Patrimônios históricos: construções que carregam memórias

PRODUÇÃO: DÉBORA FERNANDES E THÚLIO HENRIQUE
 
O atual estado de conservação do patrimônio material da cidade de Mariana e sua importância para manter as lembranças sempre vivas.
colagem igreja nossa senhora do carmo
Foto e ilustração por Thúlio Henrique

Pensar em patrimônio histórico é refletir sobre memórias que serão cuidadas para que a história permaneça viva e materializada através do tempo. Ao observar os sinos das igrejas, as obras de arte, os tetos, as torres e cada detalhe de uma cidade histórica, somos capazes de pensar em quantas narrativas foram criadas e guardadas ali. Anos vêm e vão e o patrimônio permanece, sendo preservado e cuidado. Isso na teoria, pois na prática, alguns deles estão em mau estado de conservação atualmente.

Quando olhamos para Mariana, vemos um imenso apelo religioso que se constrói em volta da cidade. São 12 igrejas históricas localizadas no município e distritos, totalizando 30 patrimônios tombados pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O professor e historiador Francisco Eduardo de Andrade explica que além de construções, os patrimônios também são locais sociais, de encontro e de estabelecer relações para criar novas histórias. Para o especialista, ‘‘o patrimônio histórico é um dispositivo sócio-cultural e político, as igrejas têm esse papel, as capelas têm esse papel. Não são só espaços no sentido físico, são dispositivos constituídos pela sociedade, para que as relações comunitárias e as relações sociais sejam substantivadas, e ao mesmo tempo sejam legitimadas do ponto de vista social e político”.

O município foi o primeiro a ser fundado em Minas Gerais há mais de três séculos. Quando as terras brasileiras ainda eram local de circulação de reis e rainhas, a cidade já começava a se formar. A Primaz de Minas completou no dia 16 de julho deste ano, 325 anos, e se mostra cada vez mais encantadora. Agora sem reis e rainhas, mas com cidadãos apaixonados que detêm um vasto patrimônio para se lembrarem das histórias que continuam sendo escritas há tanto tempo.

Patrimônios e o papel do IPHAN

O IPHAN é o órgão federal responsável por proteger e promover os bens culturais do país, assegurando sua permanência e usufruto para as gerações atuais e futuras. A fiscalização do /estado de conservação desses espaços ocorre de forma constante, sendo possível a ação fiscalizatória a qualquer momento em que o órgão decidir ser necessária. Sobre esse aspecto, cabe destacar que as vistorias realizadas para apuração de eventuais danos lesivos ao patrimônio cultural, nos quais se inclui o estado precário de conservação, podem ocorrer por meio de diferentes formas de vistorias. Essas vistorias podem ser solicitadas pelos proprietários, por denúncias recebidas pelo IPHAN e também solicitadas por órgãos públicos.

Ainda segundo o órgão, o processo licitatório das obras ocorre a partir da legislação vigente. Vale ressaltar que quando a obra acontece com administração direta do IPHAN, cabe a ele a responsabilidade pelo processo de licitação. Quando as obras são executadas a partir de assinatura de Termo de Compromisso, o recurso é descentralizado, passando a responsabilidade para a  Prefeitura Municipal de Mariana, responsável pela gestão direta da obra e seu referido contrato, no qual está incluído o processo licitatório.

Patrimônios históricos Mariana
Foto e ilustração por Thúlio Henrique

Para garantir que os bens municipais permaneçam na memória, existem outras instâncias fiscalizadoras. Uma delas é o Conselho Municipal  do  Patrimônio Cultural – COMPAT. Segundo a presidente do Conselho, Ana Cristina de Souza Maia, o órgão é responsável por fazer a defesa do patrimônio material e imaterial da cidade, de interesse do município. Segundo a presidente do Conselho, Mariana é uma cidade que tem tombamentos federais, estaduais e municipais. ‘‘O órgão que implementa as políticas públicas de proteção e preservação desse patrimônio em nível municipal é o Conselho Municipal de Patrimônio Cultural. O COMPAT vai definir junto com o município a política de proteção, tanto do patrimônio histórico material, quanto imaterial, artístico, arquitetônico, arqueológico”. 

Também cabe ao Conselho fazer a coordenaçãoe a integração entre as atividades públicas que dizem respeito ao patrimônio. Muita coisa que chega para o COMPAT não caracteriza atividade diretamente relacionada aos patrimônios, mas pode conter algum impacto neles. Por isso, o Conselho também é responsável por gerenciar essa área. Além disso, ele também promove estudos, pesquisas e incentiva o desenvolvimento de ferramentas legais para viabilizar a defesa do patrimônio.

E para aproximar os moradores de Mariana dos tombamentos localizados na cidade, o Conselho garante a participação da população na gestão municipal. Segundo Ana Cristina, é “uma ferramenta de implementação da gestão democrática da cidade prevista no artigo 182 da Constituição Federal e também no Estatuto das Cidades”. Um exemplo disso é a Praça Gomes Freire, carinhosamente apelidada de Jardim. A Praça é um lindo cartão postal da Primaz. É onde as pessoas vão aos finais de semana para passear com os animais de estimação, levam as crianças para brincar ou até mesmo tomar um sorvete em um fim de tarde de verão. O coreto, localizado bem ao centro doJardim, é um monumento de destaque, ele atrai o olhar dos visitantes em meio às árvores. Antigamente, ele era pintado de amarelo, azul e branco. Após passar por reformas, iniciadas no final de 2019 e terminadas em 2021, o COMPAT levou ao público o poder de escolha da nova cor com a qual o coreto seria agraciado. Os votos resultaram em azul claro, limpo e charmoso. O mesmo aconteceu com a Catedral da Sé. Alguns anos atrás ela era pintada de verde e, através da decisão do público, as novas cores escolhidas foram bege e vinho.

Procurada pelo Jornal Lampião, a arquiteta e urbanista na secretaria de obras e gestão urbana de Mariana, Ana Grammont, relatou que estão em andamento as seguintes obras:

Mariana e suas riquezas históricas

A Primaz de Minas já passou por muita coisa. É difícil calcular quantas pessoas já passaram por estes locais que, por anos, foram destinos da fé e do turismo, mas  estão atualmente em obras. Uma cidade com tantos lugares históricos e imponentes, é de se esperar que precise, após um período de tempo, de atenção e reparos. Tudo que é cultivado com cuidado fornece melhores frutos. A arquiteta urbanista e especialista em gestão do patrimônio cultural, Alice Leite, explica que, historicamente, a cidade de Mariana tem um rico acervo arquitetônico composto por monumentos oriundos do Brasil Colônia marcados pela mineração do ouro na região. Grande parte desse acervo pode ser notado, principalmente, pela existência de tantas Igrejas robustas que mais parecem castelos. Assim como casarões antigos que, por influência da Corte, lembram os de Portugal. Cada detalhe arquitetônico dos tombamentos de Mariana fazem parte de uma herança que se pretende levar por toda a vida.

Mariana foi a primeira vila de Minas Gerais e a primeira localidade da capitania a ser elevada como cidade. Concomitantemente, recebeu o Bispado, quando ficou conhecida como a “cidade dos bispos”, sendo beneficiada na época pelo surgimento das ordens terceiras com as construções de seus templos. As igrejas possuem, portanto, uma extrema importância histórica, cultural e artística para a cidade. Elas também são locais de realização de festas tradicionais ao longo do ano, ponto de encontro nos rituais semanais e espaço para a realização de missas e cultos. Além disso, as igrejas marianenses são um símbolo arquitetônico da cidade.

Com o passar dos anos, os monumentos vão se deteriorando e há uma necessidade de restauração e manutenção destes espaços. Ainda segundo a arquiteta Alice Leite, cada obra exige um estudo muito minucioso e complexo feito por uma equipe técnica multidisciplinar, onde eles, em conjunto com a comunidade e o órgão responsável (seja ele municipal, estadual ou nacional), decidirão as melhores opções a serem executadas para a salvaguarda do bem.

Patrimônios históricos Mariana, Igreja Nossa Senhora do Carmo

Foto e ilustração por Thúlio Henrique

O que chama a atenção da população é que diversas obras de restauro demoram muito tempo para serem concluídas, como é o caso da Igreja São Francisco de Assis, fechada desde 2014, e a Catedral da Sé, fechada desde 2016. Com isso, perde-se muito tempo de convívio dentro dos espaços que ficam interditados por anos, causando um “apagamento” da memória e impedindo que as novas gerações tenham acesso a elas. 

Processos de restauração

Alice Leite explica que no caso de existir um risco estrutural, a edificação deverá ser, primeiramente, estabilizada para que assim os processos sejam executados no tempo correto e sem deixar a edificação correr risco da piora de seu estado de diagnóstico. Já a relação do que preservar, ou não, sempre deverá levar em conta a decisão técnica dos profissionais em conjunto com a comunidade, sendo algo muito subjetivo e ficando em aberto para cada caso. Ou seja, cada obra de restauro, patrimônio histórico e cada comunidade tem seus costumes e tradições únicos e peculiares.  Dessa forma, cada caso deve ser avaliado de uma maneira única, para que assim seja possível decidir a melhor opção sem desvirtuar ou intervir diretamente na historicidade do local.

Durante a pandemia esse cenário de paralisação também recaiu sobre a continuidade das obras. O IPHAN informou que “uma vez que a Pandemia da Covid-19 impôs a necessidade de adotar medidas sanitárias e de distanciamento social, conforme recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, em alguns casos, as empresas responsáveis pelas obras se viram diante da impossibilidade de manter o número de funcionários previstos no início das obras. Desta forma, com a redução de pessoal, a execução dos serviços previstos tiveram que ser adiados”.

A cidade de Mariana tem ao seu dispor uma grande riqueza cultural vinculada aos tombamentos municipais, estaduais e federais. Diferentes gerações tiveram a oportunidade de contar aos seus filhos e netos como era o dia a dia nas ruas de pedra que perduram até hoje. Uma senhora, certamente, pode ter muitas lembranças de quando ia até a igreja pelas manhãs de domingo, do sino que bate longe e é escutado de todo canto da cidade. 

Para manter viva essas memórias e, para você que deseja sentir um pouco dessa emoção, acesse os perfis do Sino da Igreja São Francisco de Assis, do coração de Mariana e do Céu da Igreja do Rosário. 

Patrimônios históricos Mariana: Além dos tombamentos