Dona Margarida, uma história por contar

Aos 76 anos, ela compartilha um pouco de sua trajetória e a relação com a casa onde mora há mais de seis décadas

Texto: Bruno Campos | Foto: Domingos Gonzaga e Elis Cristina

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Como no título da música Tão Perto, Tão Longe, de Lobão, aquela casa se faz exatamente assim. Um lugar imerso em árvores e guiado por uma estrada de terra, cenário típico de um lar da zona rural, com um pequeno porém: mesmo afastado, está a poucos minutos do centro de Mariana. A simplicidade da chácara estende-se para muito além do local, invadindo o semblante da senhora que nos recebe. Com um sorriso acanhado, cabelo meio grisalho e voz tímida, Margarida de Magalhães, ou Dona Margarida, como é conhecida, logo faz com que nos sintamos em casa. De blusa estampada e suéter vermelho, a senhora de 76 anos conta sobre sua trajetória, crenças e saudades.

Como naquele ditado, em ‘coração de mãe sempre cabe mais um’, o lugar, apesar do pouco espaço, se mostra grande. Dona Margarida faz com que a gente sinta como se a casa fosse realmente nossa também. Minha, dela, do Seu Josafá, o único dos seis irmãos que ainda é vivo, e de todos os animais que ali também moram.

Nascida em um distrito de Divinópolis e criada em Cláudio Manoel, distrito marianense, se mudou para a chácara ainda muito nova. O pai veio a Mariana visitar um amigo, aceitou uma proposta para capinar um lote no Seminário Maior São José e ganhou a simpatia do responsável pelo local. Foi, então, convidado a se tornar porteiro, se mudando com a família para a cidade mineira.

Margarida sempre trabalhou na casa dos outros. Lavava, passava e fazia de tudo um pouco. Parou apenas em 2004, quando uma das irmãs adoeceu, precisando de seus cuidados e atenção. Se não fosse isso, disse que trabalharia até hoje, mesmo com a idade avançada e a saúde não sendo a mesma.

Quando perguntada sobre a casa, não se vê morando em nenhum outro lugar. Apesar do sítio ser um pouco isolado, é ali que ela encontra a calmaria e a tranquilidade necessária para criar seus animais, companhias das quais ela não abre mão. Estampa nas paredes do lar a fé e a saudade que sente da família, sempre exaltada em suas falas. Em alto e bom som diz para quem quiser ouvir que “graças a Deus nunca se casou”. Entre risos, fala que essa história de casamento “dá trabalho demais” e que nunca deu certo com nenhum dos homens que apareceram em sua vida.  

Margarida está bem consigo mesma e com a vida que leva. Viajar é uma de suas paixões. Brasília, Divinópolis, Belo Horizonte, Goiânia, Búzios, Cabo Frio e São João del-Rei estão entre os destinos. O último, inclusive, guarda um curioso caso. Em 1974, aos 32 anos, morando em frente à Igreja do Rosário, um dos principais “passatempos”, em São João, era ficar nas escadarias do local. Em alguns fins de tarde, com a radiola, gostava de ouvir música na companhia de Tancredo Neves que, tido como muito gentil e prestativo, passava boas horas conversando com ela e com os vizinhos. Relembra que Tancredo sempre gostou de receber visitas e, se dependesse do ex-presidente, ela ficaria lá do café da manhã até o jantar.

A hospitalidade é marca registrada e característica ímpar da mulher que nos ensina o que, segundo ela, aprendeu com a apresentadora Xuxa Meneghel, outra personalidade que conheceu: “A gente tem que ser o que a gente quer ser e que, desde que sigamos por um caminho bom, temos que ir em busca do que nos faz feliz”. Nesse momento foi possível perceber algo além dos pequenos braços que me envolviam em um gesto de despedida. Dona Margarida Magalhães, no auge dos seus 76 anos, conseguiu também, abraçar com as palavras.