O Encontro de Palhaços é delas

O Encontro de Palhaços é delas

Repórter: Mariana Paes

 

Quando falo para você “imagine um palhaço”, possivelmente virá à sua mente uma figura masculina. E as mulheres palhaças, onde estão? Não deveriam elas ocupar mais espaços? Nos dias 26, 27, 28 e 29 de outubro elas protagonizaram o 11º Encontro Internacional de Palhaços, transformando a cidade de Mariana – MG em um grande picadeiro. A primaz irradiou alegria: palhaças e palhaços, velhos e novos, gordos e magros, pretos e brancos. Seria o nariz de palhaço uma forma de inclusão?

Nos dias de hoje, cresce a atuação profissional de mulheres como palhaças. Com os anos aumentam a participação feminina em grupos, encontros, festivais, cursos e simpósio de palhaçaria. “A gente quer homenagear mais mulheres que cada vez ganham mais força dentro da palhaçaria mundial”, explica Xisto Siman palhaço e produtor cultural um dos idealizadores dos organizadores do. No 11º encontro cerca de 13 apresentações contaram com a participação feminina. A presença também foi forte na produção do evento. 

Em cena, as palhaças questionam por meio do riso as barreiras impostas pelo olhar patriarcal. Falar do feminino é falar das expectativas da sociedade em relação às mulheres. No espetáculo das Inigualáveis Irmãs Cola, o sutiã, que é tipicamente associado ao universo feminino, recebe usos não convencionais como tapa-olho, joelheira, mochila e arranca risos da platéia. “É um diferencial da palhaçaria feminina abordamos aquilo que vivemos na pele – todas as opressões – em cena”, afirma Taís Cola. 

Todo ano o evento escolhe uma atração para ser homenageada. Esse ano as honras foram dadas à palhaça Jasmin. Lily Curcio é a mulher que dá vida a Jasmim. Ou será que Jasmim que deu vida nova à Lily? A antropóloga argentina que se dedica ao estudo da clowneria clássica há mais de 24 anos. Em seu espetáculo “Seres de Luz” ela interpreta a sua própria história mostrando ao público como sua vida e seu processo criativo se misturam. Confira abaixo a entrevista sobre a palhaçaria e sobre o feminino que ela concedeu ao LAMPIÃO! 

Foto: Mariana Paes

 

Como Lily se tornou Jasmin? Como Jasmim se tornou Lily?

Eu acabara de chegar da Argentina e uns amigos me falaram de um retiro de clowns que ia acontecer em São Paulo. Era a primeira vez que eu escutava a palavra clown, nem sabia o significado, mas ficou como um bichinho de curiosidade em mim. Não tinha ideia nenhuma, mas eu fui. Eu estava passando por um momento muito dolorido em minha vida, especialmente traumático. Quando eu entrei nesse retiro, nasce Jasmim, que é minha palhaça. Aí encontrei todas as respostas que tinha procurado e buscado em toda a minha vida. Eu sempre falo: “A Jasmim salvou minha vida. Minha palhaça me salvou!”. Então, é um divisor de águas: antes e depois da Jasmin. Isso foi o marco do nascimento dela.

O que é ser mulher e ser palhaça?

Quando nasceu minha palhaça, tinham poucas palhaças no Brasil e acredito que no mundo. E eu considero que nesse momento eram poucas mulheres que estavam no papel de protagonismo. Sempre as mulheres eram partners dos palhaços, dos cômicos, dos mágicos. Poucas tinham o lugar de importância.  Sabemos que o mundo do circo foi um mundo machista que está se transformando. Se a gente vê, estuda e pesquisa, vemos que a dramaturgia de todas as grandes  farsas cômicas não é uma dramaturgia feita pela mulher, feita pela essência feminina. Esse momento é um momento muito especial do Brasil e do mundo, onde a mulher está encontrando um mundo e circo. Se colocando no lugar que tem que estar, não? Que pode ser palhaça, pode ser partner, pode ser qualquer coisa que ela deseja ser.

Eu vou te confessar uma coisa, quando começa minha carreira como palhaça, como Jasmin, eu não me preocupava com o universo feminino, com o empoderamento. Isso não passava pela minha cabeça. Eu só queria ser palhaça. Só queria que Jasmim estivesse no palco. O objetivo de todo palhaço é estar no picadeiro. Não foi um pensamento que me preocupava, eu queria mais. Eu falo e também vou falar no espetáculo: “É um pedaço de mim! Como uma droga sagrada!”.  Não me preocupava essa coisa do feminino, nunca foi uma barreira, porque sempre se abriram portas para mim. Não sei o porquê. Acho que tem uma força muito grande, e uma decisão, uma intenção. Nunca foi um empecilho, um impedimento. E eu também te confesso outra coisa: pra mim, quando nasce Jasmin, ela está além do gênero. Ela tem todos juntos e não tem nenhum. Ela é um entidade no mundo teatral, no mundo artístico onde o palhaço tem que sobrepassar, ultrapassar os limites que tem em todos nós, que é colocar em compartimentos estanques: é mulher, é hetero, é gay. Pode ser todos. É como uma coisa embrionária. O embrião, ontogenicamente, tem todas as possibilidades de se manifestar, de se desenvolver. Então, pra mim é isso. E depois, com o tempo, eu comecei a ver que o feminino estava também presente em muitas palhaças. Mas eu acho que, nesse momento da humanidade, a mulher, a palhaça, tem que estar se expressando em níveis muitos altos. Ela já não pode mais estar falando de uma palhaça que está querendo se casar, que está procurando um marido. A humanidade precisa de outras coisas da gente.

Quem é a Jasmim?

Quando nasce, Jasmim era como se fosse um bebê. Ela quase não falava. Essa Jasmim cresceu com essa mulher que está aqui com você agora. Tem outro olhar, mas sempre tem essa inocência, com essa transparência na alma. O que caracteriza uma palhaça, um palhaço é que o corpo, seja de mulher ou homem, não tem vergonha desse corpo. Muito pelo contrário. Um palhaço, uma palhaça procura valorizar os nossos defeitos. “Tenho uma bunda grande! Tenho um peito pequeno!”, é disso que se trata. Sem ter vergonha de se mostrar. Cada clown tem que ter a coragem de se mostrar. Um alto, outro magrinho. Mas sempre de maneira poética, eu acho. É mostrarmos como somos, sem apelativo. Nunca abandonar a poesia do clown. 

Qual o poder do riso no Brasil atual?

O humor é na realidade uma função muito importante que a gente tem nesse momento da história do Brasil, da humanidade, porque o poder não ri. O poder não tem alegria. Então, o que a gente tem que apontar constantemente, acordar as pessoas para que elas comecem a ver o mundo de outra maneira. O humor do palhaço não significa estar rindo dos outros, do público. Primeiro, o palhaço tem que rir dele mesmo. O humor começa por aí, se você ri, vê você mesmo com todas as estupidezes, a coisa ridícula, a ignorância. Então isso é verdadeiro! Esse humor que tem o palhaço, não rir do outro. A função nossa é defender a alegria em todos os sentidos.