Projeto de revitalização do Jardim está na reta final

Projeto de revitalização do Jardim está na reta final

Repórter: Alexia Nunes Carrara

 

A praça Gomes Freire, localizada no centro de Mariana, passará por uma revitalização custeada pela Fundação Renova. A reforma foi anunciada no Instagram da prefeitura de Mariana, no dia 11 de outubro, mas a primeira reunião conjunta com a população foi realizada dez dias antes. O projeto vem sendo discutido em  reuniões conjuntas entre moradores, comerciantes da região, órgãos públicos e a Fundação Renova, instituição responsável por desenvolver projetos de compensação de danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão. 

Durante o referido mês, foram realizadas algumas reuniões com participação da comunidade para detalhar o projeto e discutir sua implantação. No dia 3 de novembro, o paisagista responsável, Marco Nieves, ofereceu uma oficina na praça para explicar as mudanças propostas. O paisagista explicou as mudanças propostas pelo projeto, que foram discutidas com uma média de 50 pessoas, dentre moradores, comerciantes e interessados no assunto.

O próximo passo é a realização da audiência pública, marcada para o dia 11 de novembro, para divulgar os ajustes do projeto e uma última discussão com a comunidade. Após a audiência, o Jardim será fechado para a reforma, a partir do dia 13, com previsão de duração de quatro a cinco meses.  

Segundo o vídeo postado pela prefeitura, os mais de R$ 3 milhões seriam investidos na alteração dos pisos, remanejamento de árvores, construção de banheiros e melhorias na iluminação da praça, também conhecida como Jardim. O secretário de Cultura e Turismo de Mariana, Efraim Rocha, conta que o projeto ainda está em fase de desenvolvimento e que foi realizada uma consulta ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan), com o objetivo de conhecer o que é possível realizar dentro do que foi planejado. 

Participante da Associação de Moradores do Centro, a comerciante Rosemeire Peixoto, 65 anos, nasceu e cresceu em uma casa em frente ao Jardim e afirma ser contra alguns aspectos da reforma, por temer a descaracterização do local. Ela percebe o patrimônio histórico não só como fonte de lucro pelo turismo, mas também como importante para a construção da memória e história da cidade. Para a moradora, o espaço precisa de cuidados e de uma reforma para melhor atender a população. 

A associação tem se reunido para falar sobre as alterações necessárias e os espaços que precisam ser preservados. Segundo ela, “a associação não quer que a reforma deixe de ser realizada, mas que haja um monitoramento do que realmente precisa ser feito”.

 Rosemeire conta que descobriu o projeto da reforma às vésperas da primeira reunião. Foi então que a Associação de Moradores do Centro apresentou uma pauta com as reivindicações da comunidade. 

Rosângela do Espirito Santo tem um bar em frente ao Jardim, há mais de 30 anos, também teme a descaracterização do local. Ela ainda fala da importância da conversa com a população para a criação de um projeto de reforma que atenda as necessidades da população “a opinião de todo mundo é válida, precisa fazer um apanhado e ver o que é melhor pra cidade”.

Foto: Alexia Nunes Carra

 

Discussões acerca do projeto

A revitalização do Jardim pela Renova é uma medida compensatória, mas também indica um interesse da administração pública, que acompanha uma série de projetos oferecidos pela empresa. Segundo Efraim, a construção do projeto e a liberação de demandas para sua realização é rápida. O secretário também afirma, de modo contraditório,  que “não é que o município colocou como prioridade, mas é uma obra que o prefeito deseja realizar”.

O projeto da reforma tem uma previsão média de duração de 5 meses e,  segundo Efraim, ainda não foi divulgado na íntegra por estar em fase de estudo e adequação.  “Ainda que as pessoas digam que não foi passada a informação, não houve prejuízo, porque essa informação foi passada. É como se a gente tivesse recomeçado. Isso ainda vai ser passado pra sociedade com muita clareza”, afirma o secretário.

A Fundação Renova foi procurada e respondeu em nota que tem realizado reuniões periódicas com a Prefeitura de Mariana: “a comunidade será convidada a participar de uma nova audiência pública, que ainda será marcada, para conhecimento de informações e esclarecimento de dúvidas sobre o projeto.”.

O Iphan participou da primeira fase de análise do projeto, mas atualmente o órgão se encontra sem responsável.

Foto: Alexia Nunes Carrara

 

Histórico de mudanças 

O lugar que hoje conhecemos como Jardim existe desde a construção dos primeiros casarões de Mariana. Na dissertação “A sociabilidade do Jardim de Mariana-MG: distintas formas de experiência da Praça Gomes Freire”, o jornalista e mestre em comunicação Filipe Barboza estuda os papéis que o Jardim desempenhou durante a história da cidade. 

De acordo com a pesquisa, a expansão de Mariana se deu ao redor da praça da Matriz, atual Praça da Sé, no início do século XVIII.  Nessa época, o espaço do Jardim era utilizado como rossio, denominação para os terrenos doados pela coroa portuguesa para as câmaras locais, que poderiam ser de uso comunitário ou concedidos em forma de lotes para os moradores da vila.

Com o crescimento da Vila, vieram as renovações urbanas. A partir da metade do século XVIII o jardim passou por uma arborização e houve a construção de um tanque de água para cavalos e um chafariz para uso popular e passou a abrigar algumas festas populares.

No começo do século XX, as praças passaram a ser entendidas como um espaço para passeios, socialização e lazer e mais reformas foram feitas no espaço do Jardim, como a construção do coreto, em 1937, e a construção dos caminhos e contornos do espaço. A iluminação pública e a energia elétrica, que chegou em Mariana em 1937, também foram responsáveis pelo aumento do uso do espaço. A praça se tornou até cartão postal de Mariana, representando um espaço da cidade que deveria ser mostrado ao resto do país. 

 

Medidas compensatórias para quem?

A fundação Renova é uma organização criada para desenvolver e conduzir os projetos de reparo e compensação referentes ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. A ideia de revitalização do Jardim foi divulgada no documento, disponível no site da fundação, chamado “Hora de Começar” em julho, e faz parte do Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), resultado de um processo judicial para lidar com o reparo dos danos causados pelas empresas mineradoras na cidade. 

Resta saber que tipo de compensação é oferecida ao promover a melhoria de um espaço que não tangencia os atingidos pelo rompimento da barragem. Além disso, há problemas sérios que acometem as cidades no entorno e que não possuem planos de ação para serem solucionados pela fundação, como a piora da qualidade do ar, que retém mais poeira de lama tóxica do que o permitido. Que esforço de compensação a renova tem feito para atenuar o problema?

Foto: Alexia Nunes Carrara