Setor alimentício: crise e oportunidades

Setor alimentício: crise e oportunidades

Empreendedores da região buscaram alternativas para manter seus negócios durante o período de isolamento

PRODUÇÃO: ISABELA VILELA, PAMELLA DAVIS E SARA NONATO

Com o início da pandemia de coronavírus, decretado em março de 2020, o fechamento de comércios não essenciais e as medidas de distanciamento social, Thainara Castilho, 25, e Erica Verena, 27, perderam a sua principal fonte de renda: Erica com a produção de crepes artesanais; Thainara, de brigadeiros gourmet. Elas são dois dos milhares de exemplos de brasileiros afetados pelos problemas econômicos decorrentes da crise sanitária que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), culminou no desemprego de 14 milhões de cidadãos em 2020.

Mesmo com os desafios do período, Thainara e Erica viram no ramo gastronômico a oportunidade para driblar as dificuldades profissionais. Menos de três meses após o início da pandemia de coronavírus, as sócias abriram a Axé Donuts, primeira loja especializada no produto em Mariana, Minas Gerais.

Foi neste mesmo contexto que Hudson Dutra, 33 anos, engenheiro mecatrônico, viu, em Ouro Preto, a oportunidade de abertura de um novo negócio. A Coxinha D’Ouro, empreendimento criado em 2018 com a sócia Camila Freitas, 31, tem como principal produto a produção de minicoxinhas. Os sócios não só conseguiram superar a crise, mantendo-se no mercado, como também tiveram um crescimento significativo.

Mas esses casos não são isolados. Segundo relatório de transparência, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, seis a cada dez empreendedores viram na pandemia uma oportunidade de negócio, sendo que 20% deles foram formalizados no período.

Delivery como incentivo

A abertura e expansão dos empreendimentos gastronômicos, durante a pandemia, possuem um ponto em comum: as facilidades proporcionadas pelos serviços de delivery. Segundo pesquisa realizada pela startup de gestão de finanças pessoais Mobills, a pandemia de COVID-19 acarretou um aumento de 149% nos gastos com delivery entre janeiro e dezembro de 2020.

Além da comodidade, o modelo de entregas possibilita a expansão das áreas de atuação do negócio, como é o caso da Axé Donuts que atende as sedes de Mariana e Ouro Preto e também  os distritos de Passagem, Antônio Pereira, Bandeirantes e Cachoeira do Campo.

“As pessoas, vivendo em isolamento social, começaram a pedir mais delivery. Isso aconteceu conosco, pois elas não podiam e nem tinham opções para se divertir e alimentar fora de casa. Começamos a observar que muitos clientes, chamados carinhosamente por nós de Coxilovers, faziam pedidos várias vezes por semana” – Hudson Dutra, sócio da empresa Coxinha D’Ouro.

(Fonte: Pesquisa Sebrae – O impacto da pandemia do coronavírus nos pequenos negócios – 11ª edição. Coleta 27 de maio a 1 de junho )


Mesmo em negócios já consolidados, o
uso das redes foi fator fundamental para manter a proximidade e visibilidade com a clientela. É o caso do empreendimento Bar e Pousada do Dico, localizado no distrito de Magalhães, a 25km da sede de Mariana, que viu seu perfil no Instagram crescer de 600 para 4.300 seguidores durante a pandemia.

Após se desligar do curso de Serviço Social, pelas dificuldades no ensino remoto, Patrícia Araújo, 22 anos, migrou de área para trabalhar no negócio dos pais. Com o bar localizado às margens de uma represa, as fotografias e vídeos publicados na internet foram um atrativo para aqueles que procuravam um lugar seguro para o lazer: “As pessoas passaram a procurar locais de maior ventilação e circulação, por conta do distanciamento social. Aqui, temos mesas com distanciamento, ar livre e, mesmo com a crise, tentamos manter o preço justo”, diz Patrícia.

BAR E POUSADA DO DICO (divulgação)

As histórias de sucesso no ramo gastronômico, mesmo em meio à crise econômica nacional, refletem-se nos números. Em pesquisa realizada pela Associação Comercial Empresarial de Ouro Preto (Aceop), com 124 empresários, 30% das empresas entrevistadas estavam relacionadas à alimentação. Desse total, 66% possuem até cinco funcionários, sendo a metade delas categorizadas como MEI.

O enquadramento enquanto microempreendedor individual tem como um dos motivos a própria exigência de aplicativos de delivery para uso das funcionalidades. É o que explica Valéria Ayres, especialista em Inteligência Competitiva, credenciada pelo Sebrae:

“Para entrar nas plataformas, eles precisam se formalizar e o MEI é um processo super simples. Em um dia, você consegue abrir o MEI , ter um CNPJ e emitir notas. Então, algumas questões tecnológicas vieram para ajudar muito as pessoas e elas exigem uma formalização”.

(Fonte: Pesquisa Sebrae – O impacto da pandemia do coronavirus nos pequenos negócios – 11ª edição. Coleta 27 de maio a 1 de junho)

De acordo com a pesquisa sobre o impacto da pandemia de coronavírus nos pequenos negócios, realizada pelo Sebrae, em novembro de 2020, cerca de 83% das empresas do ramo alimentício brasileiras ainda funcionam. Já no primeiro semestre de 2021, após a segunda onda da pandemia, somente 75% mantinham suas portas abertas.

Nos negócios que continuam de pé, os sonhos não têm limites. Para Hudson, o objetivo é expandir a iniciativa para a capital mineira e investir na venda de franquias da marca. Para Thainara e Erica, as boas energias vindas do significado da palavra “Axé” as levarão a abrir uma loja física e transformar seus donuts em “mais que apenas um doce, uma sensação a ser vivida”.

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