O papel do jornal

Texto e Foto: Júlia Rocha

Eu venho da terra. Do útero-solo, me desenvolvi árvore e nasci da polpa de celulose, mas sou diferente dos outros papéis. Também sou feito de impurezas que me deixam frágil, com uma cor esquisita. Mas é só fisicamente.

Sou feito de histórias.

Nos anos 1950, fui o principal meio de informação. De lá para cá, tive uma, duas e até três versões em um mesmo dia. Hoje, continuo nas mãos de muitos, mas só alguns ainda leem meus textos. Viajo nas palmas de quem me usa, sendo de forma tradicional ou não. Sou proteção para vidro, embalagem de fruta, artesanato. Às vezes sou afeto, quando abraço flores que dizem o que as palavras não conseguem. Também já fui avião, balão, barquinho. Vivi aventuras pela imaginação dos pequenos, que um dia, talvez, saberão quem sou. Ou quem fui.

Ao contrário do que se diz por aí, a internet não criou a crise do jornal impresso. Competi pela sua atenção com o rádio, televisão, revistas e a própria internet, que além de acelerar o processo, proporcionou um novo caminho para os jornalistas. Aos poucos nós fomos diminuindo, alguns até pararam de ser impressos. Embora a internet ameace minha existência, o jornalismo online e eu nos complementamos. Minha credibilidade se une com as possibilidades do digital e podemos oferecer aos leitores novas formas de receber e entender informação.

Minha versão online é diferente. Tem mais cores, imagens, gráficos, vídeos, áudios, links. E eu? Fui diminuindo. Em 2016, perdi 162 mil exemplares na tiragem média diária. Sei que não mais tão prático, mas tenho minha importância e a mim está reservado um lugar especial para aqueles que ainda me leem.

“Ser jornal é bom, desde que sejamos, de fato, bons jornais.” *

*Lourival Sant’anna no livro O Destino do Jornal