Ensaio: “Essa Lei Áurea aí é pra inglês ver, né?”

Ensaio: “Essa Lei Áurea aí é pra inglês ver, né?”
Texto: Jean Lourenço / Fotos: Amanda Alves, Hannah Carvalho, Julia Massa, Marcelo Cardoso

A mina Du Veloso em Ouro Preto é reconhecida como um espaço cultural e de reconhecimento social. Eduardo Veloso assumiu a mina em 2009 e está transformando o lugar que durante longos anos, significou apenas sofrimento para a população negra em um espaço de memória viva, ensinando e valorizando a afrocultura.

 

Jornal LAMPIÃO: Eduardo, como você começou o trabalho da mina?

A gente começou a fazer um trabalho de pesquisa em 2006 e eu ”tava” fazendo pós graduação, na área de Geotecnia. Eu tive contato com alguns projetos de pesquisa, alguns artigos,  principalmente os do professor Sobrero que falava sobre mineração na Serra de Ouro Preto e, vendo algumas imagens deste artigo, eu comecei a lembrar de alguns espaços que eu frequentava na infância. Eu sou morador de Ouro preto e desde criança a gente sempre andou por essas áreas aqui da Serra do Veloso. A gente via essas estruturas de mineração mas não entendíamos muito como funcionava. A partir do momento que eu tive contato com esses artigo de pesquisa eu comecei a identificar e ver o valor deste patrimônio. Então em  2006 a gente começou a fazer trabalho aqui no bairro para levantar esse patrimônio. Durante esse processo de pesquisa aqui na Serra em 2009, tive a oportunidade de comprar esse espaço no bairro São Cristóvão por causa da mina que tinha aqui no fundo do quintal. Em 2009 eu comprei o espaço, mais ou menos de 2010 a 2012 eu fiquei juntando recursos financeiros para fazer a reforma do espaço e então abrir para o turismo. Em 2014 passou a funcionar a visitação da mina.

 

Jornal LAMPIÃO: Como era sua relação com a mina quando criança?

Quando a gente era criança a gente entrava na estrutura principalmente na parte subterrânea e brincava de pique esconde. Meus primos moravam na parte alta do bairro e a gente entrava dentro das galerias e brincávamos de coisas de criança, sem equipamento direito. Brincava com vela, lanterna improvisada… Às vezes era momento de terror! Muitas vezes a vela apagava lá dentro e não tinha como enxergar nada! Um breu total! Aí chegava em casa e ainda tomava um coro dos pais porque não podia entrar nesses lugares. Aqui no bairro nunca teve essa visão, de  que isso era um patrimônio. Sempre ficou como um lugar de sofrimento e, muitas pessoas ainda evitam entrar pois acham que ainda tem a magia do processo desumano que foi a escravidão. Então quando criança a gente entrava mesmo na aventura, mas não tinha essa identificação com o valor e o potencial que esses espaços têm tanto para o turismo, quanto para fazer a ressignificação do meio. Toda tecnologia, todo conhecimento empregado para poder fazer esse trabalho de mineração é um conhecimento africano.

 

Jornal LAMPIÃO: Depois que assumiu a mina, você consegue enxergar alguma mudança na relação da comunidade com o espaço?

Total. Eles passaram a ver o outro lado. Durante mesmo o período de construção e recuperação da mina muitas pessoas do bairro começaram a ver com outros olhos. E também durante o trabalho da nossa pesquisa,  a gente fazia questão de trazer retorno a comunidade. Essas informações sobre o potencial turístico e a importância do patrimônio. A gente fez esse trabalho por toda a Serra de Ouro Preto e Mariana fazendo caminhadas com a comunidade, fazendo apresentação do patrimônio arqueológico que temos no bairro. A partir disso aí, as pessoas começaram a ver com outros olhos e começaram a entender a importância do bairro que a gente mora.

A gente tem o trabalho turístico e é o que financia e que dá o retorno. A gente faz vários trabalhos com as escolas aqui do bairro da cidade, principalmente as do bairro. A gente traz as crianças pra cá,  pra poder conhecer o patrimônio, a gente apresenta e faz o trabalho com eles. Trabalhamos com a escola Padre Carmelo, Alfredo Baeta, São Pedro e várias escolas da rede municipal e estadual.

 

Jornal LAMPIÃO: Como é ser negro em Ouro Preto?

Eu só fui me entender como negro mais ou menos na quinta série. Sempre morei aqui e boa parte da turma é negra e da mesma classe social e então, eu não sentia muito desse processo de ser negro. Quando eu cheguei na quarta série – as escolas aqui só vão até a quarta série – e fui para a quinta,  fui pra escola Dom Pedro e foi lá que eu tomei meu primeiro choque. Lá tinha pessoas de classes sociais diferentes e a maioria era branca. Aí eu comecei a me sentir como negro. Comecei a sentir essa estratificação social e racial que a gente tem no Brasil. A gente tentava negar a cor, então a gente ficava usando muito esse colorismo: se a pessoa tem a pele mais escura ela é mais negra e então é mais atacada. A gente ficava tentando negar a negritude. E quando eu tive a oportunidade de começar esse trabalho aqui na mina, de ver a importância africana em Ouro Preto, tudo mudou totalmente e eu tive orgulho de ser negro e defender essa raça que ajudou a construir o país.

Na verdade essa Lei Áurea aí, é pra inglês ver, né?  Ela foi uma mais uma pressão externa do que uma vontade da sociedade brasileira em acabar com a escravidão. Até hoje a gente sente o reflexo, e, quem ta na classe trabalhadora sente muito essa falta de respeito com as classes. a Lei Áurea, libertação da escravidão pra mim foi apenas uma questão burocrática, que por sinal, já ia existir pois o processo abolicionista já vinha de muito tempo e protagonizado pelos negros, mas só quando foram forçados por pressões externas eles assinaram a lei, mas aí  deixaram os negros ao léu. sem dar nenhuma condição dele sobreviver, e aí formaram favelas e periferias e isso reflete até hoje na nossa sociedade.

 

Jornal LAMPIÃO: Há mudança na relação dos visitantes com a cultura negra?

A gente faz esse trabalho principalmente com crianças e a gente já nota a mudança até estética. Você vê a galera deixando cabelo crescer e se identificando mais com a raça negra. Depois desse processo da gente mostrar a importância do negros,  muitas crianças aqui já se sentem empoderadas e sabem que descendem de africanos e da importância do negro no nosso país. Negro quando sente esse racismo a primeira coisa que faz é entrar nos moldes do branco né, deixar os cabelos sempre curtos. Aqui a gente já vê as crianças com dread e cabelo black.

 

Jornal LAMPIÃO: E como é quando negros fazem visita a mina?

Quando fazem visitas, principalmente as escola públicas, onde a maioria são negros, eles já se sentem empoderados. Quando não é (aluno de escola pública), olhando nos olhos deles,  a gente já consegue ver como esses negros se sentem mais empoderados.