Incêndios florestais no Parque Estadual Itacolomi

PRODUÇÃO: EMANUEL SILVA E MARCELA PATERLINI

Incêndios no Parque em 2021

O Parque Estadual do Itacolomi é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, aberta à visitação do público e situado no entorno dos municípios de Mariana e Ouro Preto. Com uma área de mais de 7 mil hectares sob a responsabilidade do Instituto Estadual de Florestas (IEF), o principal atrativo do Parque são as trilhas, sua história, e a paisagem marcada pelo “Pico do Itacolomi”, que atinge 1.770 metros de altura.

A vegetação, que pertence ao bioma da Mata Atlântica, também figura como uma das belezas do local. Em 2021, foram registrados cinco casos de incêndio e, com o incêndio ocorrido no dia 20 de setembro, o Parque fechou as portas para o público devido aos perigos e à extensão da área queimada. As chamas também ameaçaram casas na região, o local afetado foi próximo da Rodovia dos Inconfidentes, ao lado do hospital Santa Casa de Ouro Preto.

De acordo com a gestora do Parque do Itacolomi, Lúcia Cristo, em 2021, os incêndios já atingiram 444 hectares de vegetação. A área afetada do Parque soma 161 hectares. A partir da coleta de dados de campo e sensoriamento remoto, a engenheira ambiental Natália Milagres pesquisou as ocorrências de incêndios no Parque do Itacolomi, entre os anos de 2012 e 2017. Do total de 42 incêndios registrados nesse período, 19 deles aconteceram no ano de 2017 e afetaram 886 hectares da área do Parque.

Segundo a pesquisadora, as queimadas se concentram no período entre agosto e setembro, pois o tempo seco dessa estação é uma das causas que facilitam esses eventos.

Entretanto, o estudo da engenheira também revela, a partir dos Relatórios de Ocorrência de Incêndios, que “Aproximadamente 71% dos eventos de incêndios no interior e no entorno do Parque Estadual do Itacolomi têm causas classificadas como antrópicas”, ou seja, são causadas pela interferência humana.

Em 2020, foram registrados 220 mil focos de incêndio em todo o país, número que representa o aumento de 12,73% em relação ao ano anterior. Diante desse cenário, algumas áreas da região de Minas Gerais têm presenciado aumento nos casos de incêndios florestais. Em setembro deste ano, foram registrados mais de 3 mil focos de incêndio no estado. Além da destruição de florestas, as queimadas também são associadas à perda de biodiversidade, queda da fertilidade dos solos, poluição atmosférica e, em casos extremos, podem causar danos materiais e riscos à vida da população.

O Programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) monitora as ocorrências e propagação do fogo ativo na vegetação em todo o território brasileiro, avaliando seu risco, extensão e severidade. Com base nesses dados, o gráfico acima mostra a incidência de focos de incêndio na região de Minas Gerais entre 2018 e 2021. O mês de setembro de 2021 teve três vezes mais casos, quando comparado aos anos anteriores, o que indica, mais uma vez, o agravamento da situação.

Combate e prevenção

Diante desse aumento no registro de incêndios florestais na região, nos últimos anos, a Prefeitura de Ouro Preto tem atuado em medidas de prevenção, por meio da Secretaria de Meio Ambiente. O diretor de Parques e Áreas Protegidas da região, Pedro Rodrigues, informou que essas ações são realizadas junto ao Corpo de Bombeiros, Brigadas Voluntárias, Defesa Civil e Instituto Estadual de Florestas.

“No período que antecedeu a grande seca deste ano, fizemos campanhas de prevenção no entorno das Unidades de Conservação municipais, blitz educativas, campanha porta a porta, conversa com associações de moradores, sitiantes do entorno destas UCs”, disse o diretor.

Os passeios realizados pelos visitantes proporcionam um grande contato com a natureza e ajudam na construção da conscientização sobre a importância da preservação do meio ambiente.

Mas, além da educação ambiental, outro aspecto essencial para o combate e prevenção de incêndios é o trabalho desenvolvido pelos brigadistas frente aos acidentes na região. Treinados para prevenir, combater incêndios e prestar primeiros socorros, uma equipe de brigada de incêndio atua no atendimento de situações de emergência.

No Parque do Itacolomi, Maria Lúcia indicou que a equipe de brigadistas fica disponível o ano todo. O Corpo de Bombeiros cuida de incêndios urbanos e florestais, mas, com a mão de obra dos brigadistas, a necessidade de acionar essa ajuda depende do tamanho da área afetada.

“A gente avisa o Corpo de Bombeiros quando o incêndio ganha uma proporção maior. Aqui, a gente combate com uma equipe bem treinada, todos os nossos funcionários são brigadistas”, afirmou.

Uma parte dessa equipe é direcionada para ações de educação, pois a população é grande aliada na detecção de casos. Segundo a gestora, as equipes vão para as comunidades e pedem aos moradores que denunciem e avisem se houver algum indício de fogo.

“Porque o tempo de resposta da gente é muito importante. Ao saber logo que tem um incêndio, você já manda uma equipe e impede uma grande catástrofe. Então, vários moradores que têm uma boa visão do parque sempre nos avisam”, disse.

A área do Parque está situada em maior parte no município de Mariana, mas, segundo o fundador da Brigada Florestal, Adão Júnior.

“Em Mariana não se fala no Parque do Itacolomi, porque não tem entrada por aqui. Ele é mais explorado por Ouro Preto”.

Segundo o encarregado da fiscalização ambiental do município, Anderson Jesus, a Prefeitura de Mariana atua na educação ambiental através da distribuição de panfletos nas ruas, palestras em escolas e empresas. Mas, devido a pandemia, houve uma redução dessas ações educativas.

“Anteriormente íamos às escolas, fazíamos palestras nas escolas, era um trabalho mais intenso né”, disse Anderson.

Sobre a fiscalização das queimadas, a Prefeitura informou que tem feito um combate às invasões em torno do Parque do Itacolomi.

“Principalmente na parte das Cabanas e Serrinha, pois há uma grande quantidade de invasões e muitas vezes o fogo é colocado para limpar o terreno para futuras ocupações. Então esse combate tem sido constante por parte da guarda ambiental em tentar inibir o máximo das ocupações irregulares”, disse o fiscal.

A pesquisa da engenheira ambiental, Tamires Estevam, buscou mapear as áreas do Parque mais propensas a incêndios. A partir do estudo de características como altitude, ocupação humana e tipologia da vegetação, a engenheira elaborou um Mapa de Combate, ferramenta auxiliar nas medidas de prevenção e combate às queimadas no local.

As áreas mais vulneráveis e com uma maior dificuldade de acesso devem ser pontos de atenção e planejamento durante as épocas de estiagem.

Segundo Tamires, as formas de combate requerem “mais tipos de equipamentos de segurança, carros 4×4 e até o auxílio de helicópteros para acesso e/ou ‘Air Tractor’ para jogar água na área”.

Pedro Rodrigues afirma que o monitoramento ambiental em Ouro Preto também está sendo feito por drone, que permite uma visualização aérea das áreas de conservação.

Para o diretor, “esse monitoramento é muito importante antes, durante e no pós-incêndio, pois, através das imagens aéreas, conseguimos rapidamente mensurar a área queimada e traçar estratégias de combate mais assertivas“.

Buscando aumentar e organizar o contingente de pessoas preparadas para combates a incêndios, a direção de Parques e Áreas Protegidas oferece cursos de combate a incêndios florestais e primeiros socorros, realizados em parceria com o Corpo de Bombeiros. Esses cursos têm como público-alvo os funcionários das Unidades de Conservação municipais e estaduais, os funcionários da Secretaria de Meio Ambiente e os brigadistas voluntários.

Participação e problemas para na comunidade

Wanusa Rocha é moradora do bairro Vila Operária há 27 anos, trabalha no comércio de artigos religiosos e gosta de frequentar o Parque para curtir a natureza e fazer caminhadas. A última vez em que esteve por lá foi no começo de setembro, quando o incêndio ainda não havia ocorrido.

“Depois, não voltei, porque estava impedido de subir devido às queimadas”, relata.

Além de impedir o acesso dos frequentadores, comprometer a fauna e flora locais, as queimadas também atingem a saúde da população. A qualidade do ar fica comprometida, devido à fumaça e à fuligem que esses incidentes produzem e agravam doenças respiratórias. Wanusa conta que, durante o último registro de incêndio no Parque.

“O ar ficou mais seco. Meu filho tem asma e foi um período que afetou a respiração dele”. Segundo ela, as crises sempre pioram na época de seca. “Ele fica mais cansado. E essa época de seca acaba tendo a ver com a questão das queimadas, o ar fica mais seco, fica mais difícil”.

Para a empresária, o fogo intencional existe porque, “muitas pessoas querem ter o prazer de destruir”.

Mas a moradora da Vila Operária diz não ter visto nenhuma campanha educativa proposta pela prefeitura de Ouro Preto, algo que nos faz pensar se essas medidas são o melhor meio para prevenir o problema. O diretor de Parques, Pedro Rodrigues, afirma que as ações são sim efetivas.

“Um exemplo desta efetividade é o Parque Natural Municipal das Andorinhas, local muito trabalhado por nossa equipe de educação ambiental e que, pela primeira vez em muitos anos, não teve nenhuma ocorrência de incêndio”, comentou.

Campanhas educativas geralmente estão associadas a informações que circulam através de cartazes e folhetos. Wanusa diz que essas campanhas de prevenção deveriam focar em mais diálogo com a população.

“Uma campanha bem feita, não só de panfletagem, mas de falar também, porque às vezes muita gente não tem paciência de ler”, disse.

Maria Lúcia também acredita na importância de estar presente nas comunidades e em contato com a população. Os planos da gestão do Parque, para 2022, incluem ações de formação para ampliar o trabalho de educação ambiental.

“Estou fechando com o Corpo de Bombeiros e a gente quer fazer um curso de formação de brigadistas dentro do bairro Cabanas”, contou.

A aposta é que, por meio dessas atividades, seja possível mudar a mente das pessoas e “colocar a sementinha da preservação”, como disse a gestora. Além disso, por meio do curso será possível explicar para a população os riscos.

“Algumas ações que as pessoas não acham importante, mas que podem levar a um incêndio. Então, a gente chegou à conclusão que temos que estar nessas comunidades”, como indicou Maria Lúcia.

Clima mais seco e menos fiscalização

As fortes chuvas registradas no final de setembro marcam a passagem do período de estiagem no Brasil, que acontece geralmente entre os meses de junho e setembro. Em 2021, a estação foi mais seca que o habitual. Segundo os registros do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), as hidrelétricas do país operaram com o menor volume de chuvas em 91 anos.

Marcado pela baixa umidade do ar, o período de seca registra aumento nos registros de incêndios florestais. A seca é uma das consequências do aquecimento global, causado pelo aumento das emissões de gases na atmosfera, que causam o efeito estufa como o dióxido de carbono (CO²). Apesar da redução das emissões globais, devido à diminuição das atividades industriais na pandemia, no Brasil, houve aumento de 9,5% desses gases, principalmente por consequência do desmatamento.

Esse agravamento influencia diretamente nas mudanças climáticas, já que as áreas de florestas e os ecossistemas naturais são grandes responsáveis pela absorção de carbono. Com os incêndios florestais, esse carbono é liberado para a atmosfera, contribuindo para o efeito estufa e o consequente aquecimento global.

Na área do Parque do Itacolomi, não é comum que haja situações de queimadas intencionais, mas as denúncias e as notificações aos proprietários vizinhos ainda acontecem.

“Porque muita área que está nos arredores do Parque, que ameaça o Parque, não é do Estado”, relata Maria Lúcia. Ela indica que as denúncias são feitas aos órgãos que têm “poder de polícia”, “mas é muito difícil pegar as pessoas que fazem esse tipo de coisa”, considera.

Segundo o Art. 41 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), provocar incêndios em mata ou floresta pode incidir em pena de dois a quatro anos de reclusão e multa, mas a fiscalização desses crimes é dificultada pelo corte de verbas. Segundo o levantamento apurado e publicado pelo site ((o))eco, uma organização não governamental dedicada às causas ambientais, o valor destinado a ações de monitoramento do desmatamento e queimadas em todo o país, sofreu uma queda de 60,5% em relação aos anos anteriores. Em 2011, foram destinados 6,7 milhões para as ações; já em 2021, o valor é de 2,6 milhões, de acordo com o Sistema de Planejamento e Orçamento (SIOP) do Governo Federal.

Dificultar a fiscalização, certamente, abre brechas para o fogo criminoso. Para Maria Lúcia, trata-se de negligência.

“Na época de seca, a gente tem uma lei Federal que proíbe colocar qualquer tipo de fogo, mas a pessoa, por exemplo, faz uma capina no terreno dela e põe fogo. Então, em alguns casos, não existe a maldade, mas existe uma inocência da pessoa em não vislumbrar que aquilo que ela tá fazendo, uma fagulha daquela pode virar um grande incêndio”, comentou.

No período de secas, os pequenos fogos podem se alastrar rapidamente para áreas de vegetação mais densa. Práticas muito comuns em áreas rurais são o uso de fogueira para cozinhar ou a queima do lixo no fundo do quintal. Essas atividades, aparentemente simples e inofensivas, podem ser o início de um problema ambiental e social mais amplo.

Na região do Parque do Itacolomi, o planejamento é para que as ações de conscientização sejam feitas durante o ano todo.

“A gente vai fazer algumas blitz, mesmo estando no período de chuva. Agora, vai entrar o verão e muitas pessoas começam a ir pra cachoeira”, afirmou a gestora.

Já a Secretaria de Meio Ambiente do município de Mariana, nos informou que ainda não elaborou uma programação de ações específicas para o período do verão.

Frequentar parques, fazer trilhas, acampar, são sempre boas opções de lazer. Mas precisamos estar sempre atentos às nossas ações, pois as atividades humanas ainda representam uma grande ameaça para o meio ambiente, seja por emissões de gases ou por negligência em relação ao fogo.

(CAPA-Fotografia: Jonathan Robert)

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