Memórias diluídas pelo descaso

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Terça, 09 de Março de 2021

Texto e Foto: Franciele Maria da Silva

“Na bica, a gente levava aquelas latas de óleo de 20 litros e enchia de água para tomar banho e até para cozinhar. Eu me lembro que quando criança, tinha que encher dois, três tambores por dia mas, o descaso foi tanto que agora está tudo acabado”. As lembranças são de Luiza Ramalho Vitório, 65 anos, nascida e criada perto do Reservatório III, ambiente que, além de guardar água, também abriga grandes histórias, já que é, na verdade, um pedaço da história do bairro.

Luisa Ramalho, vizinha do Reservatório III

 

Proveniente do século XIX – início da implantação do primeiro sistema de abastecimento de água na cidade –  o Reservatório III foi construído, assim como os históricos chafarizes, para fornecer água aos primeiros povoados que se formavam em seu entorno. Sua edificação tradicional, com cobertura de madeira e chapas metálicas, paredes sem repartições internas de tijolos e pedra, e as duas piscinas para depósito de água, hoje revelam as marcas do descaso.

A água que sempre foi o motivo da sua existência é proveniente de uma antiga mina de ouro do século XVIII –  época da tão conhecida corrida do ouro na cidade – e, também, de um poço profundo que era responsável por fornecer água para o chafariz, construído em 1890.

Soterramento

O chafariz e a mina, por muito tempo, encontravam-se soterrados devido a um deslizamento de terra que aconteceu na área em 1979. Em 2012, a água da mina subiu de nível e começou a escorrer entre a terra. Com isso, o reservatório parou de receber a água da mina e, preocupada com a paralisação no abastecimento, a gestão da cidade na época iniciou o processo de limpeza.

Nessa época, planejou-se a criação de um laudo geológico para a limpeza completa do local e revitalização da área, assim como a criação de um museu da água e uma casa de química. Porém, já se passaram seis anos e nada foi feito. O  espaço, considerando o Reservatório, a mina e o chafariz, está abandonado.

Escondido entre bananeiras é onde se localiza, hoje, o chafariz que fazia parte da rotina de Luzia e de muitos outros moradores. Ele que era responsável por fornecer a água que era a fonte para matar a sede, para os afazeres domésticos e para sociabilidade do bairro. A mina responsável pela água do reservatório está coberta com folhas, galhos e terra. O reservatório que consta na lista de bens inventariados pelo Patrimônio está em estado de degradação.