Futuro incerto para jovens estudantes

Alunos marianenses falam sobre suas expectativas e apreensões em relação ao Ensino Superior diante de um cenário de contingenciamento de verba da educação no país

Texto e vídeos: Kelly Sousa e Neto Pretti

Concluir o Ensino Médio, prestar o Enem e ingressar em uma universidade pública é o sonho de muitos jovens brasileiros. Porém, submeter-se a uma avaliação  capaz de direcionar quais caminhos serão seguidos pelos próximos anos, ou pelo resto da vida, não é algo fácil. É preciso lidar com expectativas, apreensões, cobranças. Esta carga pode parecer pesada demais para pessoas que, por vezes, sequer chegaram à maioridade.

Entretanto, no atual cenário político nacional, as preocupações em relação à prova que serve como principal porta de entrada para o Ensino Superior não são as únicas coisas a tirar o sono de muitos jovens. A educação pública do país tem sofrido cortes orçamentários que colocam em risco, entre outras coisas, a manutenção das universidades federais, instituições responsáveis por uma parcela significativa da pesquisa científica brasileira e que fazem parte da meta de vida de muitos daqueles que almejam uma formação de qualidade.

No dia 30 de abril, o Ministério da Educação (MEC) anunciou o corte de 30% na verba de manutenção das universidades e institutos federais de todo o país. A decisão afeta diretamente o funcionamento dessas instituições, que já vêm enfrentando diversos contingenciamentos nos últimos anos. Somente nas universidades o corte foi de R$2,8 bilhões do total de R$50,62 bilhões aprovados para o orçamento de 2019, como aponta o Painel de Cortes divulgado pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

Em nota, o Governo Federal afirma que a redução representa somente 3,4% do orçamento total das universidades e que os cortes não afetam os salários e aposentadorias dos professores, assim como as bolsas de assistência estudantil, que fazem parte das despesas obrigatórias. Entretanto, como aponta o documento da Andifes, as mudanças têm grande impacto sobre os gastos não obrigatórios, que incluem despesas com água, luz, equipamentos e bolsas para pesquisas, funcionários terceirizados e obras de infraestrutura.

Diante dos cortes expressivos, algumas instituições alertam para a dificuldade de manterem suas atividades, entre elas a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) que terá o funcionamento comprometido a partir do segundo semestre deste ano, caso a medida não seja revista. A declaração é da reitora Cláudia Aparecida Marliére de Lima, em entrevista concedida à TV UFOP no dia 10 de maio.

Mas não é somente o Ensino Superior que sofreu contenções. Segundo decreto de contingenciamentos de gastos emitido pelo governo federal no dia 29 de março,  a verba para a educação teve redução de R$ 5,7 bilhões, o maior corte entre as pastas do governo. A medida afeta, entre outras áreas, os Ensinos Básico, Médio e Técnico, além dos orçamentos para a construção de creches e para programas de alfabetização de jovens e adultos. Somado aos cortes anunciados pelo MEC no fim de abril, o orçamento para a educação brasileira foi reduzido em mais de R$7 bilhões em 2019.

Diante deste cenário de incertezas, a nossa equipe de reportagem conversou com alunos e professores de escolas públicas de Mariana e Ouro Preto, para saber como essas mudanças interferem nas expectativas desses jovens em relação ao Ensino Superior. Veja abaixo alguns relatos.

 

“Esse período pré-Enem tem afetado a minha vida de em todos os sentidos, porque eu tenho medo do meu futuro, eu tenho medo de como a atual situação do país ‘tá’ e eu tenho medo de como tudo isso vai refletir em quem eu vou ser amanhã. Mas mantendo a esperança de que tudo dê certo.”  – Sarah Murta Ambrósio, 17, estudante

 

 

“Tenho uma certa preocupação, porque pra mim é um grande desejo entrar na universidade. E eu vejo, pelo menos para mim, a única solução é educação mesmo, é o caminho de tudo.” – Laura de Souza Saldanha, 17, estudante

 

“Isso causa ainda mais pressão psicológica, porque a gente fica indeciso. Apesar de ter em mente os objetivos de precisar estar estudando, precisar prestar vestibular, ainda tem isso pra gente saber: será que vai ter mesmo como acessar uma faculdade? E será que isso vai mudar muito a minha vida? Gera grande preocupação.” – Rodrigo Mendes, 18, estudante

 

“Antes eu estava mais segura, porque eu acreditava que tinham tantas vagas esperando. Mas agora, com esses cortes na educação, uma coisa lamentável para todos nós, fica confuso, porque a gente não sabe se vai ter alguma faculdade aberta até lá.” – Lorena de Castro Costa, 17, estudante

 

“As minhas expectativas eram mínimas. Agora, sabendo que haverá o corte de gastos, a minha expectativa é quase nenhuma. Isso desmotiva muito.” – Nayure de Oliveira Silva, 17, estudante

 

“Agora a maior preocupação deles [estudantes] é assim ‘poxa vida, a gente já está preparando para uma coisa e que já é difícil’. Não são todos que vão conseguir ter acesso, não são todos que vão conseguir chegar nessa etapa que é entrar na universidade. E nem todos têm condição, a maioria não tem condição de entrar numa universidade privada.” – Bruno Carrilho Coga , professor

 

“O investimento na educação é uma coisa tão séria, faz tanta diferença na vida de uma pessoa. E essa época, que é para o resto da vida, você planta agora para colher pelo resto da sua vida. Então é um quadro que tem que ser muito bem refletido.” – Leandro Rodrigues, professor