Raio-x da UPA de Ouro Preto está parado há cinco meses

Contrato vencido com a empresa que presta serviços de manutenção impede o conserto da máquina

Texto: Lucas Mantovani e Renato Rinco | Foto: Ramon Vinny | Audiovisual: Celso Peixoto

O aparelho de raio-x da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no bairro São Cristóvão, em Ouro Preto, está parado há cerca de cinco meses, prejudicando a qualidade dos serviços públicos de saúde.  Desde o dia 26 de dezembro, o aparelho não opera raios-x por causa de dois componentes queimados na placa. A expectativa do coordenador de urgências da UPA, Leandro Leonardo de Assis Moreira, era de que a máquina voltasse a funcionar até o dia 14 de maio, o que não ocorreu.

Dados obtidos junto ao coordenador mostram que o aparelho de raio-x atendia de mil a 1.200 pacientes por mês. Com a falta do equipamento, os usuários são encaminhados para o atendimento de duas formas distintas. As urgências, exames que necessitam de realização imediata, são encaminhadas para a Santa Casa de Misericórdia, hospital privado que presta serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os exames eletivos, considerados de acompanhamento, são encaminhados para o Centro de Saúde da Ufop.

Segundo o Centro de Saúde da universidade, no último trimestre de 2017, foram registrados apenas quatro exames. Após a quebra do aparelho da UPA, os registros aumentaram para 422 só no primeiro trimestre de 2018, representando uma alta de 105,5 vezes nos atendimentos. Porém, o aumento não é prejudicial para o Centro de Saúde, segundo a coordenadora Deisyane Fumian Bouzada. “A máquina de raio-x antes precisava de constantes reparos por conta da ociosidade”, afirma.

Os pacientes que forem utilizar o serviço da universidade ainda precisam comprar um CD, pois o aparelho da unidade não revela chapas. De acordo com Leandro Moreira,  o exame na Santa Casa é liberado apenas para os pacientes que obtiverem um carimbo de “urgência” no pedido, o que obriga os usuários a se deslocarem primeiramente até a UPA para só então seguirem para a Santa Casa. A distância entre os dois locais de atendimento é de cerca de 6,5 quilômetros e existem ônibus e táxis-lotação disponíveis.    

O coordenador de urgências da UPA explica que esse procedimento é para que a Secretaria de Saúde saiba o número de pessoas atendidas e possa liberar os raios-x, visto que a Prefeitura de Ouro Preto está pagando pelos serviços de radiografia prestados pela Santa Casa. “As urgências sempre acabam passando pela UPA. Os pacientes que são encaminhados das UBSs (Unidades Básicas de Saúde) passam pela UPA e seguem por meios próprios à Santa Casa. Já os que chegam diretamente à UPA, comprovada a necessidade do raio-x, são levados por uma de nossas ambulâncias à Santa Casa”, afirmou Leandro. A Secretaria de Saúde não informou ao LAMPIÃO quanto paga à Santa Casa pela realização dos exames.

A dificuldade para fazer o raio-x tem incomodado os pacientes do SUS. A demora na realização do exame, o deslocamento até a UPA para depois ser encaminhado para a Santa Casa e a necessidade do CD para a gravação do raio-x, na Ufop, são as maiores reclamações. Tal situação é evidenciada, por exemplo, por José Fernandes da Silva, 61 anos, que levou a irmã, Márcia de Fátima Fernandes da Silva, 52, para fazer o exame

José e Márcia foram encaminhados da UPA para o Centro de Saúde da Ufop, mesmo a paciente apresentando sintomas de pneumonia, motivo que configura urgência, segundo Leandro. “Minha irmã passou mal a noite inteira, estava com muito catarro. Viemos em consulta na UPA e a médica disse que poderia ser pneumonia. Fomos mandados para a Ufop, mas ninguém avisou que eu precisaria comprar um CD, tive que sair pra comprar. Demoramos, pelo menos, umas três horas a mais”, afirmou José.

O mesmo aconteceu com Amélia Antônia da Silva, 90 anos, que estava sentindo muitas dores na cabeça e com pedido de raio-x para o tórax. Foi, junto ao filho, João Batista da Silva, encaminhada de uma UBS para a UPA, a fim de tentar realizar o exame. “Eles me disseram para ir até a UPA, só quando eu cheguei aqui me disseram que eu tinha que ir pra Ufop”, declarou Amélia.

O Jornal Lampião acompanhou o percurso de Amélia para conseguir o atendimento. Veja no vídeo abaixo:

Entenda a demora no reparo do raio-x

Uma placa de policarbonato e a memória do aparelho de raio-x foram queimados por conta de uma oscilação elétrica ocorrida no dia 26 de dezembro,  segundo o coordenador de urgências, Leandro Leonardo de Assis Moreira. “Existe um transformador que manda energia para a UPA e para o restante do bairro. Nós já acionamos a Cemig mais de uma vez, mas eles olharam e não fizeram nada, falaram que naquele momento estava tudo certo no transformador.” Questionada pela reportagem, a Cemig negou que haja qualquer problema com o equipamento. “Não temos relatos e nem histórico de ocorrências de falta de energia ou oscilação na UPA de Ouro Preto. A Cemig entrou em contato com a UPA e foi verificado defeito interno no local”, afirmou a assessoria de comunicação da empresa.

Existem dois transformadores em frente à UPA. O primeiro fica fora do local e o segundo transformador está localizado em um poste dentro da unidade de pronto atendimento. Os dois são de responsabilidade da Cemig, segundo a Secretaria Municipal de Obras e Urbanismo de Ouro Preto. De acordo com o superintendente da secretaria, Nilson Efigênio Gomes, o município compra energia bruta de média tensão da Cemig e transforma em baixa tensão para uso, função desempenhada por este segundo transformador.

Ainda segundo o superintendente, não chegou à secretaria nenhuma reclamação de queima de aparelhos na UPA. Isso deveria ter sido feito pela Secretaria de Saúde ou pela empresa responsável pelas manutenções dos equipamentos, LM Biotecnologia, para que eles pudessem averiguar junto à Cemig se o motivo está no transformador. A unidade de pronto atendimento conta com um gerador, abaixo do segundo transformador, porém, segundo o que uma fonte informou ao LAMPIÃO, o encarregado de ligá-lo é “quebra-galho, não tendo habilitação para manutenção”.

No fim do ano passado, a LM Biotecnologia, empresa que detinha o contrato de prestação de serviços para aquisição de peças, assistência técnica e manutenção mensal em todos os equipamentos e aparelhos médicos do SUS de Ouro Preto, foi avisada da quebra e levou a placa com os componentes queimados para Belo Horizonte. Somente no dia 11 de janeiro, a empresa retornou com uma proposta no valor de R$ 3.400 R$ 1.900 pelo painel de policarbonato e R$ 1.500 pela memória , com prazo de 30 dias para resolução. A justificativa da empresa sobre a demora se deu pela dificuldade de localizar os componentes que haviam queimado. Segundo Leandro Moreira, a proposta foi aceita no mesmo dia, e o pagamento foi efetuado à vista. Passado o prazo para a resolução do problema, a empresa ainda não havia localizado os componentes para efetuar a compra.

Para agravar a situação, o contrato da Prefeitura de Ouro Preto com a LM Biotecnologia venceu no dia 6 de março e a peça, já paga pelo governo, estava em posse da empresa, que não efetuou a instalação dos componentes. Até o dia 18 de abril, a secretária de saúde de Ouro Preto, Eliane Cristina Damasceno Coleta, não conseguiu reaver as peças. Ao mesmo tempo, a prefeitura está em processo de cotação de preços para realizar a mão de obra no raio-x, com a expectativa de que até o dia 14 de maio o equipamento voltasse a funcionar normalmente, o que não ocorreu. Segundo o coordenador de urgências, Leandro Moreira, existe a hipótese de que, mesmo sem contrato vigente, a LM Biotecnologia preste a manutenção no aparelho de raio-x, visto que o contrato era válido no momento da quebra e o prazo de 30 dias para resolução não foi cumprido. A empresa negocia com o setor jurídico da Prefeitura.

A administração decidiu não renovar o contrato com a LM Biotecnologia, pois não havia mais verba em contrato destinada à compra de equipamentos. A empresa foi contratada em 2014 e, até março de 2018, recebeu R$226.789,00. “Existia a opção de renovação, mas não fizemos isso porque este contrato cobre manutenção preventiva e corretiva, mas não consegue renovar saldo de peças. Renovamos (o contrato) no início da gestão (2017), quando havia uma verba para peças, cerca de R$ 15 mil. A proposta para esse ano é fazer um novo processo licitatório, incluindo um saldo mensal de peças”, afirmou Leandro.

Esta não é a primeira vez que o raio-x da UPA parou por causa de componentes queimados. Segundo Leandro Moreira, entre o Natal de 2016 e o Carnaval de 2017, o aparelho ficou paralisado. Nessa mesma época, a Secretaria de Obras e Urbanismo trocou toda a fiação interna para um cabo de maior qualidade, pois a estrutura era antiga.

Procurada insistentemente há mais de quatro semanas, a secretária municipal de saúde de Ouro Preto, Eliane Cristina Damasceno Coleta, não deu retorno ao LAMPIÃO até o fechamento desta reportagem. Procurada há mais de três semanas, a Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Ouro Preto se limitou, em nota, a dizer que “A Secretaria Municipal de Saúde informa que a manutenção do equipamento de Raio X está em andamento, sem previsão para entrega. Toda demanda por Raio X é direcionado à Santa Casa, assim o atendimento a esse procedimento está garantido”. Até a conclusão da matéria o equipamento não voltou a operar.