Grupo musical mantém tradição de 58 anos

Grupo musical mantém tradição de 58 anos

Coral Nossa Senhora do Rosário se atualiza mantendo as tradições para continuar vivo na história de Padre Viegas

Texto: Carlos Romano | Foto: Túlio Gariglio | Sonora: Amanda Egidio, Georgyanne Sena e Patricia Consciente

Para uma melhor experiência, recomendamos o uso do fone de ouvido:

 

Em 1960, o Cônego Jadir Trindade Lemos assumiu a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário do Sumidouro, no distrito de Padre Viegas, em Mariana. Foi quando sugeriu para Geraldo de Jesus Gomes, na época seminarista, que criasse um coral de músicas sacras para cantar na igreja.

Geraldo convidou alguns amigos, amigas e gente que gostava de cantar para formar o grupo musical.  Reuniu, então, 12 pessoas e, no início, eles ensaiavam na casa de sua mãe. A estreia aconteceu no dia 7 de outubro de 1960, sem instrumentos musicais. Cantaram a Missa de Angelis – cerimônia realizada inteiramente em latim e em canto gregoriano, que ocorre em datas comemorativas, como o aniversário do grupo. Esta tradição existe até hoje, fazendo do Coral Nossa Senhora do Rosário um dos poucos que ainda canta em latim no Brasil.

Ele deixou o seminário e se tornou maestro. Desde que o coral foi fundado, passaram pela regência de Geraldo cerca de 30 pessoas. No começo, os músicos da Corporação Musical do Sagrado Coração o ajudavam em grandes apresentações, com a participação de sopristas e violonistas. Com cantores do coral e músicos da corporação, o grupo passou a rodar Minas Gerais. Segundo Padre, apelido dado a Geraldo pelos amigos, foram além das fronteiras estaduais. Viajaram cerca de 16 horas para cantar o tradicional Oratório de Natal, na cidade de Cândido Mota, no interior de São Paulo, o lugar mais longe em que estiveram.

Mesmo sendo o responsável pelo início das atividades do coral, o maestro não se considera o único fundador. Para ele, o cônego Jadir – o idealizador – e os 12 primeiros cantores são igualmente precursores. Por mais de 30 anos, Geraldo foi o único regente do grupo. Hoje, o músico Júnior Nonato divide essa vaga com ele. Nonato desenvolve o projeto de musicalização infantil para crianças de até 10 anos. O intuito dessa atividade é dar continuidade e renovação ao projeto.

 

Novos tempos

A falta de recursos financeiros sempre esteve presente, mas, em 2008, alguns desses problemas foram resolvidos. Um edital da empresa Samarco trouxe mudanças positivas. O projeto foi orçado em R$ 50 mil pelo coral e aprovado com verba inicial de R$ 20 mil. Esse dinheiro foi utilizado para comprar materiais de escritórios, cadeiras, mesas, computadores e uma impressora. Nonato relatou que alguns ensaios eram cancelados por não haver cópias das letras para todos os cantores.

Passado algum tempo, a empresa repassou os R$ 30 mil que faltavam. A verba possibilitou a criação de cursos de instrumentos de cordas gratuitos para toda a comunidade de Padre Viegas. São oferecidos, hoje, pelo Coral Nossa Senhora do Rosário cursos de violão, violino, cavaquinho e violoncelo. Júnior estima que, ao longo dos anos, 100 pessoas já passaram pelo curso de violão. Além das aulas gratuitas para a comunidade, foi criada a banda Skactus, de reggae, em parceria com a corporação. Atualmente, os ensaios e as aulas acontecem na sede da Associação Comunitária de Padre Viegas (Acompav).

Os apoiadores financeiros de todos os projetos são os próprios componentes do coral, que ajudam com uma mensalidade. Entretanto, esse recurso diminuiu com o passar do tempo, relata Nonato. A prefeitura concede uma verba anual de R$ 3.500 por meio do repasse social para todas as entidades de mesma natureza.

O curso de musicalização infantil é composto por aulas de flauta doce e canto coral, e é oferecido desde 2016, a fim de incentivar a formação de novos músicos. Obrigatoriamente elas devem participar de ambas as aulas, isso porque, de acordo com Nonato, a flauta proporciona aprendizados básicos para qualquer músico em formação, como altura, intensidade e duração. O canto coral, por sua vez, tem como objetivo a afinação musical. Quando as aulas introdutórias são encerradas, as crianças são apresentadas aos instrumentos musicais de sua escolha. Todas as atividades realizadas pelos integrantes do grupo, incluindo ensinar música para as crianças, são voluntárias e realizadas com muita dedicação.

Alguns problemas colocam em risco a continuidade do Coral Nossa Senhora do Rosário. A falta de uma sede própria faz com que tenham que dividir o espaço com a Acompav, impossibilitando a abertura de novas turmas de musicalização. As participações em todos os eventos da comunidade e das missas mantêm viva a vontade dos integrantes.

As lembranças

Joaquim Nonato

Em 2000, Joaquim ainda era um músico de bar com poucos estudos em teorias musicais, mas com grande capacidade de reproduzir as músicas de ouvido, sem as partituras ou cifras. Foi quando ele e seus amigos receberam o convite do maestro Geraldo para integrar o Coral Nossa Senhora do Rosário. Com receio, por falta dos conhecimentos técnicos, Joaquim aceitou o convite e foi para o ensaio no domingo. Ao chegar, percebeu que os amigos não compareceram.

Em sua primeira apresentação na igreja, por não saber ler partitura, se sentou ao lado de uma ex-violonista do coral. Conseguiu acompanhá-la com perfeição e foi parabenizado pelos novos companheiros, que insistiram que ele passasse a frequentar os ensaios.

Quando a ex-violonista faltou em um domingo, o maestro Geraldo colocou uma partitura na sua frente. Nesse momento, decidiu que aprenderia teorias musicais e conseguiria tocar violão não só de ouvido.

Hoje, Joaquim é o violonista principal do coral, além de presidente. Desde que ingressou, nunca mais deixou o grupo, parou de tocar em bares e tem se dedicado exclusivamente às apresentações. Além disso, foi uma influência para seus filhos, que logo se interessaram e ingressaram no grupo musical. Joaquim é pai de Júnior Nonato, músico formado que trabalha com a musicalização da nova geração de cantores de Padre Viegas.

Seu sonho para o futuro do coral é a construção de uma sede própria, onde o espaço será todo revertido em melhores condições para a equipe.

Sueli da Silva Pereira  

Dona Sueli, carinhosamente chamada de Lica pelos integrantes do coral, é a pessoa que, junto ao maestro Geraldo de Jesus Gomes, está há mais tempo na instituição. A convite do maestro, passou a integrar o grupo ainda com 10 anos.

Nenhuma adversidade foi suficiente para afastar Lica dos ensaios. Mesmo com os filhos pequenos, ela conseguia programar a agenda para conciliar as atividades de mãe e dona de casa com as apresentações. Após sete anos casada, se mudou com a família para um sítio distante do centro do distrito, e, mesmo assim, se esforçava para comparecer, ensaiar e se apresentar com o grupo.

Em 2017, Sueli enfrentou um problema familiar. Entre visitas à nora, internada na época, e ensaios, era do coral que Lica retirava forças para enfrentar os problemas. Lá é onde ela tem alegria para superar qualquer tipo de adversidade: “Cantar no coral é muito bom, cantar no coral é vida”.

Inúmeros são os bons e importantes momentos com toda a equipe, tantos que dona Sueli não consegue listar apenas um. Seu maior desejo é que o Coral Nossa Senhora do Rosário nunca acabe, que perdure e transmita felicidade para as próximas gerações de cantores, músicos e espectadores.

Dona Sueli enxerga nas crianças essa possibilidade, esse amor, e deseja transmitir para elas o sentimento de carinho e de pertencimento a um grupo tão especial. Por ela, sua passagem no coral só acaba quando ela não estiver mais viva.