Além dos tombamentos: Conheça o sino, o céu e o coração de Mariana

PRODUÇÃO: DÉBORA FERNANDES E THÚLIO HENRIQUE
 

O Sino da Igreja São Francisco de Assis 

Neste “era uma vez”, eu já me perdi muitas vezes. Neste conto de fadas, já me vi várias outras. Preso na torre mais alta de um castelo robusto, construído na segunda metade do século dezoito, miro qualquer contorno dos montes das Gerais. Enxergo a Praça Gomes Freire sem precisar comprimir os olhos! O que eu vejo daqui é a continuação de uma história que começou com a fundação dessa Primaz, mas não vejo um príncipe chegar para me resgatar da minha própria fábula.

No início de toda essa história, eu costumava ser muito feliz. Dançava saltitante e descompromissado. Dois balanceios eram suficientes para que eu preenchesse todo o espaço, de um canto ao outro da minha torre-lar. Tamanha era a alegria que eu me punha a cantar dins e dons, blens e blons. Ah, como eu era feliz naquele tempo! Muitas pessoas passavam aqui na porta do meu castelo e ficavam encantadas com tamanha beleza. Muitas delas se interessavam em entrar e admirar cada detalhe rococó. Também havia aquelas pessoas que, tão encantadas, vinham mais vezes durante a semana, principalmente aos domingos, traziam preces e muitos sentimentos. Sinto-me abraçado por cada casal que confiou ao meu castelo a missão de ser o cenário de seus matrimônios. Ah, que época boa! Quanta saudade de cantarolar e de me movimentar em sintonia com o vento fresco de Mariana! 

Apesar de estar preso e destinado à solidão desta torre fria, sempre me senti em boas companhias. Sei que tenho o grande privilégio de morar no lugar onde grandes artistas dedicaram tempo para construí-lo. Tenho painéis e pinturas de Manuel da Costa Ataíde, tenho esculturas de Aleijadinho, tenho uma riqueza dourada dentro das minhas robustas paredes de pedra. Eu tenho altares, corredores, anjos esculpidos e púlpitos. Quanta honra eu tenho de estar aqui. Do lado de fora, minhas janelas são imensas, banhadas de verde e contornadas de amarelo, minhas portas são imponentes, contornadas de pedra. As cores do meu castelo até parecem fazer menção às cores do Brasil. São tantos detalhes desta linda arquitetura que tenho ao meu dispor. 

Mas houve um dia em que tudo mudou e fiquei preso sob as incertezas de Drummond. E agora, Mariana? O castelo envelheceu, o povo sumiu e a noite esfriou. E agora, Mariana? 

Sonhei que um dia iria aparecer um príncipe valente que viesse cavalgando me buscar deste lugar. Por mais que eu me sinta inspirado por tanta beleza que vejo através da minha janela bruta esculpida em pedra, também sinto-me amarrado neste destino de ser, para sempre, parte dessa torre rodeada de andaimes, placas e estruturas enferrujadas. Tudo mudou quando, em 2009, fecharam as portas do meu castelo pela primeira vez e, em 2017, pela segunda vez. Ele estava em risco de cair. Um dos imponentes tombamentos do patrimônio da Primaz estava precisando de reparos e, desde então, não danço mais, não canto mais. Nem mesmo meus visitantes podem me fazer companhia. E agora, Mariana? Sinto-me só. Sinto-me triste e peço a São Francisco de Assis que se um príncipe não vier me buscar deste conto de fadas, pelo menos meu castelo volte a ser como era antes. 

Agora, você que me lê, já deve saber da notícia. Sou o sino Francisco da Conceição, batizado em 1790, pelo Bispo de Mariana e lhe apresento a Igreja de São Francisco no meu “felizes para sempre”.

Sino SãoFrancisco

O Coração Sé

Se Mariana fosse corpo, eu seria coração. Se Mariana fosse Terra, eu seria núcleo. Mas eu gosto de ser coração. Eu vejo cada circulação do povo dessa cidade e pulso histórias a quem se interessar. Tal qual a formação de um ser, fui formada logo no início do corpo deste lugar. Quando Mariana ainda era Arraial do Ribeirão Do Carmo, eu já estava em construção. Quando Mariana ainda era Vila de Nossa Senhora de Ribeirão do Carmo, eu já estava a pulsar. Quando Mariana virou Mariana, eu já era um coração formado, sinuoso, de pedra e cal. 

O corpo dessa cidade veio, aos poucos, formando-se em minha volta, para eu bombear a riqueza do berço de Minas. Em 1711 esse coração já acelerava, já sabia falar “uai” e já chamava a atenção do rei Dom João V. Ele me elevou à Catedral Basílica de Nossa Senhora da Assunção. Mas quem me conhece bem, eu deixo me chamar de Sé. Antes disso, eu não era um coração muito especial, meus músculos eram atrofiados e minhas veias eram fracas. Mas graças ao rei, tudo começou a mudar. 

O bispo Dom Frei Manuel da Cruz contribuiu para que eu recebesse sangue novo, arterial, quentinho e vermelho bem vivo. Logo depois, recebi um “trem” especial, um órgão que veio lá da Alemanha e igual a ele, no Brasil, não tem. Parece ironia que o coração de Mariana tenha um órgão acoplado no seu ventrículo esquerdo. Ele tem sete metros de altura, cinco de largura, é revestido de vermelho-sangue e é composto por diversos tubos que mais parecem vasos capilares. Eu tenho orgulho de dizer que, aqui dentro de mim, houve uma intensa atividade musical que culminou na sede da Associação Brasileira de Organistas. 

Não posso me orgulhar sozinha de estar no corpo de Mariana. Minha artéria pulmonar liga-se à Rua Direita, minha veia cava superior dá acesso ao Jardim e o meu ventrículo direito é a Praça da Sé. Para um mau entendedor de anatomia, não se preocupe em entender todas as minhas partes, você só não pode esquecer que o coração, para um corpo-cidade, é essencial. Na minha frente já aconteceram tantos eventos que me fazem participar de camarote.

Minha fachada tem traços sóbrios, minha arquitetura é robusta. Há quem não goste de um coração de pedras, mas há também quem não me conheça. Sou agraciada pelo barroco português, tenho arquitetura chã e painéis pintados a mão. Tamanha é a riqueza e a beleza que é encontrada por quem disseca pela primeira vez este coração de Mariana. 

Estou no centro da cidade que minera ouro, sou o centro de diversos olhares. Meus batimentos têm sido menores desde que entrei em processo cirúrgico. Meu médico disse que eu precisava de reparos e alguns retoques. Antes eu era verde e, adivinhe só: os próprios marianenses escolheram que eu fosse pintada de amarelo e vermelho. Quanto carinho.

Agora faço parte de um corpo em pleno funcionamento. Bombeio meu povo pelas ruas de pedra todos os dias. Assisto o ritmo desse lugar encantador há mais de 300 anos. A Catedral da Sé é um coração feliz que nunca para.

Coração Sé

O céu da Rosário

De noite sou céu, de dia também. Há dias em que me apego às estrelas e outros em que prefiro nublar. Também há dias em que o sol me abre de um canto a outro do globo e eu me perco em meio a uma imensidão de azuis. Queria derramar cortinas de chuva ou aglomerar nuvens fofas e aveludadas. A verdade é que eu sou céu, mas não de todo lugar. Queria ser tudo isso que descrevi, mas existem surpresas em ser o céu tricentenário da Rosário. 

No alto de grandes colunas, me encontro carregado por vigas históricas. Sou convexo, imponente e não passo despercebido. Quem está ao ar livre, ao contrário do que se pensa, não consegue me ver. Mas quem adentra a grande porta da Rosário consegue me admirar e já aviso, tenha cuidado com o pescoço, você pode acabar com torcicolo antes  conseguir ver todos os meus detalhes. Sou um céu composto por ripas de madeira revestidas de branco e fui pintado por ninguém menos que Manoel da Costa Ataíde. 

Não sou o céu que está acima de todos, sou o céu que está predestinado a ficar imóvel aqui. Quem me olha, vê pinturas reluzentes, tenho tons de amarelo, azul, vermelho e dourado. Pareço uma extensão das grandes colunas que me sustentam, mas é apenas uma ilusão da obra estilo rococó que me cobre. Essas colunas terminam em uma abertura no céu. Não o céu com o qual eu me identifico, nem o céu azul universal. Pelo contrário, este é o céu para onde muitos querem ir. O céu no qual as pessoas depositam fé e mantêm o imaginário vivo. O céu divino, transcendente.

Tenho a figura de Nossa Senhora da Assunção representada em mim. Em volta, anjos se juntam a ela como se estivessem em festa. As inspirações para as expressões dos rostos em mim pintados vieram de mulatos que conviviam com o mestre Ataíde. Eu fui o último teto feito por ele e, apesar de muitos especularem que não fui o que teve a maior dedicação do artista, ainda sinto-me especial.

Confesso que queria ser este céu do qual tanta gente fala e deseja encontrar. Por enquanto me contento em ser o céu da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Ela foi construída lá em 1752 quando, provavelmente, sua tataravó ainda nem tinha nascido. Ela é uma Igreja diferente das outras de Mariana. Ela representa o amor e a crença daqueles que não tinham o privilégio branco. A Rosário não está no centro histórico como muitas outras e o motivo para isso parece ficar mais claro. Os gentios não tinham espaço em meio ao centro. Por isso, a Igreja veio para mais longe. Ela foi o espaço onde as irmandades do povo africano e seus descendentes se acolheram. E adivinhem só, qual era o céu-teto que esteve sobre todo este povo valente por esse tempo? Isso mesmo, eu. 

Como eu disse, as pessoas conhecem diferentes céus. Eu sou um deles, não me sinto mais especial que nenhum e também não acredito que exista outro melhor que eu. Talvez a principal diferença entre eu e eles é que eu não sou pra sempre. O tempo me afeta mais do que afeta os outros céus. Por isso, em 2016 começaram a me restaurar e a população espera que, até o final de 2021, possam me ver pairando sobre eles na Rosário novamente. 

Rosário