#OndeClicaParaAmar

#OndeClicaParaAmar

Texto: Matheus Rodrigues | Arte: Matheus Rodrigues, sobre fotografia de Alfred Eisenstaedt e imagem da série Black Mirror 

 

@joao amava @teresa.

Juntos transbordavam afeto por entre corredores, salas e cantinas.

Não passavam despercebidos no pequeno colégio, que, cheio de gente pequena, começava a formar burburinho.

Por se tratar de um amor que, sem rodeios, se escancara, começava a causar estranheza àqueles que andam sem par.

@raimundo cochicha para @maria, que logo passa a @joaquim.

@lili se ajunta logo depois, e, em questão de segundos, aquele já era o assunto do dia.

O amor de @joao e @teresa foi tornando-se tão incômodo que, de repente, parecia ser de interesse público. Alguns que até ontem se preocupavam com a saúde mental e o bem-estar do outro, de repente, se esqueceram do poder que as palavras têm.

@joao e @teresa viraram alvo.

Na internet, seus passos e movimentos eram narrados em tempo real.

O abraço, o beijo, o toque.

A conversa, a carícia, a chegada.

Tudo. Absolutamente tudo estava ali, ao clique de uma hashtag, e quase como um mapa.

Nas modas da modernidade, inventou-se um tal de “shippar”. É quase um cupido moderno, virtual, viral. Ao contrário dos seres de origem angelical, onde combinam almas, os cupidos de hoje criam as hashtags com o intuito de formar pares e arrecadar curtidas.

Mas antes fosse esse o caso.

@raimundo, @maria, @joaquim e @lili não se empenharam em pensar na melhor combinação, se seria ela #jeresa ou #teresao – o que soaria até engraçadinho.

Junto com outras tantas pessoas, fizeram o que o ser humano moderno faz de melhor: menosprezar.

Criaram ali uma etiqueta pro casal.

Pergunto-me, ao observar gente chegando aos montes e se dedicando a monitorar os passos do casal: onde isso pode levar?

Se Drummond cá estivesse hoje, seus versos descreveriam a quadrilha das relações humanas com pesar ainda maior.

De repente, me recordo de textos lidos em diferentes páginas internet afora. Elas se propunham a explicar o significado de cyberbullying e cyberstalking, palavras estranhas que acompanhavam, sem nada dever, toda a estranheza e apatia do mundo virtual.

Em poucas palavras, uma se trata de intimidar, hostilizar, ofender. A outra, por sua vez, vai mais fundo: é o ato de perseguir por entre as vias digitais.

As duas, dentro de seus devidos pormenores, oferecem punições consideráveis nas formas da lei. Ambas configuram crime.

Mas, ainda que não houvesse punição, há justificativa para expor a vida de alguém?

Tenho pra mim que a era digital nos desligou das relações reais.

Funcionamos hoje ligados à tomada, e não mais uns aos outros. Nossas relações se bastam na quantidade de curtidas que a exposição das nossas vidas é capaz de conquistar.

Falar de saúde mental tornou-se corriqueiro, e todos estão sempre dispostos e empenhados em fazer parte de campanhas e conscientizar. A internet virou palco de mobilização, diga-se de passagem, mas será que pensamos, de fato, nos gatilhos de tantos traumas?

Tendo a pensar que não.

Considero-me, de certo modo, otimista, pois muitas vezes acredito na bondade das pessoas. Quando leio manifestos e protestos que compõem a chamada “militância”, tenho fé de que esse mundão pode mudar. É quase um lampejo de esperança.

Mas aí vêm @joaquins, @marias, @raimundos, @lilis e noventa e tantos outros me mostrar que nossa humanidade aos poucos se esvai.

Estamos nos tornando máquinas.

Frios. Duros. Automáticos.

Penso, também, que perdemos aos poucos a essência do amor.

Será que amar tornou-se vexame? Tocar-se é agora estranho? Beijar-se não é mais bem visto?

O afeto transformou-se em curtida, e estar nos trending topics é mais importante que estar no coração de alguém.

E depois de tudo aquilo, @raimundo continua estudando, @maria foi viajar, @joaquim alçou novos voos e @lili tocou a vida.

Mas todos eles na mesma. Sozinhos.

@joao e @teresa ainda estão juntos. Embora vivam agora com medo dos tantos olhares que os rodeiam, o amor deles ainda vive. Tímido, mas vive.

E eu, que não tinha entrado na história, deixo para #jeresa – acho que é o “ship” que mais me agrada – um pequeno conselho: se amem.

Se amem muito! Onde, quando e como for.

O amor não é feio. Feio mesmo é não saber amar.