Carro Biblioteca: o ônibus que é feito de histórias

Iniciativa leva literatura às periferias de Ouro Preto

Texto: Elis Cristina | Foto: Fábio Augusto | Audiovisual: Amanda Egídio e Laryssa Gabellini

No início, ele era igual a qualquer outro entre os irmãos, exercia a função que lhe foi destinada antes mesmo de sair da fábrica: transportar pessoas. Viajou quilômetros, conheceu algumas cidades, acomodou inúmeras pessoas, compartilhou e viveu muitas histórias, até que em 2009, algo aconteceu. Prestes a ser aniquilado pela universidade, ele adquiriu uma nova função. O Carolina IV da Mercedes-Benz, um dos primeiros ônibus da instituição, que transportava pessoas e servia a Ufop em suas excursões, passou a transportar livros e se tornou o Carro Biblioteca da Ufop, ou melhor, a Biblioteca Itinerante.

O carro foi pensado por meio de um projeto, e por muito tempo houve vários esforços para buscar recursos financeiros e viabilizar a concretização da ideia. Ele passou por grandes transformações. As poltronas, que acomodavam estudantes e que eram um local de descanso e conforto, foram substituídas por armários e prateleiras. As janelas, que traziam luz e frescor, foram pintadas, lacradas e trocadas por pequenos ventiladores (barulhentos). A lataria original de fábrica foi substituída por um grande adesivo de livros coloridos. Por onde passava, poderíamos perceber que aquele não era um ônibus convencional. Hoje, porém, boa parte da ilustração já não existe mais: apagou-se ao longo do tempo, levando consigo parte do encanto.

Toda semana, ele deixa o cantinho escuro na garagem onde passa a maior parte de sua vida para realizar as visitas semanais. Em seu interior, há um misto de conhecimento e alegria que é compartilhado com moradores, principalmente crianças, dos bairros Alto da Cruz, Morro Santana e Piedade, todos pertencentes à cidade histórica de Ouro Preto.

Dentro dele, há pouco espaço para se movimentar, brincar e fazer coisas como o teatro de fantoches, menos para a contação de histórias. Esta é a única prática realizada dentro dele e acontece ali mesmo no assoalho, local por onde muitos passam, mas que se tornou um cenário em que parte da mágica da literatura se revela. Carrega também três conjuntos de mesas e algumas cadeiras que, montadas na área externa, dão suporte para as atividades artísticas culturais. Nas janelas, lembranças daqueles que puderam demonstrar em pequenos desenhos sua forma de contar um livro. Na porta de um de seus armários, é possível ler, ao adentrar, o Nosso Combinar: são as regrinhas que regem o ônibus.

As prateleiras inclinadas, para que com seu movimento nada saia do lugar, acomodam cerca de 2.500 exemplares. O acervo é composto em grande parte por obras de literatura infanto-juvenil, entre eles livros interativos, como é o caso do livro  Ninoca vai Brincar no Parque, em que o leitor pode participar do passeio junto com a personagem. Puxando linguetas e movendo abas, o livro faz Ninoca ganhar vida e, seguindo as adoráveis ilustrações em tons vibrantes, as crianças ampliam o vocabulário e se divertem ao mesmo tempo. O “carro do livrinho”, como é conhecido nas comunidades, leva também vários jogos educativos e o teatro de fantoches que muitas vezes são usados para interpretações de histórias contadas pelas crianças.

Mas ele não leva apenas literatura para os pequenos. O carro possui também alguns livros de conhecimentos gerais como os dicionários, livros de psicologia, história, literatura nacional e estrangeira, biografias,  romances, culinária, autoajuda, que são disponibilizados também para os adultos que acompanham seus filhos a cada semana. Os livros podem ser levados para casa, mas devem ser entregues na semana seguinte pois, sem eles, o “carro do livrinho não saberia como sobreviver.

O trajeto nem sempre é o mesmo, depende de qual motorista estará disponível no pátio da garagem naquele dia, mas ele percorre grande parte da cidade. O Carlinhos, motorista que mais o acompanha, fica grato a cada dia que o leva às comunidades. Dá pra ver a alegria em seu rosto.

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Hoje, a imagem do ônibus, trinta anos após a sua fabricação, não está alegre e vibrante. O sábio, agora velhinho, que divulga a cultura por onde passa, precisa de um socorro. A carroceria, antes viçosa e chamativa, está desbotada e tristonha, marcas da dedicação à população.

Há mais de oito anos, ele recebe apenas algumas manutenções, as básicas, trocas de óleo, água, uma soldada ali e uma lá, uma checagem em seu fluido de freio, e o banho? Apenas quando necessário! Além disso, só é abastecido quando o tanque está pela metade, como falou o Serginho, outro motorista que tem a oportunidade de guiálo até os pequenos grandes leitores.

Em torno de si, marcas de sua jornada, como uma cicatriz ganhada há cinco anos, quando, em um dia de visitas, o motorista que lhe conduzia o esbarrou em um corrimão que estava na calçada da rua. As rodas evidenciam sua longa trajetória, o câmbio expõe as estradas que são percorridas diariamente, por ter um enorme buraco em que conseguimos enxergar a rua. O toldo, que proporciona atividades externas com maior conforto para as crianças, leitores e visitantes, precisa de uma enorme força para ser armado.

Por esses motivos, talvez alguns nem o notem, passam por ele como se fosse um ônibus qualquer, não o conhecem e nem ao menos têm curiosidade, e ele se torna apenas mais um igual aos irmãos. Contudo, há aqueles que, mesmo com sua velhice e precariedade, não deixam de visitá-lo toda semana, sabem que ele já passou por muitas situações e é feito de histórias. Suas particularidades e defeitos são deixados de lado para dar lugar ao deslumbre da literatura.

Alguns anos atrás, ele visitava outros lugares, como os bairros Santa Cruz e Padre Faria e o distrito de Santo Antônio do Leite, mas, com a idade avançada, fica difícil percorrer longas estradas: a estrutura não aguenta e é preciso até um calço para segurá-lo quando ele é estacionado. Levar essa biblioteca, com esse acervo literário e outros tipos de informação que as pessoas gostariam de ler, é tão importante que em 2017 ele ganhou o segundo lugar no concurso de Melhores Programas de Incentivo à Leitura pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

É assim que ele vai vivendo cada dia de sua existência, levando conhecimento, alegria, diversão, afeto e muitas histórias até que um dia, quando finalmente se aposentar, muitos irão saber quem ele era, ou melhor, o que ele foi.