Saúde da mulher: os caminhos para a Casa Rosa

Saúde da mulher: os caminhos para a Casa Rosa

Beatriz Melo, Carolina Carvalho

Há menos de um ano, o número 237 da Rua Dom Viçoso, no Centro de Mariana, deixou de ser apenas um imóvel residencial. No primeiro andar do local, encontra-se o Centro de Referência de Saúde da Mulher, mais conhecido como Casa Rosa, local destinado a cuidar da saúde feminina. O projeto, implementado pela prefeitura de Mariana, foi inaugurado no dia 18 de agosto de 2021. 

A Casa Rosa oferece atendimentos de ginecologia, mastologia, nutrição e fisioterapia ginecológica. O local também contava com uma psicóloga, mas a profissional se aposentou há algumas semanas e seu cargo ainda não foi preenchido. Desde então, o Centro tem encaminhado mulheres que procuram atendimento psicológico a unidades do Centro de Referência de Assistência Social, o CRAS, e ao Previne, o Centro Municipal de Especialidades Médicas.

Esse projeto é inspirado em uma iniciativa da cidade de Vespasiano, inaugurada em 11 de agosto de 2020. O prefeito de Mariana, Juliano Duarte, soube da ideia e contatou a prefeita da cidade, Ilce Rocha, para saber mais sobre a dinâmica do local. O principal diferencial da proposta da Casa Rosa, presente tanto na unidade de Vespasiano, quanto na de Mariana, é o atendimento por uma equipe (recepcionistas, enfermeiras, médicas e equipe de limpeza) 100% feminina. 

A estudante de letras da Ufop, Alice Silveira, 25 anos, procurou atendimento no local após saber por uma amiga que ele possui um estafe composto apenas por mulheres. “Quando ela me falou disso, eu preferi vir aqui por esse motivo,” comenta a jovem. Conversamos com ela após sua primeira consulta no local para sabermos como foi o atendimento. “Foi ótimo! Eu vim de manhã, voltei agora à tarde e já fui atendida. Achei o atendimento ótimo”, respondeu a estudante.

Sala onde é feita a triagem das pacientes na Casa Rosa. | Foto: Beatriz Melo

A médica Patrícia Prima de Alvarenga, 33, ginecologista, obstetra e mastologista, já havia trabalhado em locais de referência para a saúde da mulher, mas, para ela, a Casa Rosa é o primeiro com a proposta de um olhar mais humanizado. “A gente consegue perceber que aqui as pacientes têm mais facilidade em procurar a unidade. Por N motivos que as pacientes têm dificuldade de procurar, aqui elas se sentem mais tranquilas, mais acolhidas”, conta a médica.

A saúde íntima da mulher ainda é um tabu. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) fez um levantamento juntamente com o Datafolha que aponta que quatro milhões de mulheres no Brasil nunca foram ao ginecologista. Além disso, 16 milhões de mulheres ficaram mais de um ano sem ir ao especialista por vergonha, medo de um diagnóstico ou por não gostarem de se consultar.

De acordo com a médica, a Casa Rosa é um ambiente onde mulheres com queixas mais íntimas, como falta de libido, por exemplo, se sentem mais confortáveis para procurar ajuda profissional. Ela relata que o atendimento ginecológico é o serviço mais procurado na casa. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, apenas em abril de 2022 foram realizados 70 exames ginecológicos.

 

A Casa Rosa disponibiliza atendimentos ginecológicos de emergência. | Foto: Carolina Carvalho

O Centro de Referência na Saúde da Mulher atua na atenção secundária no tratamento especializado na saúde íntima das pacientes. Além disso, o local realiza atendimentos sem a necessidade de marcações prévias. As pacientes que vão até a Casa Rosa são acolhidas pela equipe de enfermagem e direcionadas à especialidade necessária dentro do próprio local. Por adotar essa medida de acolhimento, o Centro de Atendimento atua de forma conjunta com a ação primária, por meio de um fluxo de encaminhamento das Unidades Básicas do Município (UBS).

A enfermeira e coordenadora da Casa Rosa, Hyanne Amorim, 45, explica que “como a Casa tem pouco tempo desde que foi inaugurada, a gente ainda não tem ao certo um protocolo.” Em entrevista, ela alerta que o procedimento correto para receber atendimento é a paciente buscar a UBS do bairro em que reside, onde ela será atendida por um Clínico Geral. Após a avaliação prévia, se for necessário, ela pode ser encaminhada para o tratamento específico na Casa Rosa.

 

A casa é um centro de atendimento de “portas abertas”. | Foto: Beatriz Melo

Mesmo adotando essa dinâmica, a coordenadora do Centro ressalta que “não é a nossa intenção ser atendimento primário, mas a gente também não deixa de atender nenhuma mulher que nos procura”. De acordo com a enfermeira, dois fatores fazem as mulheres acionarem a Casa Rosa antes de uma UBS para um atendimento de rotina. O primeiro fator é a demora nas marcações das consultas eletivas nas UBS, que costuma ser relatada pelas pacientes. O segundo motivo é a preferência das mulheres por serem atendidas por uma equipe feminina.

Hyanne também conta que algumas pacientes, em especial estudantes da UFOP, acionam a Casa Rosa como atendimento primário por não compreenderem a dinâmica do Sistema Único de Saúde da cidade. A enfermeira relata que uma parcela das mulheres não sabem a UBS de referência do bairro que residem.

É o caso da estudante de Jornalismo da Ufop, Evelin Almeida, 22, que procurou a Casa Rosa duas vezes. Na primeira tentativa não havia mais vagas de consulta. Ao retornar na casa, a jovem foi informada que o atendimento deveria acontecer na UBS do seu bairro. Evelin foi ao local indicado, “mas chegando lá eu pedi informação e eles falaram que era em outra unidade, que seria correspondente ao meu bairro.” Por falta de tempo, a estudante acabou desistindo de procurar atendimento.

Ainda que a Coordenadora da Casa defenda o atendimento de todas as mulheres que procuram o centro, situações como a de Evelin ocorrem pela falta de um protocolo definido que seja comunicado para as mulheres de Mariana. Essa divulgação seria ainda mais importante no momento atual, já que, com o retorno das aulas presenciais da Ufop, as estudantes universitárias se tornaram um grande público da Casa Rosa, como apontou a coordenadora do local.

Agora, quase um ano depois de sua inauguração, aproximadamente 2400 atendimentos foram realizados no Centro de Referência à Saúde da Mulher, mas a Casa Rosa ainda tem muitos desafios a enfrentar. Para Hyanne, um papel importante da casa é ajudar a monitorar o crescimento de problemas na cidade, como as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), para que, em conjunto com outros setores da saúde e da educação, a Casa Rosa possa ser uma ferramenta de prevenção e cuidado. Ela ainda completa que “o principal desafio é realmente se firmar como uma unidade de referência de urgência que a população entenda”.

A Casa Rosa funciona das 7h às 16h durante a segunda, a quinta e a sexta-feira. Mas às terças e quartas-feiras, ela fica aberta das 7h às 18h, e para marcar consultas, realizar exames e cirurgias é necessário apresentar os seguintes documentos: carteira de identidade, comprovante de endereço e o cartão do SUS.

Lembrando que antes de receber o atendimento no Centro de Referência na Saúde da Mulher, é preciso se encaminhar primeiro à UBS mais próxima para receber o direcionamento para a Casa Rosa. Confira no mapa os endereços os horários de funcionamento das UBS de Mariana e dos distritos: