do ouro à lama: quanto vale a mineração?

Historicamente, Mariana e Ouro Preto são cidades exploradas pela mineração, seja ela de ouro, bauxita (minério que faz surgir o alumínio), ou ferro. A partir da crença de que do extrativismo é a “única alternativa e salvação”, essas cidades são saqueadas das mais diversas formas. O ouro que proporcionou a glória, também trouxe a escravidão. O alumínio que fomentou a economia, também trouxe a poluição. E agora, o ferro, que gerou empregos e movimentou as cidades, trouxe consigo crime, morte, descaso e medo.

Há séculos a minério-dependência é cultivada em solos e ideais marianenses e ouro-pretanos, sem que isso mude ou seja sequer questionado. Como reflexo dessa dependência cultivada, essas cidades enfrentam hoje crises econômicas e sociais. Desemprego em alta, arrecadação em queda e barragens fragilizadas que podem romper a qualquer momento ditam o cotidiano da vida nesses lugares.

Nesta reportagem especial, o LAMPIÃO Digital busca evidenciar os caminhos que construíram e solidificaram essa minério-dependência, além de mostrar como a mineração afeta direta e indiretamente não só a economia, mas também a sociedade e o meio ambiente.

quanto vale o passado?

ouro

Período que marca o início da exploração mineral em Minas Gerais, se valendo da utilização massiva de mão de obra escrava, bem como das formas de extração usando a engenharia africana.

A historiadora Sidnéa Santos fala sobre o contexto histórico que deu início à mineração do ouro na região. Além disso, conta como a atividade fomentou o tráfico de escravos que eram trazidos para trabalharem na extração do mineral.

alumínio

Uma fase importante da mineração no estado, que diversificou e evoluiu a extração e produção de novos minerais, gerando impactos no crescimento populacional em Ouro Preto e deixando marcas de desemprego com a chegada do declínio.

Sidnéa comenta sobre a ascensão da extração de bauxita em Ouro Preto e sobre o surgimento da fábrica de alumínio na cidade, em meados do século XX. Ela enfatiza, também, como a mineração ocorre em ciclos de auge e declínio.

ferro

Período marcado por auges importantes em momentos históricos, como a Segunda Guerra Mundial, e declínios trágicos que culminaram em crimes ambientais, como os da Barragem de Fundão, em Mariana, e do Córrego do Feijão, em Brumadinho.

A historiadora fala sobre o surgimento da mineração de ferro na região durante o século XIX, a criação da Escola de Minas e outras iniciativas que influenciaram a atividade no período.

quanto vale o hoje?

É preciso ter cuidado para não naturalizar desastres. É preciso que a reação diante das mortes daqueles que são engolidos pela lama seja de horror. É preciso que a destruição de ecossistemas, como o do Rio Doce, não seja compreendida como a consequência de um mal necessário.

Mais de três anos se passaram após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, e as mineradoras continuam lucrando como se não houvesse culpa. A Vale, responsável pelos lamaçais de Mariana e Brumadinho, por exemplo, teve lucro líquido superior a R$ 25 bilhões em 2018, segundo balanço divulgado pela própria companhia. Ao mesmo tempo em que os atingidos precisam lembrar, volta e meia, que existem e devem ser ouvidos, que foram vítimas da negligência e da ambição. Ao mesmo tempo em que os municípios, diante do próprio despreparo que corre há décadas, se mantêm presos aos recursos oriundos da exploração mineral.

A lama da Samarco, Vale e BHP Billiton matou 18 pessoas em 2015; uma permanece desaparecida. Destruiu o distrito de Bento Rodrigues e o sub-distrito de Paracatu de Baixo. Tomou a bacia do Rio Doce, desempregou famílias, enterrou sonhos. Novamente este ano, a lama da Vale contaminou o Rio Paraopeba, matou 246 pessoas em Brumadinho e outras 23 sequer foram encontradas. Quantos mais precisam morrer? ​

Para entender os crimes ambientais que já ocorreram em Minas Gerais e os riscos que continuam deixando as cidades mineradoras em alerta, é preciso compreender um pouco melhor como as barragens são feitas.

O que era para funcionar como a garantia para barrar os rejeitos da mineração, se tornou o principal símbolo de receio das cidades e das populações que estão nas cercanias dessas estruturas. Esses locais têm sofrido com sucessivos alarmes que causam desespero nos moradores e uma eterna dúvida se mantém por conta da falta de informação. 

Nas sete barragens mostradas em nossa mapa interativo temos dois tipos de construção: seis delas são tipo à montante e uma é do tipo linha de centro. 

As barragens à montante são as mais simples e de menor custo. No entanto, elas são as que menos garantem segurança. Esse método se vale justamente do rejeito para criar novos alteamentos que devem segurar as outras substâncias que são armazenadas, um processo que vai se  repetindo até o limite da estrutura.

 

Um triste exemplo da falta de segurança desse tipo de construção é o crime ambiental de 2015, em Mariana, com o rompimento da barragem do fundão, que pertence às empresas Samarco, Vale e BHP Billinton. 

Já a que é feita por linha de centro é considerada a mais segura e a melhor opção para barragens de rejeito, segundo especialistas. O modo de disposição do rejeito é similar ao das barragens à montante. Porém, os eixos do alteamentos criados pelos rejeitos seguem uma simetria que permite maior longevidade ao limite das estruturas, garantindo assim mais segurança. 

Barragens à montante: Forquilha I, Forquilha II, J8, Germano e Marzagão. 

Barragem feita por linha de centro: Grupo


mineração e economia

Neste episódio da série especial de podcasts, abordamos a relação entre a mineração e economia. Os municípios mineradores são historicamente dependentes do extrativismo mineral, já que os impostos provenientes da extração representam boa parte de suas receitas. No entanto, a mineração se baseia na extração de um recurso não renovável. Qual é o caminho para superar essa lógica de dependência? Confira na produção exclusiva do LAMPIÃO.

 

 

mineração e sociedade

O Estado de Minas Gerais é composto por 853 municípios. Deste número total, 480 dependem dos royalties da mineração, ou seja, mais da metade das localidades. Muitas comunidades convivem com complexos minerários em suas regiões, mas desconhecem os processos envolvendo essa atividade extrativista. Neste segundo episódio da série especial de podcasts, o LAMPIÃO conversou com uma especialista em ecodesenvolvimento para entender a relação entre mineração e sociedade. Qual o caminho para uma maior participação popular nas decisões?


O LAMPIÃO foi às ruas de Mariana e Ouro Preto para ouvir e entender como as notícias sobre possíveis rompimentos de barragens impactam na vida dos moradores dessas cidades. Confira os depoimentos:

mineração e ambiente

Neste terceiro episódio da série especial de podcasts, abordamos a relação entre mineração e meio ambiente. Os rompimentos de barragem em Mariana e Brumadinho foram caracterizados como os crimes ambientais de maior impacto ecológico que o Brasil já sofreu, afetando fauna e flora. Após esse cenário de devastação, uma dúvida é pertinente: existem maneiras de reduzir os impactos ambientais causados pela mineração? Confira nesta produção exclusiva do LAMPIÃO.

O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, afetou gravemente os ecossistemas de Minas Gerais e do Espírito Santo. Segundo o Governo Federal, 663 km de rios e córregos foram afetados, incluindo o Rio Doce, que representa a bacia hidrográfica mais importante da Região Sudeste. A lama afetou mais de 40 municípios, deixando um rastro de destruição que chegou ao Oceano Atlântico. O rompimento também afetou mais de 1,4 mil hectares de vegetação e desabrigou aproximadamente 600 famílias. Confira abaixo uma galeria de fotos do acervo do LAMPIÃO. As imagens foram feitas em 2015, após o rompimento da barragem, nos distritos de Bento Rodrigues, em Mariana, e Gesteira, em Barra Longa:

mineração e perspectivas

Após essa sequência de desastres em Minas Gerais, em um intervalo de apenas 4 anos, surgem a dúvidas sobre a continuidade e a própria permanência da atividade mineradora no Estado. Esses acontecimentos trouxeram danos irreparáveis para as comunidades e para o meio ambiente. Por isso, neste último podcast da série, conversamos com integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) para conhecer as ações, opiniões e perspectivas futuras sobre a mineração. É possível acreditar em mudanças no modelo atual de extração mineral?

O MAB é uma organização nacional que engloba atingidos por todos os tipos de barragens, inclusive de mineração. A sede se encontra em São Paulo e o telefone para contato é: (11) 3392-2660. Para informações sobre o movimento em sua cidade, acesse www.mabnacional.org.br ou entre em contato pelo e-mail mab@mabnacional.org.br

Repórteres:

Elias Fernandes

Emily Soares

Guilherme de Oliveira

Ingrid Achiver

Paulo Andrade

Rodrigo Fontenelle

Victor Fagundes 

Colaboradores:

Ana Laura Murta

Ana Luisa Lobo

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Fotos Acervo LAMPIÃO:

Rodrigo Sena e Tainara Ferreira 

Monitores:

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Editor de Impresso: Gabriel Lage

Docentes Responsáveis:

Visual: Ricardo Augusto Orlando 

Texto: Adriana Bravim 

Fotografia: Ana Carolina Lima Santos

Audiovisual: Evandro Medeiros

Sonora: Carlos Jáuregui

Web: Marcelo Freire