Os desafios para o ensino da matemática

Os desafios para o ensino da matemática

Repórteres: Laís Nagayama, Mylena Cristina e Yuri Simões.

 

De acordo com o Inep, em 2017 no Brasil, a taxa de proficiência em matemática era de 15%, no 9º ano do ensino fundamental. Suely Druck, usou de sua experiência como professora e pesquisadora e como ex- presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, para conversar com o Lampião sobre a importância da matemática em nossas vidas.

 

Para a professora, a matemática dota as crianças de um pensamento mais racional, necessário para lidar com diversas situações na vida e um conhecimento que as ajuda a se orientarem no mundo atual, quando ensinada com essa visão.

Desde pequena, Suely se interessa pelo ensino, tanto que ajudou duas empregadas domésticas a aprenderem matemática. Quando lhe perguntamos o por quê, ela justificou:

“Eu adorava ensinar matemática, adorava inventar problemas e eu não convencia ninguém a resolvê-los. Então eu ensinei as empregadas para o meu bem e para o bem delas. Mas elas aprenderam depois de adultas, o que é muito mais difícil. Mais fácil é você ensinar o quanto antes. Inclusive para não criar resistência à matemática. A criança está com nove, dez anos, ela já está detestando matemática”.

Suely tem vasta experiência em educação. Foi professora da Universidade Federal Fluminense, ex presidente da SBM, em contato frequente com professores da rede básica de ensino público de cada cidade que palestrava e hoje atua como consultora em escolas.  Os anos de carreira lhe deram propriedade e experiência para explicar sobre o que chama de “drama” da matemática e os motivos de resistência à disciplina por parte dos alunos.

 “A matemática se distingue muito das outras disciplinas que vocês estudam e ninguém percebe isso. Quando você vai ensinar matemática, a primeira coisa que ensina a fazer é contar, tá certo? E para contar ela tem que entender o sistema decimal, que depois do 9 vem 10. Então, tem que entender uma parte da ciência. E isso requer talento dos professores para fazer a transferência desse conhecimento. Então, é a única de todas as disciplinas que vocês estudam, que precisa entender a parte teórica dela desde pequenininho. A matemática tem uma linguagem que tem que ser adquirida pelos alunos.”

Mais do que apontar o problema, perguntamos  a Suely o que seria uma possível solução para o desinteresse dos alunos. Ela responde que primeiro começa por um professor bem preparado e uma escola bem equipada.

O desinteresse dos alunos, questões de infraestrutura escolar, más condições de trabalho e de ensino podem ser apontados como duas das causas que explicam o baixo índice de proficiência apurado pela Prova Brasil. Druck se debruça sobre esta realidade:

Para entender o índice de proficiência, é preciso começar por entender como funciona a prova. Segundo a professora, a Prova Brasil cobra somente o mínimo do mínimo. Ela avalia as redes municipais e estaduais de ensino e cada questão cobra somente uma habilidade.

“A Prova Brasil reflete que o país não leva a educação à sério. Porque a educação não é algo que o resultado é (visto) no dia seguinte. Não é por exemplo como a saúde, em que você quebra a perna, te botam o gesso daqui a pouco você está boa. (…) A educação leva 30, 40 anos para se ver os resultados”

Ao ser perguntada de como a baixa taxa de proficiência em matemática pode ser resolvida, Druck jogou esta batata quente na mão dos jovens de hoje. Para ela, as escolhas dos jovens vão determinar as escolhas políticas do país:

“A receita é essa: melhorar a formação dos professores e dar a eles melhores condições de trabalho. Por exemplo, fala-se muito: ‘vamos evoluir economicamente’. Não existe exemplo de nenhum país do mundo que deu bem estar ao seu povo sem ter dado uma excelente educação. (…) Então o que tem que ser feito é formar bem os professores, botá-los em contato com novas tecnologias. Dar pra eles bons salários, de modo que sejam valorizados inclusive socialmente, porque não o são. (…) O problema é como dar uma boa educação para um país que é do tamanho de um continente? Tem que ter políticas públicas. A maioria dos nossos alunos vive em condições econômicas muito ruins e isso se reflete na aprendizagem deles com certeza.”

Dessa resposta, surge algo importante e fundamental: a valorização do profissional da educação. É preciso atrair profissionais interessados em ensinar matemática, com a formação adequada para tal.

Suely se considera pessimista no que diz respeito ao ensino de matemática no país, no entanto, tem esperança na geração de jovens de hoje e mais ainda nas crianças do Brasil:

“O que eu posso dizer é que nossas crianças são tão talentosas como qualquer uma do resto do mundo e eu acho que elas estariam ansiosas esperando que esse talento que elas têm fosse correspondido com um bom ensino. Acho que seria a maior alegria que a gente poderia ter é isso: corresponder às nossas crianças.”