Ladrão: poder devolvido às origens

Ladrão: poder devolvido às origens

Texto: Gabriel Ferreira | Foto e vídeo: Júlia Lopes

“ABRAM ALAS PRO REI”. Nada mais certo que começar assim, já que é isso que foi visto no show de lançamento do álbum Ladrão, do rapper Djonga, no último domingo (21), no KM de Vantagens Hall, na cidade de  Belo Horizonte. O trabalho foi lançado no dia 13 de março, contém 10 faixas inéditas e já bate mais de 40 milhões de plays em plataformas como Youtube e Spotify.  

Antes mesmo de sua aparição no show, o artista deu indícios de que a noite seria histórica, tanto para o rap nacional quanto para Belo Horizonte, e, principalmente, para o povo preto, que engloba ele e sua família.

 

Sim, os espaços têm cor

Sem se mostrar ao público, Djonga canta “Mlk 4tr3v1do”, nona faixa do álbum, uma interpretação da música “Moleque Atrevido”, de Jorge Aragão, que ordena: “respeite quem pôde chegar aonde a gente chegou”. Nela, o cantor, em alto e bom som, faz alusão à sua juventude, quando ele (jovem negro) era obrigado a ver as “madames escondendo bolsas” e os “tios subindo vidros do carro”, quando circulava pela Savassi, bairro nobre de BH, onde fica o KM de Vantagens Hall.

Com o nome do álbum escancarado na parede ao fundo do palco, remetendo à arte do pixo, o rapper, já frente a frente com o público, utilizando uma touca ninja preta, dá continuidade àquele ato político. Inicialmente com a música “Hat-trick”, Djonga mostrou a subversão da palavra “Ladrão”. A faixa, além de ser a primeira do álbum, é também uma genuína marca de empoderamento para o povo preto: “Abram alas pro rei/ABRAM ALAS PRO REI/ me considero assim/ pois só ando entre reis e rainhas”.

Em determinado momento da noite, Djonga deixa explícita essa subversão ao falar da importância daquele espaço conquistado (KM de Vantagens) e de sua música, o que ele narra como uma retomada do poder às origens: “meto a mão no seu bolso, playboy e patricinha, mas para devolver para quem construiu essa porra aqui. Quem construiu este lugar (KM de Vantagens)? O cara lá do Mangabeiras? O rico? Não, foi o humilde trabalhador, a humilde trabalhadora que vieram lá de longe do Brasil”.

Com músicas que confrontam firmemente o racismo e trabalham a elevação da autoestima dos negros e negras, o artista falou sobre a importância de se popularizar o acesso àquele lugar. O ingresso, vendido a 10 reais, foi a alternativa para que o KM de Vantagens Hall não ficasse restrito somente a elite. Ouça a fala do artista:

 

 

“Gente igual a gente morre, a mídia omite
De acordo com as pesquisa, era pra esse som ser só o beat
Mas parece que eu não morro
Parece que pouparam minha vida pra contar história de morro
De rua e de gorro à noite, madruga e seus açoites
Ouviram toc-toc com o cabo da Glock”

(Trecho da música “Voz”, Djonga)

 

Momento destaque da noite

Sentado no centro do palco e visivelmente emocionado, Djonga canta “Bença” (sétima faixa). Dedicada a avó do rapper, dona Maria Eni, que o ensinou a “ir sem olhar para trás”, a canção deixa claro o propósito do álbum: “Esse disco é sobre resgate, para que não haja mais resquício, na sua mente, que te faça esquecer que você é dono do agora, mas o antes é mais importante que isso”.

E esse não foi o ápice do show. A avó de Djonga, o pai dele e o seu filho, Jorge, surgem no palco e comovem o cantor e o público. Fazendo o sinal da cruz, durante uma chuva de aplausos, Dona Maria Eni abençoou os presentes com os seguintes dizeres:

“Que proteja toda a equipe, todos os fãs
Dê muita saúde, muita força, muita sabedoria
Para todos, Iansã, Eparrei Iansã, tome conta desses filhos
Que são todos filhos de Jesus
Gemendo, chorando teve uma cruz
Que é o Pai, é o Filho e o Espírito Santo
Que Deus dê saúde a Gustavo
Pra poder continuar nesse lindo serviço maravilhoso
Que tá prestando pra todos nós
Em nome de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo
Que Deus ilumine o caminho de todos”

(Trecho da música “Bença”, Djonga)

 

Durante o show, Djonga mesclou as dez faixas do álbum Ladrão com outros sucessos, como “Poesia Acústica 6”, “Ufa”, “O menino que queria ser Deus” e “Esquimó”, que foi a última canção da noite. A sequência de músicas escolhida somada à presença de palco imponente de Djonga, Dj Coyote e o guitarrista mascarado,”incendiou” o público.

 

Resistência coletiva

A relevância política desse show foi intensificada com as participações especiais. O primeiro a subir ao palco foi Yuri Marçal, humorista negro, que ataca o racismo em suas piadas e é um dos principais nomes do Stand Up no país atualmente. Em um dos momentos mais simbólicos da noite histórica, Yuri arremessou uma cabeça de manequim com uma máscara da organização americana racista Ku Klux Klan, que foi totalmente destruída durante uma roda de bate cabeça.

Outro importante momento foi a participação dos cantores Filipe Ret, Chris Mc, Doug Now e Mc Kaio, presentes no álbum Ladrão. Sidoka, participante do penúltimo disco do rapper, O menino que queria ser Deus, foi outro personagem que esteve ao lado do “rei” Djonga na épica noite daquele domingo (21). Todos, ao deixarem o palco, foram fortemente abraçados pelo protagonista da noite.

 

Sim, pessoal, prestigiar esse elenco de peso custou: R$ 10,00.

 

A Deputada Federal Áurea Carolina também esteve presente. Ela faz parte da lista “As 100 pessoas jovens negras mais influentes do mundo na área de política e governança”, promovida por Most Influencial People of African Descent (Mipad). Graduada em Ciências Sociais pela UFMG e com especialização em Gênero e Igualdade, Áurea falou sobre a representação de Djonga para a população preta:

 

 

“ABRAM ALAS PRO REI”