Os desafios de quem vive do que planta

Com o fechamento da feira e das escolas, os agricultores de Mariana precisaram se reinventar durante a pandemia
 
PRODUÇÃO: JACIARA LIMA E NATHALIA VERGARA
 

Durante a pandemia, somente 13,2% dos trabalhadores brasileiros passaram a atuar de forma remota, segundo dados do IBGE de junho de 2020. Assim, aqueles classificados como essenciais e informais precisaram encontrar maneiras de trabalhar presencialmente para manter suas rendas. Os produtores rurais, em especial os agricultores familiares, estão entre os que precisaram se adaptar para trabalhar e sobreviver na pandemia. Em Mariana, os feirantes e agricultores estão vivendo muitos desafios. Para compreender melhor, ouvimos a história de quatro pessoas sobre três momentos importantes em suas vidas: o antes, o início e a fase atual da pandemia de Covid-19.

Quem é o agricultor familiar?
 

Mas, antes de falar sobre esses momentos, é importante definir o que é agricultura familiar. Segundo o engenheiro agrícola Ronaldo Venga Filho, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Mariana (Emater), os principais critérios são: o tamanho da propriedade deve ser de no máximo quatro módulos fiscais, ou seja 80 hectares, deve ter no máximo dois empregados permanentes e ser detentor da Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Além disso, de acordo com o técnico, também podem ser considerados os arrendatários (inquilinos), parceiros, meeiros (aqueles que cultivam o terreno de outra pessoa) e comodatários (aqueles que recebem bens como empréstimo).

Em Mariana, o número de agricultores familiares tem crescido devido às políticas públicas, como o Pronaf Crédito Rural, que abarca os auxílios de custeio e investimento, Mais alimentos, Pronaf Mulher, Pronaf Jovem. Estes programas visam, entre outros objetivos, auxiliar na aração de terra, aquisição de insumos e mudas, transporte dos produtos e assistência técnica. Os programas são geridos pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Sicoob.

Além disso, os agricultores familiares participam também do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), visto que há a obrigatoriedade de destinar 30% da verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para aquisição de produtos dos agricultores familiares. Os agricultores da cidade de Mariana podem entregar produtos de suas hortas para 33 escolas municipais e 10 escolas estaduais, atendendo, desde 2019, por volta de 8.000 alunos. Segundo Venga, participam da feira livre de Mariana e do PNAE cerca de 80 agricultores.

legumes em feira
A Feira Livre de Mariana, realizada aos sábados, é um dos principais pontos de comercialização do agricultor. Foto: Isabela Vilela.
Antes da pandemia
 

O dia a dia  de um agricultor familiar é corrido, porém prazeroso: acordar cedo, arar a terra, o plantio, o cuidado… Até o momento que estes deliciosos e naturais alimentos estão prontos para a colheita e, futuramente, à venda. Mas os produtos naturais vão além dos vegetais sem agrotóxicos. Não há nada melhor, também, do que pães, salgados, broas e bolos caseiros, preparados com todo carinho, sem nenhum ingrediente industrializado e com o direito de sentir o cheirinho das massas, incentivando ainda mais nossa vontade de comer.

Quem aproveita esse dia a dia é a agricultora familiar e feirante Célia Corcini, moradora do subdistrito de Goiabeiras. Com uma rotina fixa, ela começa sua semana com o cuidado da horta: fazer canteiro, capinar, limpar e plantar. Todos os tipos de atividade na horta são reservados para as segundas e quintas. Já terças e sextas são dias de produção, reservados especialmente para as massas caseiras. Além da programação semanal, Célia comenta, também, que a manutenção da horta e tirar leite para fazer queijo são atividades diárias.

As quartas-feiras e os sábados são dias reservados para a venda de seus produtos. Como agricultora familiar, Célia costumava vender para a merenda escolar, em escolas municipais e estaduais; nas feiras realizadas nos campi da UFOP, organizadas pelo projeto de extensão “Circula Agricultura”; e tão importante quanto: na feira livre de Mariana.

A feira livre é realizada todo sábado no estacionamento do Centro de Convenções, no centro da cidade. Geralmente, ocorre das 7h às 13h e conta com a presença de diversos produtores locais. Na feira é possível encontrar diversos alimentos saudáveis e naturais recém colhidos para que aqueles que os adquirem possam deixar suas refeições ainda mais gostosas e coloridas.

Célia trabalha na feira livre desde 2016 e apresenta um monte de alimentos gostosos na barraca “Delícias Corcini”. “Eu vendo pães caseiros, bolos, tudo mais voltado para a questão da roça. Por exemplo, não vendo nenhum bolo com sabor artificial, fubá, banana, cenoura. Vendo fruta de época, vendo mandioca, inhame e verduras no geral, folhosas, essas coisas”, comenta.

produtos vendidos nas feiras
Na feira, para além dos produtos de hortifruti, a agricultora também disponibiliza produtos de roça. Foto: Isabela Vilela.

Quem também vive do plantio é Regiane Lana, membro da Associação de Cafundão, subdistrito de Mariana, que nos contou sua história. Ela já foi artesã e seguiu enquanto pôde, mas algumas dificuldades tornaram o trabalho inviável. Na casa dela, em Cachoeira do Brumado, distrito vizinho de Cafundão, havia uma horta para consumo próprio e doações. Ela conta que uma amiga, professora da UFOP, a estimulou a comercializar as hortaliças. No começo era uma venda pequena, algumas pessoas pediam pelo WhatsApp e a professora buscava. O tempo foi ajeitando tudo e a horta crescendo. A família passou a distribuir os vegetais nas escolas, todas as segundas, e nas feiras, todas as quartas. O período é citado com alegria. Regiane reforça que a vida ia bem, que tudo estava dando certo e que a rotina era satisfatória.

Atualmente, a feirante produz e comercializa “alface crespa, alface lisa, americana, mostarda, repolho, quiabo, couve, salsinha, cebolinha, jiló, almeirão, banana, queijo, rosquinha, broa de fubá, rúcula, espinafre, abóbora, chuchu e mandioca”. Antes da pandemia, a rotina era acordar cedo para cuidar da plantação e dos alimentos com os colaboradores. “Foi um bom momento”, ela diz, enquanto o tom de sua voz fica saudoso.

Conhecemos ainda a história de Tofir José Ibraim, outro agricultor. Ele faz parte da Associação da Comunidade de Goiabeiras, subdistrito de Mariana, e explica que, quando começou a sonhar com a feira, queria ser uma liderança e organizar um movimento no qual os feirantes cooperassem entre si. No início, frequentava a feira semanalmente, mas desejava que o movimento se expandisse e cada feirante levasse os produtos uma vez por semana, em forma de rodízio, uns ajudando os outros.

Durante a pandemia

Tirando as delícias feitas pelos agricultores, muitas coisas precisaram ser adaptadas em suas rotinas, durante a pandemia da Covid-19. A feira livre e as feiras realizadas na UFOP foram suspensas e, assim que o isolamento social foi decretado, a merenda escolar passou a ser distribuída uma vez por mês como cesta básica.

No caso de Célia Corsini, apesar da suspensão das atividades, a agricultora conseguiu se adaptar, mas a rotina não é mais a mesma, muito menos as vendas. Seu dia a dia não é mais de produção intensa à espera da próxima feira livre. Agora a entrega a domicílio, reservada para as quartas e sábados, também faz parte deste cenário. Para ela, esta solução não é tão eficiente quanto deveria: “Com isso, a gente consome muito tempo e as vendas caíram consideravelmente. Na feira a gente fica lá parado e as pessoas vão até a gente. Com a entrega, pra ficar rodando, é muito tempo perdido”, comenta.

verduras vendidas em feira
A saída encontrada pelos agricultores durante a pandemia foi a venda de seus produtos por delivery. Foto: Iago Inácio / Circula Agricultura.

Já Regiane conta que, no início da pandemia, o seu “mundo caiu”. O contrato com a Prefeitura tinha uma grande demanda, as plantações eram colhidas e levadas às escolas, que foram fechadas. Ela não sabia o que fazer com tanto, que rumo dar, como construir uma rede. Decidiu começar a comercializar de porta em porta dentro da cidade, mas como conseguir confiança e proteger a saúde?

Algumas pessoas não a atendiam e muitas tinham medo. Essa parte, mais difícil e às cegas, durou dois meses. Depois desse tempo, as lideranças da associação se uniram para discutir formas de escoar a produção e, entre tentativas, acabaram criando um grupo no WhatsApp para receber pedidos. Mesmo com todas as alternativas, a produção diminuiu consideravelmente. Regiane precisou abrir mão de alguns colaboradores e dobrar sua carga de trabalho, que agora pode ir até às 20h.

Imagem de grupo da feira no whatsapp
Produtos de agricultores de Mariana e Ouro Preto podem ser encomendados por grupo no Whatsapp. Montagem com fotografia de Dan Darius / Freepik.

Na Associação de Goiabeiras, a viabilidade financeira foi diminuindo. Quando a pandemia foi decretada, muitas pessoas se assustaram, se retraíram, começaram a temer cada passo. Os agricultores que ainda dependiam das vendas tentaram seguir, a família e os conhecidos compraram os produtos por um tempo. Mas, apesar das tentativas, eles não conseguiram manter o lucro.

A gente consome muito tempo e as vendas caíram consideravelmente. Na feira a gente fica lá parado e as pessoas vão até a gente. Com a entrega, pra ficar rodando, é muito tempo perdido – Célia Corsini, agricultora familiar

O presidente da Federação das Associações de Moradores de Mariana e responsável pelo gerenciamento da feira, Benedito Alves Ferreira, contou que o local foi fechado por quatro meses seguidos (entre março e julho), o que exigiu que os produtores digitalizassem tudo que foi possível para realizarem as vendas. Criaram grupos no WhatsApp, mantiveram contato, entregaram de casa em casa e se reinventaram, sozinhos, neste momento. Segundo Ferreira, não houve apoio do poder público, todas as iniciativas partiram individualmente dos produtores.

Nem mesmo a solução inicial das Associações das Goiabeiras e do Cafundão em parceria com a Prefeitura da cidade foi o suficiente para ajudar os produtores rurais, pelo contrário! Buscando meios tecnológicos, as associações criaram o site chamado “PedeFeira” que visava vender os produtos. Porém, além de o servidor do site ter caído e ficado inviável de ser utilizado, não foram todos os feirantes, muito menos todos os agricultores familiares que puderam utilizar o site. Célia não teve esta oportunidade, pois, apesar de moradora do Goiabeiras, não faz parte da Associação.

Tofir, como uma das lideranças, experimentou o PedeFeira, gostou da iniciativa e de como iniciou o projeto, mas acabou saindo: “O que eu percebi é que o programa não queria ajudar o produtor. Queria desenvolver o programa para comercializar em grandes redes”.

Não está sendo nada fácil ser agricultor rural atualmente: sem direito ao auxílio emergencial, sem feiras, com adversidades tecnológicas e com um longo período reservado para entregas. A situação chega a ser de desesperança. Ao ser questionada como estes problemas poderiam ser solucionados, Célia não observa nenhuma solução a curto prazo: “É coisa que vai solucionar só com a volta à normalidade”, enfatiza tristemente.

O que eu percebi é que o programa (PedeFeira) não queria ajudar o produtor. Queria desenvolver o programa para comercializar em grandes redes. – Tofir José Ibraim, agricultor.

Até mesmo as políticas públicas disponibilizadas para a agricultura familiar estão em desfalque. Porém, segundo engenheiro da Emater, Ronaldo Venga, o auxílio econômico para os agricultores rurais vem da compra institucional de produtos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF).

Um ano de pandemia

Depois de quatro meses realizando entregas, a rotina de Célia, apesar de ainda distante do ideal, se aproximou um pouco do que era antes da pandemia: a feira livre retornou! A sua retomada foi em primeiro de agosto, seguindo os protocolos básicos de segurança: uso de máscara obrigatória, álcool em gel, aferição da temperatura antes de entrar na feira, ocupação reduzida dentro do local e distanciamento de 2 metros entre as barracas. O retorno aconteceu gradualmente e de forma cuidadosa, mas, assim que noticiado, foi comemorado por todos os feirantes, devido à importância para suas vendas e sua rotina semanal. 

comerciante e seus produtos
Com restrições, a Feira Livre de sábado retomou às atividades. Atualmente, devido a onda roxa, decretada em 16 de março de 2021, todas as atividades foram novamente suspensas. Foto: Pedro Ferreira / Prefeitura de Mariana.

Antes da pandemia, a feira de sábado era produtiva e valiosa para a Associação de Goiabeiras. Em seu retorno, não foi a mesma de antes, já que somente metade das barracas foram permitidas. Como representante da Associação de Goiabeiras, Tofir relata que, apesar da feira ter retornado, aos poucos a estrutura foi se enfraquecendo; alguns não desejavam ir até o local e outros não gostaram da experiência. 

O retorno da atividade também não supriu a falta da compra para a merenda escolar e das feiras da UFOP, que ainda está sem previsão de retorno presencial. Mas, apesar disso, o retorno da feira livre conseguiu balancear as perdas e facilitou as entregas.

Enquanto Célia se sente fortalecida neste momento delicado, Regiane enaltece sua crença religiosa. A agricultora diz que foi um momento de superação, em que conquistou clientes: “Aprendi muito com isso, aprendi a passar pelas dificuldades da vida”. Já Benedito havia voltado à feira e disse que espera sair da pandemia melhor do que antes.

Fase roxa

Infelizmente, porém, agora mais do que nunca, o cenário está longe de ser positivo. Dia 16 de março de 2021, quando se completou exatamente um ano da suspensão das atividades, um ano desde o primeiro caso de Covid-19 confirmado na cidade, todo o estado de Minas Gerais entrou na onda roxa. Essa é a fase mais restritiva do plano “Minas Consciente”, que organiza quais setores funcionarão e como, conforme indicadores de capacidade assistencial – ou seja, se o número de leitos e de oxigênio, por exemplo, são suficientes – e da propagação da doença.

Com a fase roxa, diversas atividades foram suspensas e isso inclui a feira livre de Mariana. Os agricultores agora precisam retornar às insuficientes adaptações, como as entregas a domicílio, que não atendem aos desejos de produção e venda. Um ano se passou e as coisas continuam iguais.

A boa notícia, porém, é que temos algo de positivo que permanece como antes: a importância e o sabor dos produtos naturais e o carinho, a esperança e força de vontade dos feirantes. Não sabemos ao certo quando a pandemia vai acabar, mas podemos escolher não desistir. Ao pensar no cenário pós-pandemia, Célia comenta esperançosa: “Eu acho que vou sair mais fortalecida, de uma certa forma a gente passa a pensar em outras coisas e em outros caminhos também”.

Confira abaixo nossa linha do tempo interativa, com datas que ajudam a compreender os principais momentos na vida dos quatro feirantes apresentados nesta reportagem: