Editorial: Sujeitos e contextos

EDITORIAL: VICTORIA SILVA E OLIVEIRA
 

Mais de um ano após o início da pandemia da Covid-19, há quem tenha se acostumado a viver à distância. Nós não. O Jornal Lampião continua sendo um jornal para a comunidade, um jornal sobre pessoas, sobre o cotidiano da região dos Inconfidentes, e definitivamente as telas não substituem o compartilhamento de uma mesma realidade física. Ainda assim, mesmo não acostumados e, aliás, sem querer nos acostumar, foi necessário adaptar todo o processo de produção para o online.

Muitos de nós, estudantes de Jornalismo, deixamos as cidades de Ouro Preto e Mariana com a paralisação das aulas presenciais. Deixamos as casas, as ruas, os bares, as igrejas, as festas, os supermercados, os parques, nos afastamos de todos aqueles espaços físicos que antes nos possibilitavam ser parte do cotidiano daqueles para quem falamos. E a vida continuou em um cenário catastrófico: perdas de amigos e familiares, medo constante de uma doença desconhecida, caos sanitário e econômico promovido por um desgoverno, e ainda ataques à prática jornalística. Não é um cenário fácil. 

Ao mesmo tempo, dividindo espaço com o caos pandêmico, as pessoas precisavam continuar trabalhando, estudando, amando, sonhando. As histórias dos sujeitos de Ouro Preto e Mariana continuam existindo. Os desafios, as perdas, as reivindicações, as vitórias, tudo isso, em diferentes contextos, continuou acontecendo, e sendo afetado pela pandemia em curso, nos levando ao tema “Sujeitos e Contextos”. E agora, mais do que nunca, todas essas vozes precisam ser ouvidas com respeito e atenção, ainda que através de um fone de ouvido ou pelo auto-falante do celular.

Nossa edição não se resumiu à pandemia, mas ela foi, sim, um elemento comum de todas as produções. Não por livre escolha; justamente porque não a tivemos. Não se pode escolher ignorar uma doença que causou a morte de 572 mil pessoas no Brasil até a publicação deste editorial e que interrompeu vidas em todo mundo, ainda que governantes insistam em assim fazer.  Não por livre escolha, mas porque esse é nosso contexto – e por “nosso” entende-se quem produz e quem nos lê, nos assiste e nos ouve. O que nos propusemos a fazer foi encontrar, diante dessas circunstâncias, os cenários e pessoas para os quais o Lampião deve olhar, e sobre o que precisamos informar. 

Para além disso, outra decisão tomada foi explorar diferentes recursos de linguagem e nossas redes sociais, usando, a favor do Jornal, a maneira que encontramos para nos comunicar com o público. Com menos de um mês de diferença entre o início das produções e o começo das publicações, sabíamos que o trabalho seria duro. Em meio à escassez de recursos escassos e ao esgotamento emocional de fontes e de repórteres, e também dos docentes envolvidos na orientação das produções, cada matéria que ia ao ar era motivo de comemoração. Conseguir informar com responsabilidade, sensibilidade e criatividade em meio ao caos não é simples, mas é um sopro de esperança enquanto futuros e futuras jornalistas.  É como afirmar que “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, e esperar que a Universidade e a comunidade, por meio do Lampião, compartilhe desse sentimento.