Setor alimentício: crise e oportunidades

Setor alimentício: crise e oportunidades

Empreendedorismo feminino: mulheres na cozinha, no marketing e na inovação de negócios em Mariana

Isabela Vilela

ERICA E THAINARA (arquivo pessoal)

Thainara Castilho, 25 anos, e Erica Verena, 27 anos, têm em Minas Gerais o palco da realização de seus sonhos. Thainara, nascida no estado do Mato Grosso, viveu por cinco anos na capital mineira, até sua mudança para a cidade de Mariana, em 2019, mesmo ano em que Erica, baiana, se mudava para a mesma cidade. Mas as conexões entre as futuras sócias foram muito além das geográficas. Em Mariana, ambas investiram em pequenos negócios no ramo gastronômico como fonte de renda: Thainara, com a venda de brigadeiros gourmet e Erica, com a produção de crepes artesanais. 

Logo no começo de 2020, contudo, o fechamento do comércio não essencial, as incertezas e o movimento de volta para casa dos estudantes universitários trouxeram dificuldades aos empreendimentos na cidade, fazendo com que cada uma delas tivesse que abandonar seus negócios. Mas, ao contrário do que se pode pensar, a decisão foi acertada. Na união das vidas pessoais e profissionais, Erica e Thainara reuniram a paixão pela gastronomia e o espírito empreendedor para a criação de um novo negócio: a Axé Donuts.

De matrizes religiosas afro-brasileiras, a palavra “axé” representa a energia sagrada dos orixás, definindo seu poder. É também uma saudação de boas energias ou, mais precisamente, na língua iorubá, a energia que se faz presente em cada uma das coisas do Universo. Foi a partir dessa energia vital que surgiu a Axé Donuts, primeira loja especializada nas famosas rosquinhas recheadas na cidade de Mariana, criada menos de três meses após o início da pandemia. Mundialmente conhecida por ser a comida preferida do personagem de desenho animado Homer Simpsons, a receita, que se popularizou nos Estados Unidos, leva ingredientes como farinha, água, açúcar e ovos que, após formar uma massa homogênea, é frita e recebe coberturas e recheios diversos, tornando-se agradável ao paladar e aos olhos dos consumidores. Mas, para as proprietárias, o produto vai muito além de um simples doce, os donuts são “uma sensação a ser vivida”. 

FOTO DONUTS (divulgação)

Apesar de ser vendido em padarias, mercados e lanchonetes, a Axé se diferencia, além da especialização, na produção diária de uma “nova massa artesanal  fermentada em processos naturais, garantindo uma experiência fresca”, elementos-chave para a formação do mix de crocância e maciez em cada um dos donuts.

O produto, também popularizado no Brasil nos últimos anos, possui uma versatilidade que, segundo as sócias, foi um dos motivos para o sucesso de sua inserção no mercado da região “[o donut] possibilita a expansão criativa com as suas diversas cores, texturas e sabores”. Com 18 variedades presentes no cardápio, elas também são responsáveis pela produção dos cremes, geléias e do doce de leite que compõem o produto.

“Buscando inovação e um novo conceito em marketing e alimentação”, como explicitam, o empreendimento, nascido em junho de 2020, viu nas redes sociais um de seus aspectos estruturantes. Os pedidos, feitos a partir de um cardápio on-line, são recebidos através de uma conta comercial no Whatsapp e pelo aplicativo Ifood.

Outro ponto de alavancagem da empresa foi a proximidade com a clientela por meio  de interações com vídeos da rotina produtiva, processos criativos na invenção de novos sabores e o compartilhamento de fotos dos próprios consumidores. Segundo as proprietárias, “este processo inovador estende-se, também, para outras esferas, como marketing, confeitaria e relacionamento interpessoal, visto que, por ser uma cidade pequena, os contatos se dão de forma mais orgânica”.

Operando via  delivery, proporcionando uma maior facilidade no cumprimento dos protocolos sanitários e maior comodidade aos clientes, o modelo escolhido para as entregas tornou-se uma “prática assumida na vida das pessoas”,  segundo as proprietárias.

O negócio que atendia, inicialmente, ao município de Mariana e Passagem de Mariana, passou a fazer entregas também em outras regiões como Ouro Preto e nos distritos de Antônio Pereira, Bandeirantes e Cachoeira do Campo, com  apoio de motoboys parceiros (que não fazem parte do quadro fixo do empreendimento), além dos motoboys do aplicativo utilizado.

Mesmo com o contexto nacional de desemprego sistêmico e as demais dificuldades enfrentadas durante a pandemia, como o aumento do preço dos ingredientes que levaram a um pequeno aumento no valor do produto final, a Axé se expandiu. Além das sócias, responsáveis pela produção, marketing e contabilidade do empreendimento, a equipe passou a contar também com Letícia Coura, auxiliar de cozinha. 

A escolha do nome já ditava o percurso de coisas boas. Com o avanço da vacinação e o crescimento do empreendimento, Thainara e Erica sonham com a expansão do negócio e a abertura de uma loja física no município. “A Axé Donuts surge como um conceito, como a expressão máxima de um sonho alcançado, de uma boa parceria que foi feita. Enquanto mulheres de negócios, buscamos demonstrar que o trabalho árduo pode não ser tão pesado quando acompanhado da pessoa certa. Ver a Axé Donuts crescer é nos ver também, crescendo e transformando, vivenciando diversas experiências e nos abrindo para as doçuras e aprendizados que a vida tem a ofertar”, comentam as proprietárias.

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