Projetos agroecológicos durante a pandemia em Ouro Preto

PRODUÇÃO: ANNA CHAVES, LUCIENE SANTOS E MARINA FIORAVANTE 

A alimentação no Brasil é um direito fundamental previsto na Constituição, e não se trata de qualquer alimentação. O Estado tem o dever de garantir uma refeição de qualidade de acordo com a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional, de 2006, a qual explica que segurança alimentar e nutricional é vista como alimentos de qualidade e quantidade suficiente. Em tempos pandêmicos, a fome foi agravada de maneira expressiva no país, fazendo o Brasil entrar novamente para o Mapa da Fome. A forma de cultivo daqueles que prezam pelo alimento orgânico, natural e livre de agrotóxicos, também sofreu consequências.

Neste cenário de pandemia, surgiram propostas e projetos na cidade de Ouro Preto que fomentam novas perspectivas de como envolver a comunidade com uma alimentação diversificada, e de manter os pequenos agricultores dentro dos seus trabalhos habituais como plantio, colheita e manejo do solo. Projetos que têm como comoção as causas coletivas unidas com os saberes sobre o plantio e que tem como objetivo fazer com que os produtos e ingredientes saudáveis continuem circulando na região ouropretana e seus municípios próximos. Muitas vezes, os residentes dos bairros de Ouro Preto não possuem conhecimento sobre onde encontrar esses alimentos  orgânicos, uma vez que, devido a pandemia, muitas das atividades como as feiras foram prejudicadas e reduzidas. 

Os quatro projetos que se compuseram durante a pandemia, têm como proposta defender e permanecer  com os pequenos agricultores no trabalho da alimentação orgânica. Também traz uma reflexão sobre a vida do pequeno agricultor,  como esses projetos servem de apoio, e como lidam com a inclusão das redes sociais na sua dinâmica de vendas. De acordo com Paola Portes, uma das responsáveis pela horta comunitária, Horta da Paz, do bairro Vila Aparecida, a escuta das pessoas que moram ali é realizada para saber o que pode ser benéfico para eles e transformar as necessidades dos residentes em cultivo, e produção. Segundo ela, só é possível obter esse vínculo e trabalho ouvindo as pessoas que têm sentimento de pertencimento ao local.  Célia Corcini é agricultora, e devido ao fechamento das feiras livres no início da pandemia, Célia criou o  Delícias Corcini, também de Ouro Preto. Ela produz os quitutes orgânicos e permanece fazendo o manejo de hortaliças e cultivo agroecológico.

 Sítio Ressaca
No Sítio Ressaca, entre os distritos de Cachoeira do Brumado e Monsenhor Horta, são cultivados os ingredientes dos produtos Delícias Corcini. Foto: Célia do Carmo Corcini

Horta Da Paz

Desenvolvida pelo Coletivo Pronobis, a Horta da Paz (@horta.da.paz) surgiu no momento da pandemia da Covid-19, com o intuito de oferecer à comunidade da Vila Aparecida, uma horta comunitária. O significado do nome do projeto “Horta da Paz” faz referência ao nome da casa “Templo da Paz” onde moram os fundadores do programa. O Coletivo recebeu o nome de “Pronobis” porque é uma hortaliça presente na horta dos fundadores e possui o significado que vem do latim “para nós”, com o objetivo de tudo que for realizado dentro do grupo, sejapensado para todos da comunidade. O projeto é idealizado por Daniel Silva, biólogo e pesquisador, Pedro Barbosa, terapeuta ocupacional e a Paola Portes, advogada e pesquisadora de direito socioambiental, que contaram sobre o processo de criação e idealização do projeto. 

No quintal da casa onde mora o grupo de amigos, há um espaço que, a algum tempo atrás, não era valorizado, onde ficavam entulhos de obras e mato. Devido a paixão pela natureza, cuidado com a alimentação e o respeito com a vida dos animais, o grupo de amigos juntou as causas coletivas e se motivaram a realizarem a construção de uma horta comunitária no fundo do quintal da própria casa. Após a união dos objetivos em comum, realização da capina, limpeza do terreno (retirada de lixo) e a nutrição do solo com a compostagem doméstica e adubos para criarem a Horta da Paz. Paola Portes informa que “O objetivo da construção da horta comunitária é possibilitar que a comunidade tenha um espaço para cultivar o seu próprio alimento, além de incentivar a população a consumir alimentos saudáveis”. Com a realização desse projeto, pessoas da comunidade se interessaram em conhecer a Horta da Paz e iniciaram a produção de uma horta agroecológica em suas residências. 

Atualmente, a horta conta com o apoio de colaboradores que atuam fora do Coletivo Pronobis, ajudando no desenvolvimento e nos cuidados com as hortas. Essas pessoas possuem um canteiro onde podem plantar hortaliças. Outros voluntários contribuem na divulgação do projeto nas redes sociais  e participação de reuniões on-line.

Os Restaurantes Universitários, os “RUs” da Universidade Federal de Ouro Preto, eram uma alternativa de almoço e jantar para os estudantes, em razão do custo e benefício, além de possuir alimentos agroecológicos nos cardápios. Devido a paralisação do ensino por causa da pandemia, o RU teve que ser fechado, dificultando o acesso dos estudantes a alimentos orgânicos. Paola relata sobre o processo de fechamento dos restaurantes e a possibilidade de iniciar o hábito para o cultivo do próprio alimento do grupo e da comunidade: 

CRAS – Padre Faria

O CRAS do bairro Padre Faria (@cras_padrefaria) de Ouro Preto também conta com um projeto de horta comunitária. A iniciativa  começou a partir da preocupação com a segurança alimentar e nutricional da população. A nutricionista e coordenadora do CRAS, Fátima Baudson, afirma que mais do que dobrou com  a pandemia, o número de solicitações do benefício de cesta básica. 

A iniciativa visa a distribuição de alimentos da horta como complemento necessário para a cesta básica e estimular o consumo de hortaliças e leguminosas, e  também o ensino de cultivo, mesmo para quem não tem espaço para plantar diretamente no solo. Segundo Fátima, como nutricionista, se sentiu comovida com a situação, que vai muito além do ato da distribuição de cesta básica em si,  e ressalta como  essa iniciativa, junto com as entidades sócio-assistenciais, podem ajudar a minimizar o impacto causado pela pandemia na alimentação das famílias. Em busca de uma política pública alternativa e eficiente, começou a ser refeito o uso da horta já existente do CRAS.

Horta Comunitária
Letícia Helena de Oliveira Cassimiro é estudante de nutrição na UFOP e, em função do estágio no CRAS, realiza atividades na horta comunitária. Foto: Isabela Fernandez

A divulgação do projeto é através de mídias sociais,  no instagram do CRAS e através de contato telefônico. Além disso, o projeto também conta com apoio da comunidade. Com o objetivo de convidar  mais pessoas a participar e mostrar o resultado e andamento da horta, a rede social pode auxiliar na distribuição do que foi cultivado. Fátima ressalta os benefícios da horta comunitária, além de fortalecer os vínculos comunitários e familiares durante o trabalho na plantação, é enriquecer a alimentação das famílias que recebem cesta básica. O projeto também tem como finalidade encorajar o cultivo de alimentos de qualidade pelo próprio consumidor sem que este dependa do poder público, fazendo uma otimização do espaço para plantio dentro das suas moradias:

Atualmente, o CRAS conseguiu abrir vaga para estágios de nutrição, o que foi uma conquista para o grupo. São três estagiárias voltadas para o cuidado da alimentação que é cultivada, e movimentam as redes sociais, meio indispensável para expor os projetos que são desenvolvidos. 

Comida de Verdade 

Neste ano, a bióloga e agricultora urbana Luana Freitas formalizou e criou o empório Comida de Verdade (@comidadeverdade.op) em Ouro Preto. Segundo ela, a pandemia impactou de forma negativa, devido aos valores praticados sobre os produtos. A bióloga afirma que: “Com a alta do combustível e das matérias primas, os produtos encareceram e as vendas diminuíram”. O empório mantém contato com seu público pelas redes sociais, principalmente Whatsapp e Instagram, e colabora com os agricultores locais. Luana já atuou como agente da assistência técnica e extensão rural (Ater). Durante a pandemia, o Comida de Verdade reforçou o contato pelas redes sociais, assim como a higienização de toda sua produção, somando mais de 100 produtos de alta qualidade, naturais, orgânicos e agroecológicos. 

Entrega dos produtos aos clientes
Luana Freitas (à direita) faz pessoalmente a entrega dos produtos aos clientes. Foto: Rodolfo Rodrigues

Delícias Corsini

Célia Corsini participa da Feira Livre, com o fechamento das feiras e como uma adaptação a pandemia, a agricultora criou sua própria marca de confeitaria e hortaliças orgânicas, sendo as vendas realizadas por delivery. Pelo Whatsapp o cliente consegue ver os produtos disponíveis em uma lista, e fazer sua encomenda, tudo produzido em um dia para ser entregue logo no outro, uma dinâmica que previne Célia de perder produtos e alimentos. Muitos pequenos produtores como Célia, precisaram criar outras formas de se manter devido a falta de auxílio da prefeitura local:

O que vai ser mantido para além dos tempos da pandemia, segundo os produtores locais,  é o contato direto com o cliente que o uso do Whatsapp trouxe. De acordo com Célia, é um relacionamento muito benéfico para seus negócios, uma vez que o consumidor opina sobre os produtos, realiza pedidos mais personalizados e faz observações.

O fechamento parcial dos comércios na região dos Inconfidentes dificultou a venda de produtos orgânicos e a realização de feiras em espaços públicos, prejudicando em muitos casos a renda familiar dos produtores e feirantes. Para que pudessem dar continuidade às vendas, eles aderiram a proposta de empreenderem por meio das redes sociais (instagram e whatsapp), que para muitos oferecem vantagens para o desenvolvimento das vendas. Os projetos que surgiram durante a pandemia utilizam a mesma proposta das plataformas digitais, além de incentivarem o cultivo das pessoas que acompanham as redes. 

No mês de julho foi celebrado o trabalho daqueles que alimentam o país com qualidade,  que levam comida livre de agrotóxicos e outros conservantes para o prato dos brasileiros. Sendo as datas no dia 25 de julho comemorando os agricultores familiares e o dia 28 é dedicado aos agricultores. São eles os pequenos agricultores, as pessoas responsáveis por hortas comunitárias,  que de alguma forma estão trabalhando dia após dia para enriquecer a alimentação do prato de uma família.

Para saber mais sobre os projetos de feiras agroecológicas da região dos Inconfidentes, confira a tabela abaixo:

Tabela Feiras agroecológicas

 

 


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