Jardim de Mariana: acessibilidade e impasses

Jardim de Mariana: acessibilidade e impasses

PRODUÇÃO: JOÃO PAULO, JULIANA RODRIGUES E LARISSA FERREIRA

As alterações na Praça Gomes Freire, em Mariana (MG), têm sido alvo de polêmicas, questionamentos e críticas desde 2019, quando foi anunciada pela Fundação Renova e pela Prefeitura uma ação compensatória totalizando R$ 100 milhões, na qual estava incluída a revitalização do espaço, conhecido como Jardim. No dia 13 de julho de 2021, a obra foi oficialmente entregue ao município.

De acordo com a própria Fundação Renova, As intervenções no espaço respeitaram o valor histórico, simbólico e afetivo do local e levaram as melhorias de acessibilidade, iluminação e paisagismo”.

Levando em conta as melhorias citadas, nenhuma delas causou mais polêmica do que a questão da acessibilidade. O primeiro questionamento da população dizia respeito a uma plataforma elevada que seria construída com a intenção de promover o acesso das pessoas com deficiência. À época, foi citada a descaracterização e prejuízos ao calçamento datado do século XVIII, popularmente conhecido como “pé de moleque”. 

Parte deste calçamento foi substituído pela passarela fabricada de quartzito polido, o que motivou o Ministério Público a embargar a obra.  Inicialmente, cumprindo a Lei Federal 10098/00, a rampa de acesso permaneceria. A Renova informou que o material seria substituído por seixos rolados, provenientes do próprio calçamento da rua. No entanto, alguns dias depois a rampa acabou sendo removida. Atualmente, é possível visualizar o calçamento sob a estrutura que foi aplicada. 

A estudante de jornalismo da UFOP, Cintia Soares, 22 anos, que utiliza uma cadeira de rodas para se locomover pelas ruas de Mariana, acredita que é possível alinhar acessibilidade e preservação, com base no diálogo com toda a sociedade.

“A gente tem que pensar no que vale mais: a mobilidade de todas as pessoas ou a beleza histórica, pois podem priorizar a preservação e excluir as pessoas”, ressalta. 

Já o técnico em saneamento, Alessandro Goulart, 39 anos, é um dos críticos da revitalização do Jardim de Mariana. Nascido e criado no entorno da Praça Gomes Freire, ele afirma ser necessário enfatizar que não foi gasto dinheiro público “nessa descaracterização”. 

“Foi por conta da Renova. Mas também tem que ser ponderada a questão das necessidades reais do município naquele momento”.

Goulart aponta várias demandas, de acordo com ele, muito mais importantes para o município.

“Como por exemplo nossos córregos e rios emporcalhados, calçamento e acessibilidade, escolas caindo aos pedaços, enfim, optaram por pegar uma praça lotada de histórias e charme e simplesmente enfiaram uma grana absurda para industrializar o visual, mudaram objetos de lugar, sumiram com um chafariz, usaram material de péssima qualidade em toda iluminação. Para mim, não ocorreu nenhum ponto positivo nessa intervenção, foi uma obra corrida, mal projetada e de enorme mal gosto”.

Assim como Cíntia, o mestre em História Social e Cultura pela UFMG e professor de História do IFMG, Alex Bohrer, 43 anos,  afirma que intervenções causam impactos, sendo necessário estudar como serem executadas a fim de causar a menor alteração espacial e morfológica possível no monumento.

“Qualquer intervenção gera impactos, mas a questão é que pode ser bem ou mal feita. O grande debate é como fazer as intervenções, que são necessárias, e como manter o máximo possível da ambientação histórica na sua melhor originalidade”, conclui. 

Apesar de não ter participado ativamente dos debates sobre as mudanças no Jardim com a população marianense, Cíntia destaca que soube da existência do diálogo e acompanha alguns argumentos, muitos deles contrários às obras no local, pautados na questão da preservação da arquitetura histórica.

“Alegam que vão tirar a essência do Jardim, que vão modificar demais, e que também o projeto apresentado não era igual ao que foi falado antes. Então temos que pesar o que vale mais: a acessibilidade ou a estética”. 

A cabeleireira, Cristiane Souza, 41 anos, é moradora do bairro Cabanas, mas trabalha na Rua Frei Durão há mais de 15 anos. Ela afirma que gostou do resultado, mas considerava a praça mais bonita antigamente.

“Eu achei que a reforma do jardim ficou bonita, mas ficou parecendo uma praça de capital, sabe? Parece que tudo ali foi planejado por um arquiteto. Antes a praça preservava uma espécie de alma mais bucólica, das pracinhas típicas das cidades do interior de Minas, com coreto, roseiras e banquinhos de madeira. Isso tudo acabou”. 

A equipe de reportagem do jornal LAMPIÃO tentou contato tanto com o Instituto do Patrimônio Histórico e Nacional, Iphan, quanto com a Fundação Renova. A intenção era ouvir o posicionamento dos órgãos e trazer alguns esclarecimentos a respeito da acessibilidade e diálogos com a população marianense. Até o fechamento desta edição não recebemos uma resposta. 


Saiba mais:

Pessoas com Deficiência

Segundo o artigo primeiro da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

“Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.”

Acessibilidade

De acordo com o artigo terceiro da Lei Brasileira de Inclusão (Lei n° 13.146/2015), o conceito de acessibilidade é descrito como a possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida. 

História 

Alex Bohrer explica que o Jardim de Mariana, que é de meados do século 18, já sofreu várias alterações da paisagem urbana, sendo algo comum e natural nas cidades.

“Qualquer modificação em cidades tombadas, como em Mariana, gera mais debate e é o correto”.

Ele cita algumas mudanças já realizadas ao longo do tempo, como, por exemplo, a existência de chafarizes, poços e casarios, que desapareceram, transformando o espaço.

“Houve um momento em que não tinha o coreto e algumas mudanças mais antigas são inclusive difíceis de serem mapeadas”, ressalta. 

Ele relata que Mariana foi destruída por uma enchente em meados de 1740. A partir de então, surge a ideia de se construir uma nova cidade, mais ampla e arejada que a vizinha, antiga Vila Rica, e foram escolhidas três praças: uma do poder religioso, sendo portanto o espaço em frente a Igreja da Sé; outra do poder político, onde é a atual Praça Minas Gerais, que abriga a Câmara e a Cadeia, símbolos do poder Real da época; e a praça do povo, onde a sociedade poderia realizar festas, quermesses, touradas, eventos e peças teatrais.

“As três praças de Mariana continuam com essa distinção, e o Jardim mais ainda, pois permanece como espaço de encontro, e ele foi feito para isso”, observa.  

Fundação Renova

A Fundação Renova é a entidade responsável pela mobilização para a reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, resultado de um compromisso jurídico chamado Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC). Ele define o escopo da atuação da Fundação Renova, que são os 42 programas que se desdobram nos muitos projetos que estão sendo implementados nos 670 quilômetros de área impactada ao longo do rio Doce e afluentes. As ações em curso são de longo prazo. 

(Fotos- Prefeitura Muncipal de Mariana)