chamadas de vídeo, enviam mensagens de texto e áudio via WhatsApp, acompanham canais no YouTube e participam de grupos no Facebook.

Videochamadas aproximando pessoas
 

A chamada de vídeo é um dos recursos mais utilizados pelos idosos, principalmente para conversar com os familiares. Esse é o caso de Eloísa Costa, de   67 anos. Segundo ela, um dos momentos mais especiais durante a semana é quando pode conversar por vídeo com o seu neto e amenizar um pouco a saudade. “Ficar longe dos filhos é muito ruim, mas longe dos netos é muito pior. O neto te dá uma força de vida, o neto é uma luz”, afirma ela com um sorriso no rosto.

Adepta das tecnologias, a professora aposentada conta que prefere o contato visual para se comunicar, seja com os familiares ou até mesmo com as amigas de longa data. “Eu acho melhor, posso ver a fisionomia e saber como a pessoa está”, afirma ela, que entrega uma de suas espertezas para que o familiar ou amigo a responda mais rápido: “Chamo por vídeo e, se não me atender, eu mando logo um recadinho”.

 

Diminui o isolamento em si ou a sensação de isolamento, sensação de desamparo, de abandono, porque desde o idoso que tem o celular apenas para fazer ligação até aquele que consegue fazer chamada de vídeo, todos conseguem se adaptar” – Gabriel Medeiros, psicólogo e doutorando em psicologia clínica

 

Há também aqueles que não gostam de realizar chamadas de vídeo, como é o caso de Odete Mendonça, de 72 anos. Ela faz parte do grupo de pessoas que têm se comunicado cada vez mais por mensagens, sobretudo por WhatsApp. A ex-moradora da cidade de Mariana mudou-se para João Monlevade há pouco mais de dois meses, onde vive com uma de suas filhas. O contato com os outros familiares é viabilizado, em grande parte, por mensagens de texto. “Eu não gosto de vídeo e prefiro as mensagens para saber como eles estão”, explica a idosa, que se diz muito preocupada com o alastramento do vírus, principalmente em relação aos filhos e irmãs que moram em São Paulo e são mais velhas que ela. Além dela, Mônica Lamêgo também comenta: “A vantagem do telefone, do WhatsApp e do Messenger é que você troca mensagens e pode ver como a pessoa está”.

videoconferencia
Para Mônica Lamego, de 67 anos, as chamadas de vídeo via WhatsApp são recursos que têm ajudado a amenizar a saudade dos amigos e familiares. Foto: Maria Fernanda Machado.

Embora veja vantagens em enviar mensagens, Odete Mendonça destaca que as conversas são sempre muito rápidas porque “a vida é muito corrida”. Mas, mesmo assim, faz questão de usá-las para entrar em contato com a família, saber como eles estão física e mentalmente, o que traz tranquilidade “para seguir despreocupada”, destaca.

A preferência de alguns idosos pela utilização de mensagens de texto foi identificada no relatório Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) de 2018, baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo aponta a troca de mensagem como a principal finalidade do uso da internet. A interação, segundo a pesquisa, é realizada por mensagens de voz, texto, envio e/ou recebimento de imagens por aplicativos, respondendo por cerca de 95% do percentual das pessoas entre 10 anos ou mais, que fazem uso desse meio de comunicação.

Avós e netos
 

Mais um dado levantado pela TIC de 2018 refere-se às chamadas de vídeo. O relatório feito pelo IBGE aponta que entre 2016 e 2018 houve um salto de 73,3% para 88,1% na utilização do recurso para comunicação. É o caso relatado por Lucas Cardoso, de 21 anos, em relação às conversas com a sua avó, Eloísa Costa.

O estudante de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) conta que a realização de chamadas de vídeo via WhatsApp se intensificou durante o período de isolamento social e foi a melhor saída para conversar e interagir com sua avó. “Com o fator da pandemia isso ficou mais intenso. Ela começou a fazer mais questão que a gente respondesse e tivesse essa interação”. Segundo Lucas, as conversas por vídeo são muito importantes para a sua avó, porque “é como se responder ela fosse visitar”.

 

O encontro online é bom, porque você vê as pessoas, sente aquela emoção. A gente fica com muita saudade, é muito tempo sem ver, abraçar e bater papo – Lucy Procópio, 72 anos.

 

Eloísa Costa, que sempre teve facilidade com as redes sociais, é vista pelo neto como uma pessoa muito comunicativa, que tem aproveitado o período de quarentena para utilizar ainda mais recursos tecnológicos. “A minha avó já mexia com WhatsApp mesmo antes da pandemia, mesmo antes de ser uma coisa necessária”. Ele complementa e confessa aos risos: “Ela sempre manda aquelas coisas de vó, corrente e tal, só que ela gosta que responda”.

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As ligações por vídeo são um dos momentos mais prazerosos para Eloísa Costa, de 67 anos, que semanalmente liga para o seu neto, Lucas Cardoso, de 21. Foto: Montagem de Lívia Ferreira com imagem de Lucas Cardoso.
Lives no Facebook

As chamadas de vídeo e mensagens de voz e texto via WhatsApp não são as únicas ferramentas utilizadas pelos idosos. Plataformas como o Facebook também são bastante comuns no cotidiano deles. Lucy Procópio comenta que começou a fazer uso diário da rede social principalmente para se atualizar das notícias, acompanhar os amigos e, claro, assistir ao fenômeno da pandemia: as lives. “Eu mexi muito mais no Facebook, porque são muitas lives. Só as mais importantes que eu vejo, que vão me acrescentar muito, porque são muitas”. 

A professora aposentada, residente em Mariana, conta que o fechamento das igrejas impossibilitou as idas às missas e o único recurso que ela tinha era acompanhar tudo online no Facebook. “Foi um momento muito rico, porque de repente deu para acompanhar a celebração de qualquer parte da arquidiocese. Foi muito bom isso”. Ela fala que as lives da pastoral são ótimas para amenizar a saudade: “O encontro online é bom, porque você vê as pessoas, sente aquela emoção. A gente fica com muita saudade, é muito tempo sem ver, abraçar e bater papo”. 

YouTube para distração e lazer
 

Marlene Maia, de 80 anos, também estreitou o vínculo com o mundo digital no período da pandemia. A moradora do bairro São Pedro, em Mariana, comenta que a tecnologia é um antídoto para a nova realidade social, cujas medidas restritivas impossibilitam o contato físico para se comunicar. “Em casa não tenho com quem conversar”, lamenta. A pedagoga aposentada afirma que sempre teve facilidade com as tecnologias, mas foi durante o isolamento social que o uso desses recursos aconteceu de maneira mais marcante no seu cotidiano. “Aprendi a mexer sozinha no celular, mas quando tenho dúvida sobre algo pesquiso no Google”.

senhora fazendo croche
Ao longo da pandemia, alguns idosos aproveitaram o tempo livre para aprimorar habilidades como o crochê, com o auxílio de vídeos no YouTube e cursos online.
Foto: Maria Fernanda Machado.

Marlene acrescenta que o YouTube é uma das ferramentas mais utilizadas por ela, principalmente para estudar assuntos voltados para o seu campo de formação profissional: a pedagogia. “Gosto de pesquisar vídeos sobre Pedagogia, além de bordar ao som de músicas”. Além dela,  há outras idosas que fazem parte do grupo que priorizam a plataforma em alguns momentos de lazer. Eloísa Costa é uma delas. “Gosto muito de bordar, bordo em fitas. Procuro sempre no YouTube modelos que eu não conheço. Foi a partir disso que comecei a mudar as minhas técnicas de bordado”. Ela também aproveita a plataforma de vídeos para ouvir músicas e estudar temas variados: “Busco mensagens espirituais e religiosas, mensagens que melhoram a autoestima”.

Os games, mais conhecidos pelo sucesso entre crianças e jovens, também têm atraído a atenção dos mais velhos. Eloísa diz que um dos momentos de distração durante o dia é quando utiliza os aplicativos de jogos no celular. Ela fala que tem muita facilidade com esses recursos e que possui muitos jogos, principalmente de raciocínio lógico. “Gosto muito de joguinho que ajuda o nosso cérebro a ir para frente”. Ela enfatiza: “Procuro estar sempre aguçando a minha mente para que eu não caia no esquecimento dos meus”, referindo-se aos familiares.

idosa jogando no celular Outra alternativa que alguns idosos encontraram para a distração foram os aplicativos de jogos no celular. Na imagem, Eloísa Costa, de 67 anos, joga o famoso Candy Crush. Foto: Helena Costa.

 

Tecnologia: benefícios e prejuízos
 

Se por um lado as tecnologias contribuem para estreitar laços e manter um convívio com parentes e amigos, por outro pode ser prejudicial se usada sem cuidado. É o que alerta o psicólogo e doutorando em psicologia clínica pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Gabriel Medeiros, ressaltando que é preciso compreender que as gerações anteriores podem não estar diretamente inseridas na linguagem tecnológica e, por conta disso, sofrer consequências negativas com a profusão de informações, que podem ser confiáveis ou não.

 

Eu mexi muito mais no Facebook, porque são muitas lives. Só as mais importantes que eu vejo, que vão me acrescentar muito, porque são muitas – Lucy Procópio, 72 anos

 

As notícias falsas, popularmente conhecidas como fake news, se alastram no período de pandemia e disseminam inconsistências sobre o vírus e informações que não têm veracidade. Um relatório do Projeto Comprova, coalizão de 28 veículos de imprensa no Brasil focados na checagem de notícias, analisou durante 70 dias conteúdos noticiosos em redes sociais. Dentre os principais focos das fakes news no período, estão: boatos sobre curas milagrosas, que podem servir como incentivo à automedicação; questionamentos sobre a gravidade da pandemia no Brasil, entre outros. 

Para Medeiros, um dos pontos positivos que a tecnologia oferece aos idosos é minimizar os efeitos da quarentena. “Diminui o isolamento em si ou a sensação de isolamento, sensação de desamparo, de abandono, porque desde o idoso que tem o celular apenas para fazer ligação até aquele que consegue fazer chamada de vídeo, todos conseguem se adaptar”, explica. Além disso, o especialista acrescenta que é considerável o número de idosos que têm retomado os estudos, têm aproveitado as redes sociais para fazer novos amigos e estar informado em tempo hábil. Segundo ele, o idoso necessita estar observando as notícias, saber das novidades.

O  ponto negativo, por sua vez, incide exatamente no mau uso dessas tecnologias. O psicólogo destaca que tanto na perspectiva quantitativa (quantidade de horas de uso) quanto na qualitativa (qualidade do uso), o idoso pode sofrer consequências maléficas, já que não está acostumado com a velocidade de informações e recursos tecnológicos em larga escala, como é observado agora, o que pode influenciar em reflexos neurológicos negativos. Isto porque, de acordo com Medeiros, o sistema cerebral chamado de “recompensa” libera a dopamina, um neurotransmissor responsável pela memória, atenção, bem estar e sono. Portanto, a partir do momento em que há a desregulação da dopamina, é acionado o desejo de receber respostas o mais rápido possível, o que pode desencadear, em muitos casos, a ansiedade. 

Doutora em Ciências da Informação, Tatiane Gandra pondera que a inclusão digital dos idosos está mais atrelada à sociabilidade. Em sua pesquisa de mestrado, “Inclusão digital na terceira idade: um estudo de usuários sob a perspectiva fenomenológica”, desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),  ela afirma que, ao mergulharem no ambiente virtual e utilizarem aparelhos tecnológicos, há um sentimento de “pertencimento”. “Muitos idosos atribuem grande importância ao fato de que estar em contato e utilizar os dispositivos eletrônicos os coloca em igualdade com os demais sujeitos, com a sociedade”, destaca  a pesquisadora.

Apesar disso, Gandra frisa que pode haver uma falsa compreensão de domínio da tecnologia quando, na verdade, essa relação é muito limitada. “Percebemos que muitos idosos se sentem mais incluídos ou plenamente incluídos, quando na verdade não atingiram muitos dos indicadores de inclusão digital e informacional”. Esses indicadores avaliam o tipo de uso e qualidade ao se usar meios digitais.

Idosos em asilos
 

Na “famosa” terceira idade, alguns idosos vivem em asilos. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 71% dos municípios no Brasil não têm instituições para idosos. Dos que existem, 65,2% são filantrópicos, 6,6% são públicos e 28,2% são privados, como é o caso do Lar Comunitário Santa Maria, localizado em Mariana.

Teresa Santos, diretora e assistente social da instituição diz que “foi um choque fechar o portão no dia 16 de março do ano passado”. Segundo ela, o local precisou passar por processos de readequações, de acordo com os protocolos de prevenção à Covid-19. “Nós tivemos que agregar novos protocolos e um deles foi suspender as visitações na instituição. Não existia outra opção no momento”, lamenta.

 

“Gosto de pesquisar vídeos sobre Pedagogia, além de bordar ao som de músicas” – Marlene Maia, 80 anos.

 

Responsável pelo Lar, ela explica que lidar com a parte psicológica dos idosos residentes na instituição foi um dos principais desafios que ela, como diretora e assistente social, precisou enfrentar. Foi necessário refletir e encontrar mecanismos que pudessem resolver a questão: “Como lidar com a parte psicológica? Essa pressão que nós, profissionais, sentíamos, passou também para os idosos”. Ela complementa dizendo que a irritabilidade, o cansaço e a vontade de ver a família eram aspectos constantes no cotidiano deles.

Tecnologia: a grande aliada
 

Um recurso que ajudou os idosos do Lar Comunitário Santa Maria a lidar com o distanciamento social foi a tecnologia. Tereza comenta que a utilização de celulares e até mesmo tablets contribuiu e muito para amenizar a saudade e ausência do contato físico com os familiares, amigos e até mesmo com a comunidade que sempre visitava a instituição. “Um caminho que a gente encontrou, realmente, dentro dessas orientações, foi esse contato virtual, que fez uma diferença muito grande!”.

Ela diz que, em meados de julho, o Lar adquiriu um celular para fazer chamadas e estabelecer contato direto com as famílias: “Criamos o WhatsApp do Lar”, conta a novidade. Outro ganho importante para a ação foi a parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), que doou Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e um tablet. “A imagem ficou maior e eles puderam ver melhor os familiares”, comenta a diretora sobre as chamadas de vídeo.

idosos em asilo
Idosos do Lar Comunitário Santa Maria recorreram à tecnologia para manter contato com a família, já que o asilo, desde março de 2020, suspendeu as visitações. Foto: Teresa Santos.

Embora os idosos tenham ganhado celular e tablet, a diretora acredita que o estresse não diminuiu totalmente, e sim, apresentou uma melhora: “Não está 100%, porque não é a mesma coisa deles poderem ver o parente, o filho, o sobrinho, o amigo”. Ela afirma que a mídia contribuiu muito durante o processo de isolamento social no Lar, sobretudo na redução do estresse e comunicação, mas ainda assim os idosos sentem falta do contato físico com os familiares e amigos.

As redes sociais como aliadas dos idosos
 

Seja em asilos ou em suas casas, os idosos relatam que a tecnologia foi um alento importante para diminuir a angústia de não poder estar fisicamente com entes queridos. Isolados em seus lares, eles precisaram se reinventar e aprender novas maneiras de se comunicar e se entreter.

 Mesmo depois de um ano do início da pandemia de Covid-19 no Brasil, o país assiste ao aumento da doença que já matou mais de 300 mil pessoas, e não há indícios de melhora. Mesmo alguns idosos já tendo sido vacinados, eles não deixam de comentar o temor pelas suas vidas e dos que estão à sua volta. Mas é também durante esses sentimentos aflitivos que uma mensagem ou chamada de vídeo é capaz de diminuir alguns instantes a preocupação.