Manobras certas dominam as ruas de Mariana

Esportistas usam o espaço público para a prática de esportes radicais enquanto a pista prometida pela prefeitura não fica pronta

Texto: VH Gonzaga | Foto: Bruno Campos e Felipe Cunha

Confira o ensaio fotográfico:

Mariana tem se tornado uma cidade que é referência no incentivo ao esporte e, apenas nos quatro primeiros meses de 2018, já sediou três grandes eventos esportivos. A prefeitura criou projetos, como o “Bolsa Atleta” (política pública federal, estadual e municipal que financia o treinamento de atletas de alto nível), a fim de subsidiar a preparação de atletas para disputas de competições regionais, nacionais e até internacionais. Tudo perfeito, não fossem alguns grupos de esportistas que acabaram esquecidos em meio a tantas opções.

Esse esquecimento pode estar prestes a acabar, uma década depois das primeiras reivindicações. No último dia 12 de abril, após reunião com a responsável pelos Projetos de Contratação, Secretaria de Obras e Planejamento Urbano, Camila Pessoa, foi divulgado o último repasse sobre a situação que envolve a construção de uma nova pista de esportes. O projeto, que é orçado em R$316.095,85, foi enviado para a Secretaria de Planejamento e o edital de licitação foi publicado, oficialmente, na última segunda-feira, 14. O processo deve durar por volta de um mês, pois há prazo para a seleção de empresas responsáveis pela construção, seleção de um engenheiro responsável e, por fim, a assinatura do prefeito. “Estamos apenas aguardando a empresa vencedora do certame para poder começar a obra”, esclarece Camila. De acordo com os informes concedidos na reunião, a pista deve ser entregue à população até janeiro de 2019.

Histórico

Até 2008, Mariana possuía um grande centro poliesportivo, o Ginásio Osni Geraldo Gonçalves, construído onde hoje fica o Centro de Convenções da cidade. No local, havia uma pista destinada aos esportes ditos “radicais” ou “alternativos”. Ali era o lugar por onde os praticantes de skate, patins, e BMX circulavam. Em 2013, uma equipe de reportagem da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) apurou os motivos da demolição e constatou que se tratava de exigência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). À época, o órgão alegou que o ginásio destoava do Centro Histórico da cidade. O LAMPIÃO entrou em contato com o instituto a fim de confirmar a informação, porém, até a publicação da matéria, os responsáveis da área alegaram que ainda não haviam conseguido as respostas nos arquivos do Instituto, em Belo Horizonte. Com a demolição do espaço e a criação da Arena Mariana, o que restou aos praticantes dos esportes foram as muitas promessas da construção de um novo lugar para que possam circular com tranquilidade.

Desde então, a verdade é que Mariana não possui um local para a prática livre de determinados esportes. No caso das modalidades citadas, algumas pessoas têm que se esforçar muito para encontrar um lugar para treinar sem que sejam expulsas ou gerem desconforto. Os grupos, então, sempre migram para pontos da cidade como o estacionamento da Rodoviária, praças de igrejas e, de vez em quando, buscam outras cidades. “É só a gente chegar em uma quadra que a galera do futebol já vem expulsando”, relata Thales Linhares Oliveira, skatista de 25 anos. “A gente andava muito na Ufop, no campus do Morro do Cruzeiro, mas sempre os seguranças batiam a lanterna na nossa cara e mandavam a gente sair”, conta Alexandre Gonçalves, 29, praticante de patins.

Hoje, um dos lugares preferidos dos esportistas é a área externa da Prefeitura, curiosamente em frente ao antigo poliesportivo. É comum ver grupos circulando em um ambiente onde transitam carros, pessoas e ônibus.

A equipe do LAMPIÃO acompanhou o grupo de skatistas em alguns “rolês”, como eles dizem. Acompanhamos, também, diversas quedas. O tombo no esporte é algo normal, contudo, caso o piso seja inapropriado, a gravidade de uma lesão pode ser maior. Já houve, inclusive, um caso de atropelamento. Ericles Martins Santos, skatista de 16 anos, conhecido como “Pão”, voltava de skate do distrito de Passagem, no fim do ano passado, quando foi atingido por uma carreta. Felizmente, não houve danos mais sérios, porém, ele teve que ficar um tempo parado devido a uma lesão na perna, e por ter seu skate quebrado no acidente.

Próximo de 10 anos da demolição do Osni Geraldo Gonçalves, e cinco anos depois da conclusão da Arena, nenhuma ação foi realizada para auxiliar os atletas prejudicados. Por causa disso, foi criado um grupo de pessoas que atuaria em nome dos esportistas junto à prefeitura. Durante alguns anos, muitas reuniões e promessas foram feitas por parte da prefeitura. Frustrados, os membros acabaram desanimando da causa e abandonando as tentativas. O grupo de praticantes, no entanto, retornou às atividades com novos membros, e alguns antigos, em novembro de 2017. Destas novas reuniões surgiu o Coletivo “Na Rua Mariana”.

Segundo Cristiane Ribeiro Ciancio Siqueira, 27 anos, praticante de skate e membro do coletivo, há uma verba de R$ 250 mil que a prefeitura recebeu, no ano de 2017, por ter ficado entre as dez cidades de Minas Gerais no Imposto sobre circulação de mercadorias e prestação de serviços (ICMS). Dessa verba, os esportistas pediram aproximadamente R$ 2,5 mil para a realização do Projeto Escola Park Radical/ Comunidade Park Radical, que foi entregue à prefeitura. As partes não chegaram a um acordo, pois, de acordo com Cristiane, foi informado que o repasse do dinheiro não poderia ocorrer pelo fato de o grupo não ser, na época, membro ativo do Conselho Municipal de Esportes de Mariana. Desde aquele momento, pelo menos um membro está sempre presente nas reuniões do conselho.

O assessor técnico de Desporto de Mariana, Wagner Flávio Ramos, afirma que as conversas com o grupo acontecem oficialmente há três anos e o projeto de construção da pista foi elaborado junto ao da Arena Mariana, porém, a verba para a obra nunca foi enviada. Ele também diz que o crime ambiental ocorrido em novembro de 2015 afetou a economia e os recursos financeiros tiveram outros fins. “Com a tragédia em Bento Rodrigues, a arrecadação diminuiu drasticamente e o município teve que usar orçamento para emergências e prioridades. Agora, com as contas mais equilibradas e esse recurso do BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais), quaisquer dificuldades poderão ser resolvidas de forma mais rápida.” O recurso citado, de acordo com o assessor, é de R$ 300 mil.

Slackline

Um esporte que tem se popularizado cada vez mais é o slackline. Os praticantes, que necessitam de dois pilares fixos para amarrar o equipamento, também encontram dificuldades. Alguns lugares seriam propícios para a atividade, como o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS). No entanto, segundo Thamira Silva Bastos, 25 anos, praticante de slackline há dois, houve um acidente no local enquanto um rapaz se equilibrava na faixa. A diretoria do instituto, então, suspendeu a autorização para a realização da modalidade no local. A Praça Gomes Freire (Jardim de Mariana) se tornou um dos espaços para o esporte, assim como o Bairro do Rosário. Nos últimos dois citados, no entanto, não há problemas e proibições.

Nova pista

A nova pista, assim como no projeto inicial, em 2008, estará localizada ao lado da Arena Mariana. Camila Pessoa diz que o orçamento já foi encaminhado para o Departamento de Compras e a expectativa é de que, após quase dez anos de insistência, Mariana possa ser considerada, de fato, uma cidade que valoriza o esporte e o lazer.