Jornada infindável

Mulheres da Região dos Inconfidentes contam desafios e descobertas do trabalho remoto
 
PRODUÇÃO: NIKOLAS COSTA E LARISSA CRISTINA 
 

Com a Covid-19, a necessidade do isolamento social levou algumas empresas e profissionais a trabalharem remotamente. O home office foi a forma mais segura para manter as atividades e reduzir a transmissão do vírus. Mas, no caso de trabalhadoras mulheres, que já acumulavam os afazeres domésticos com a vida profissional, o que antes era uma jornada dupla, agora se tornou a sobreposição das duas funções ao longo do dia.

Segundo o IBGE, 7,9 milhões de pessoas estavam trabalhando de forma remota até setembro do ano passado, sendo 56% deste total mulheres. Uma pesquisa encomendada pela C6 Bank ao DataFolha também mostrou a diferença do impacto da pandemia entre os gêneros. O estudo entrevistou 1.503 pessoas, e 59% das mulheres afirmam estar mais ansiosas por questões profissionais, enquanto apenas 49% dos homens sentiram o aumento dessa sensação. Além disso, as mulheres são maioria quando o assunto é preocupação com o dinheiro: 71% das brasileiras dizem estar mais ansiosas por conta de questões financeiras, contra 63% dos brasileiros. Ainda de acordo com a pesquisa, 19% das entrevistadas fizeram uso de medicamentos durante a pandemia, versus 9% do gênero masculino. O Datafolha também apurou que 49% das mulheres se sentem muito isoladas e solitárias, enquanto somente 38% dos homens relatam a mesma percepção.

O que dizem os especialistas?
 

A especialista em educação corporativa e humanização do trabalho Priscila Pinheiro, a mestre em administração Alane Barbosa e a doutora em sociologia Ana Heloísa da Costa também realizaram uma pesquisa sobre as mulheres que têm trabalhado de maneira remota. Priscila avalia que o isolamento social causado pela pandemia agrava problemas relacionados à saúde mental: “Em um home office normal, as pessoas poderiam sair de casa normalmente e interagir. Diante desse contexto de pandemia, a ansiedade foi um sentimento presente entre 70% e 80% das mulheres entrevistadas”.

Alane Barbosa pontua que muitas participantes do estudo relataram problemas com ansiedade e estresse. “Houve mulheres que falaram do excesso de álcool, que começaram a beber mais porque estavam tão estressadas e pegaram a bebida como alento. Uma coisa que diminuísse a tensão e pressão que elas recebiam de ambas as partes, tanto de casa quanto do trabalho”, observa Alane.

 

Quando eu finalizo minha rotina de trabalho é a hora que eu tenho para compensar a minha ausência para ela. Não a ausência física, porque hoje eu estou em casa, mas os ‘nãos’ que ela escuta. Ao longo do dia, ao me ver em casa, ela me chama com muita frequência para brincar e espera o momento que eu largo o trabalho – Jaqueline Santiago, analista de comunicação em Ouro Preto.

 

A pesquisadora menciona também que, apesar do acúmulo de funções, um número expressivo de mulheres disse gostar desta forma de trabalho. Ainda que haja sobrecarga, o contato mais próximo com a família pode amenizar o estresse. “Essas possibilidades fazem as mulheres esquecerem as dificuldades. Esse é o grande achado do artigo”, revela a pesquisadora. Priscila Pinheiro descreve ainda que existem vantagens do trabalho em home office no ponto de vista de algumas entrevistadas. “Um relato interessante foi de uma mulher que pôde cuidar do filho que estava com febre e dar um carinho, um aconchego à criança. Outro caso é de uma mulher que começou a realizar atividades físicas, ter mais tempo para cuidar da saúde e fazer uma alimentação mais saudável, justamente por estar em casa. Algumas preferem este formato por ter mais tempo com a família, não perder tempo com o deslocamento no trânsito e poder cuidar mais de si própria”.

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Ter um ambiente exclusivo para trabalho é o ideal durante home office, porém muitas mulheres não possuem um espaço como este em casa. Foto: Sidnéia Martins
Quem são elas?
 

Jaqueline Santiago, 40 anos, é analista de comunicação em Ouro Preto e está há mais de 1 ano trabalhando em home office. Apesar das dificuldades, ela acredita que se adequou bem à nova rotina: “Eu de home office, uma criança pequena dentro de casa querendo atenção e minha mãe com as tarefas da casa. Fico tentando conciliar o home office com a minha filha e também dando suporte para a minha mãe. Então, foi bem puxado no começo. Hoje, já estamos mais habituadas, já virou uma rotina pra gente”.

A profissional, que mora com a filha de três anos, a mãe e o irmão, avalia que a dificuldade para organizar a rotina pode variar de acordo com as diferentes estruturas familiares. “Eu acredito que esse acúmulo de trabalho sempre existiu, principalmente com as mulheres, que acabam assumindo a maior parte das tarefas domésticas, além da rotina do trabalho externo. A pandemia trouxe mais sobrecarga, porque toda a rede de apoio que essa mulher tem, principalmente a mãe solo, foi suspensa”.

Jaqueline expressa também a necessidade de passar um tempo com a filha. “Quando eu finalizo minha rotina de trabalho é a hora que eu tenho para compensar a minha ausência para ela. Não a ausência física, porque hoje eu estou em casa, mas os ‘nãos’ que ela escuta. Ao longo do dia, ao me ver em casa, ela me chama com muita frequência para brincar e espera o momento que eu largo o trabalho”.

 

A gente estando em casa trabalha muito mais. É muito difícil dividir o horário, né? Ter o horário de trabalho e o horário de parar – Marcella Moreira, empresária e responsável pela gestão de uma rede de lojas na Região dos Inconfidentes.

 

O ano de 2020 também foi cheio de desafios para Dayanna Magalhães, 35 anos, professora de português do ensino médio em duas escolas em Mariana e há 1 ano em home office. Ela conta que, de março a junho de 2020, as aulas eram gravadas e, depois, começaram a ser realizadas em videoconferência, de forma síncrona. As  gravações eram editadas pelas professoras, o que exigia muito tempo. “Um vídeo de minutos eu gastava um dia inteiro para fazer, pois às vezes errava, tinha que gravar de novo e editar”, relata a professora que também é mãe de dois filhos.

Professora Dayanna em home office
A professora Dayanna Magalhães prefere dar aulas síncronas, pois consegue interagir com seus alunos, ainda que não se compare com o formato presencial. Foto: Dayanna Magalhães

Alessandra Maria, 44 anos, também é professora e atua no ensino médio e técnico nos distritos ouro-pretanos de Santa Rita Durão e Antônio Pereira. Afastada da sala de aula, desde março do ano passado, ela viu o volume de trabalho aumentar. “A cada dúvida que surgia nos alunos, nós, professoras, estávamos disponíveis. Eu posso te dizer com toda a certeza que trabalhei em dobro. Às vezes, eu estava fazendo alguma tarefa de casa e recebia uma mensagem no WhatsApp. Eu parava e respondia”. Em 2021, a professora não conseguiu uma vaga na rede pública de ensino e está desempregada. Para ela, porém, o isolamento social trouxe uma oportunidade de se redescobrir e aprender com as aulas online.

Tecnologia como auxílio no home office
 

Em alguns setores a mudança para o ambiente digital já estava acontecendo antes mesmo do contexto de emergência sanitária. Adriana Camilo, 42 anos, é coordenadora de recursos humanos em uma empresa de telecomunicação em Mariana. Ela avalia que a pandemia acelerou essas transformações: “Quando chegou a pandemia já estávamos acostumados a fazer tudo online. Então, trazer tudo pra dentro de casa foi muito fácil”, observa. 

Casada e mãe de uma menina de 11 anos, Adriana conta que está em home office desde março de 2020. Apesar de o marido participar pouco nos afazeres domésticos, ela organiza os horários sem se sentir sobrecarregada. “Como eu sou disciplinada, acho que essa característica ajuda demais. Eu consigo fazer tudo no tempo certo. Se a pessoa é indisciplinada, ela acaba tendo uma dificuldade maior, porque ela vai ver, por exemplo, uma casa suja ou um menino gritando. Ela pode desviar a atenção e acabar fazendo outras coisas”, observa Adriana.

Marcella Moreira, 25 anos, é empresária e responsável pela gestão de uma rede de lojas na Região dos Inconfidentes e, há mais de 1 ano, está trabalhando em casa. Antes da pandemia, ela visitava as lojas do grupo e as gerenciava presencialmente, mas a rotina teve que mudar. “Com a ajuda da tecnologia, tudo ficou muito mais fácil. Eu consigo ter acesso às lojas pelas câmeras e pelos sistemas de gestão. Vejo o que está acontecendo em tempo real, e isso facilita muito para continuar tomando as decisões, mesmo não estando lá”, conta a empresária. 

De acordo com Marcella, a nova forma de trabalho aumentou o seu rendimento, mas teve custos em sua vida pessoal: “Acaba perdendo o contato com muita gente, aquela coisa de proximidade que o brasileiro tem. Mas do ponto de vista do trabalho, eu consigo produzir mais. Hoje, eu faço coisas que antes não fazia e consigo olhar coisas que antes eu não conseguia olhar”. Marcela avalia, porém, que o volume de trabalho cresceu e não tem um horário fixo para terminar as atividades: “A gente estando em casa trabalha muito mais. É muito difícil dividir o horário, né? Ter o horário de trabalho e o horário de parar”.

Professora em home office
Apesar do aumento da carga horária no trabalho, a empresária Marcela Moreira pretende conciliar o home office com as atividades presenciais após a pandemia. Foto: Marcela Moreira