Heroína de capa branca

Relatos sobre um ano de pandemia⠀

 

PRODUÇÃO: REGIANE BARBOSA
 

Cabelo liso, amarrado, sempre por dentro da touca que cobria sua testa. Luvas justas e uma máscara que escondia seu queixo, boca, nariz. De tão justa, a máscara deixa marcas, que simbolizam segurança e vida. Com um pouco mais de um metro e meio, Samantha não sabia a grandeza que tinha em seu coração e a força que sustentava seus ombros. Em seu trajeto diário, vai de Passagem de Mariana, onde mora com seus pais e irmãos, até a Policlínica Municipal. Quando chega, veste sua capa de heroína e, neste momento, se transforma. Lá, ela não é mais a mesma Samantha, filha, irmã, tia, namorada, amiga. Lá, ela é a mulher que ajuda a salvar vidas.

Flamenguista doente, Samantha D’Ângelo Vieira Tonidandel é a mais velha de uma casa de quatro filhos. Com seus 28 anos, a nossa heroína sempre gostou muito de química, por isso escolheu ser farmacêutica bioquímica. Na verdade, como ela mesmo diz, parece clichê, mas foi o curso de farmácia que a escolheu. 

Quando Samantha entrou para a faculdade, não foi um período muito fácil, ela precisou abdicar de muitas coisas para seguir firme com seu propósito. “Eu  virava noite estudando e sempre me perguntava se todo aquele esforço um dia valeria a pena”. Sua avó foi uma das principais apoiadoras do seu sonho, mas, hoje, infelizmente, não está mais entre nós. Emocionada com a lembrança, ela disse que um de seus tios também lhe ajudou, pois ele queria muito que ela tivesse o ensino superior. “Com o apoio da minha família, formei depois de um pouco mais de cinco anos. Foram dias de lutas, esforços, noites em claro, suor, sola de sapato, olheiras, mas que ajudaram a me tornar quem eu sou hoje”.

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Há momentos e pessoas importantes para a vida de Samantha, que fazem parte da sua caminhada de amor, dedicação, fé e esperança; Foto: Montagem de Lívia Ferreira e Regiane Barbosa, com imagens de Larissa Gonçalves e Samantha Tonidandel.

Uma outra pessoa que sempre esteve ao seu lado, apoiando, amando e protegendo, foi o seu namorado, Frederico. Juntos há sete anos, ela conta que ele sempre esteve por perto em todos os momentos, sejam eles tristes ou alegres, em momentos turbulentos e de caos.

Amante da natureza e dos cachorros, Samantha ganhou mais um novo amor durante o turbilhão que vive sendo uma das profissionais da linha de frente na luta contra a Covid-19. Sua sobrinha e afilhada, Anna Júlia, trouxe mais cor aos dias cinzentos de pandemia. 

Quando Samantha aceitou meu pedido para ser perfilada, ela me contou da sua timidez e não sabia se conseguiria relatar tudo. No dia da entrevista, estava com vergonha de ligar a câmera.

*

Aquele 18 de março de 2020, quando o poder público mandou fechar os comércios e orientava as pessoas a ficar em casa, foi o momento em que o choque de realidade recaiu sobre todos nós. “Lave as mãos”, “use álcool em gel”, “mantenha o distanciamento social”, “só saia para serviços essenciais”, “se puder fique em casa” são frases que nos acompanham até hoje. E, a partir deste momento, tivemos que nos distanciar daqueles que mais amamos. 

 

“Foram dias de lutas, esforços, noites em claro, suor, sola de sapato, olheiras, mas que ajudaram a me tornar quem eu sou hoje” – Samantha, farmacêutica bioquímica

 

Foi naquele momento que a rotina de Samantha e de tantas outras pessoas começou a tomar um outro formato. “Minha vida mudou e não sou mais quem eu era antes”. Naquele instante, os seus olhos, escondidos atrás de duas grandes lentes redondas, se encheram de lágrimas. “Eu não imaginava que esse vírus ia chegar tão rápido aqui no Brasil”. Com expressão assustada e um tom de voz mais grave, ela descreve a sensação que voltou a sentir ao falar da chegada do vírus no nosso país. Relatava tudo com os olhos bem abertos e com cara de quem estava lembrando de que já estamos há um ano na mesma situação. 

A agitação de trabalhar com urgência e emergência é o que a farmacêutica mais gosta, confessou. Sangue, frascos, amostras, exames, planilhas, testes e mais testes. Em um ano de pandemia, foram inúmeros. Uns positivos, outros negativos. Uns que trazem um acalento ao coração, outros que dilaceram a alma. É um vírus destruidor. E, em certos momentos, era Samantha quem assinava o anúncio que mudaria, ali, a vida das pessoas. 

No início de sua carreira como farmacêutica bioquímica, no hospital Monsenhor Horta, ela trabalhou em muitos casos de dengue e febre amarela. Confessa que foram difíceis, mas, hoje, percebe que ter passado por eles lhe ajudou a enfrentar o pior que estava por vir: uma pandemia de um vírus que a princípio não tinha vacina, não tinha cura. 

Antes dos primeiros casos confirmados, já chegavam alguns pacientes com sintomas gripais nas unidades de saúde. Tudo era novo, era a genesis que originou mudanças na vida de todos nós. Trazendo essas lembranças à tona e comparando com o momento atual, hoje, Samantha recorda como era lidar com novos acontecimentos, tanto para a vida dos pacientes, quanto para ela e todos os profissionais de saúde. “Não tinha os testes rápidos que temos hoje, os exames que a gente fazia eram mandados para BH e o resultado não era disponibilizado de um dia para outro. A agonia e ânsia da espera dos pacientes também era a nossa”. 

Em meio às paredes de um tom amarelo claro, passava a maior parte do dia, mas sem saber como seria o amanhã. Ela nos diz em um tom melancólico que precisou aprender a lidar com a presença da Covid-19 dentro do trabalho e de sua vida. Com o passar do tempo e aumento dos casos, Samantha se sentia psicologicamente abalada. Não estava realmente tão preparada para lidar com esse novo hospedeiro que veio sem ser convidado e fez tudo mudar. Mas, como diz a canção “Tocando em Frente”, de Almir Sater, que remete muito ao momento que vive, é preciso “cumprir a vida, compreender a marcha e ir tocando em frente”. E foi exatamente o que ela fez. 

A sustentação para seguir em frente com suas batalhas diárias veio de Deus e de sua família. “O que me dá forças para sair de casa todos os dias sempre é Deus, minha família, o Fred, que sempre me deram muito apoio. Minha mãe me ajudou muito neste período, pois eu praticamente não tinha forças físicas e psicológicas, eu vivia em função do meu trabalho”.

Ao indagá-la sobre seus maiores medos, Samantha fez uma pausa longa, como se não soubesse contabilizá-los e expressá-los. Olhando para o teto como se estivesse procurando algo, com a voz acelerada, dizia que passavam mil coisas na cabeça, pois ela tinha contato com casos positivos todos os dias. Depois de fazer uma reflexão interna, me contou que não sentia medo de ser contaminada, mas, sim, de contaminar os que conviviam com ela: “Iria me culpar demais se isso acontecesse”.

 

“Eu ficava muito triste quando alguém partia. Teve um momento que pensei que não aguentaria mais” – Samantha, trabalhadora de linha de frente

 

Quando perguntei para Samantha como era lidar com tantos pacientes que precisavam de internação, ela me disse com olhar afetuoso que acabou se apegando a algumas pessoas, pois o convívio era diário. Alguns, infelizmente, não puderam ter a felicidade de conhecê-la sem toda aquela roupa que lhe fazia sentir como uma astronauta. Outros tiveram a sorte de poder agradecer pelo carinho e dedicação. 

Foi nesse momento que se lembrou de um dos casos que mais lhe comoveu. Com a voz engasgada, falou sobre um dia em que foi realizar a coleta de material para  análise. Um paciente que estava internado a tocou no braço e pediu para não deixá-lo morrer. “Naquele momento eu fiquei sem reação. Não consigo descrever com palavras o que senti”. Com a expressão que Samantha trazia em sua face ao me relatar a experiência que viveu, senti uma dor no fundo da alma, por imaginar quantos pacientes imploram pela salvação de suas vidas e o peso que cada profissional da linha de frente carrega ao lidar com esses casos.

“Eu ficava muito triste quando alguém partia. Teve um momento que pensei que não aguentaria mais. Foi então que eu parei, respirei fundo, desativei minhas redes sociais para ficar longe de notícias, precisava me desligar”. Aflição e pânico era o que sentia ao lidar com todo esse emaranhado de notícias que chegavam até ela. 

Ao lidar com casos assim e com a pressão diária que envolve diversos profissionais da saúde, muitos pensam em largar tudo e desistir. Samantha não foi imune a esse sentimento. Ela pensou em desistir inúmeras vezes, nada é fácil. “Toda vez que eu pensava nisso, Deus sempre falava comigo: ‘Não, Samantha, eu preciso que você continue, porque as pessoas precisam de você’. Deus é a força que  me sustenta. As orações da minha mãe, avó, tias me ajudaram muito, me mantiveram de pé, por que chega uma hora que é só Deus para ajudar, mais ninguém”.

Após ouvir esse relato, minha mente refletia sobre todas as coisas que eu precisava mudar. Passar a dar mais valor à vida, natureza, minha família, amigos, ao próximo. Dar valor às coisas mais simples, pois os momentos são únicos e não voltam mais.

*

Depois de um ano de casos confirmados, suspeitos, mortes, alegrias, agonias e atribulações. Depois de muita crise política para a chegada da tão sonhada vacina, que imunizaria a todos e assim nos veríamos livres dessa batalha interminável. No dia 19 de janeiro de 2021, no final da tarde, a esperança chegou dentro de uma caixa vermelha. Vinda de Belo Horizonte, com destino à Mariana, para trazer as doses de saúde, alívio e dias melhores. 

A notícia de que as doses estavam chegando repercutiu pela cidade inteira. A ansiedade para a chegada daqueles pequenos frascos, com um líquido que mudará a vida de todos, parecia mais a final da Copa do Mundo. Imprensa, autoridades, curiosos, pessoas que estavam passando no local, todos estavam a postos para a chegada da vacina. 

O grande dia foi transmitido para toda cidade por meio de uma live nas redes sociais da prefeitura. Em um momento como esse, todos mereciam acompanhar. Eu também acompanhava. Quando o secretário de saúde saiu do carro com os imunizantes, senti um alívio tão grande no peito, que para acompanhar a  imensa alegria, abri uma garrafa de vinho e coloquei a trilha sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain”.

Lá, no asilo, onde os primeiros idosos receberam o imunizante, parecia um momento de êxtase. Há tempos não sentia nada assim. Para mim, a partir dali, os casos iam diminuir, menos pessoas iam morrer, os hospitais não trabalhariam mais em sua capacidade máxima. Doce ilusão, Regiane. Eu mal sabia que uma onda mais forte estava por vir e que, nela, pessoas importantes para mim passariam pela agonia de ficar isolados, lutando para puxar o ar do pulmão, ação que parece ser tão simples. Mal sabia que iria perder pessoas para a eternidade. É realmente preciso concordar que são tempos difíceis para os sonhadores. 

*

A alguns quilômetros de onde acontecia a aplicação das primeiras doses, estava Samantha, ao final de mais um turno cansativo. A única coisa que ela sabia é que, saindo do trabalho, iria para casa e, lá, faria a rotina diária de desinfecção. Mas, no fim daquela tarde ensolarada de verão, aconteceu um fato que mudou a vida de Samantha. Ela já sabia da vinda das vacinas, como todos da cidade, mas mal sabia que, naquele dia, receberia a primeira dose.

“Quando a agulha penetrou na minha pele”, relata empolgada e também emocionada, “passou um filme na minha cabeça, me veio toda a lembrança da trajetória que passei. Foi tudo muito trabalhoso e cansativo. Era a resposta que tanto esperava, que estava prestes a entrar na minha corrente sanguínea. 

Além de emocionada eu só tinha que agradecer a Deus por me dar forças para chegar até aqui, aos cientistas, pesquisadores que deram o seu melhor para confeccionar as vacinas”. Foi impossível não me emocionar com todo esse relato.

 

“O que me dá forças para sair de casa todos os dias sempre é Deus” – Samantha D’Ângelo

 

Samantha mal conseguia verbalizar, pois ao contar sua experiência, ela novamente sentiu a emoção do momento. “Eu não sabia que ia ter tanta repercussão. Quando peguei o celular, já tinha fotos minhas nas redes sociais, muitas mensagens positivas, de aconchego. No outro dia, até uma matéria saiu no jornal local, dizendo que eu era a primeira moradora de Passagem de Mariana a ser vacinada”. Quando a entrevistei, a segunda dose já tinha sido aplicada. E ela já podia trabalhar mais tranquila.

Dizem que quando a gente passa por momentos difíceis na vida, sempre fica um aprendizado, nos tornamos mais resilientes. Quando já estava para encerrar minha conversa com Samantha, resolvi fazer a última pergunta, que não estava programada. Indaguei sobre como ela se define agora, depois de tantas coisas que passou durante um ano de pandemia. Ela me disse que mudou e não é mais a pessoa que era antes. “Eu passei a enxergar tudo com outros olhos. Eu era uma pessoa que reclamava muito da vida, mas depois que eu vi muitas pessoas sofrendo de perto, lutando para respirar, vi  mãe perdendo filho, filho perdendo mãe, resolvi agradecer mais e reclamar menos”.

Ao final da nossa conversa, após o breve período de desligar a câmera, ouço meu celular vibrar e nele uma mensagem de Samantha, com as palavras: “Me segurei para não chorar”. Mal sabia ela que eu estava bem atenta aos seus olhos, que ficavam por horas imersos em lágrimas.

Muito prestativa tanto com seus pacientes, quanto com os que estão ao seu redor, Samantha se colocou à disposição caso eu precisasse que ela respondesse mais alguma coisa. Aquela timidez inicial já havia se dissipado em meio a uma longa conversa de uma quarta-feira à noite.  

Numa manhã nublada, lhe enviei mais algumas perguntas, pois ela me deixou à vontade para fazer isso. Fiquei sem resposta. Olhava para a tela do celular e nada daquela notificação esperada chegar. Quem estiver lendo estes relatos e sofrer de ansiedade, vai saber muito bem qual era o ritmo dos meus batimentos cardíacos durante a espera. Imaginei que seria a correria dos dias intensos de laboratório, mas, infelizmente, não era isso que estava acontecendo.

O silêncio que rondava aqueles dias sem resposta foi interrompido por um chamado que, acreditei, me traria boas novas. Li ansiosa as palavras digitadas por Samantha. Então descobri: aquilo que ela mais temia, acabara de acontecer. Não tive reação. Somente prestei a minha solidariedade e fui logo atender ao seu pedido: orações.

Leia aqui o perfil de outra trabalhadora essencial, a terapeuta ocupacional Suzana Gontijo: A peleja de uma terapeuta em tempos de Covid-19.

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