Editorial: Jornalismo em crise e desafios do retorno ao “não normal”

Laura Borges, Enzo Teixeira

Desde março estivemos preparando uma nova edição do Jornal LAMPIÃO. Depois de três edições realizadas remotamente, voltamos aos laboratórios e às ruas, mas nada é como antes. Ainda utilizamos máscaras e totens com álcool em gel estão espalhados pela universidade para nos lembrar que ainda não vivemos o fim do vírus. 

Tomando todos os cuidados, o retorno foi possível. Agora, é necessário, mais uma vez, reafirmar que a Universidade nunca parou, nem o Jornalismo. Durante o período de isolamento social aprendemos que a tecnologia existe para nos amparar e que o mundo digital expande e aproxima o contato e a vivência com a sociedade. Nas produções realizadas pelo LAMPIÃO, fugimos do habitual e novos modelos de fazer jornalismo precisaram ser incorporados à nossa forma de trabalho, antes “remoto”, e agora “híbrido”. 

O Jornalismo está em crise. Ele é, e precisa estar crise. Isso porque ele é uma metamorfose constante. Ele se adapta. As práticas mudam, mas alguns dos princípios que fazem com que nosso trabalho seja tão necessário não. 

Em março, começamos a traçar um novo desafio: como iríamos nos adaptar mais uma vez a mais uma realidade de trabalho? Um de frente para o outro, presencialmente, ou pelas telas dos nossos dispositivos, nós arranjamos soluções. Conseguimos!

Vale lembrar que voltamos a nos encontrar devido à ciência. Todos nós, repórteres, editores e professores, estamos com nossos ciclos de imunização contra a Covid-19 completos. Em março, quando começamos a pensar na 39ª edição do jornal, decidimos tratar de questões que iam além da Covid-19, mas sem deixar de acreditar e reafirmar que ela é real — o óbvio precisa ser dito.

Nosso Jornalismo, que lança olhar sobre as cidades de Mariana e Ouro Preto, que dialoga com a comunidade e que debate temas importantes, é feito por muitas mãos. É plural, porque somos muitos. É singular, porque somos diversos. 

Nesta 39ª edição, então, decidimos olhar novamente para aquilo que, devido ao isolamento, passamos por um bom tempo sem poder olhar: lugares. Lugares que produzem cultura, lugares onde a natureza reina, onde a história vive, lugares de memória, lugares onde estamos! Lugares que se transformam e onde a cidade acontece.

Para comemorar a volta a esses lugares, trouxemos um mapa interativo dos circuitos culturais de Mariana, destacando a diversidade de visuais e sons, que temos orgulho de poder contemplar. Também nos dedicamos a conhecer mais a fundo verdadeiros tesouros locais. Em uma reportagem sonora e um ensaio fotográfico, apreciamos o ato de resistência por trás do funcionamento da Feira Noturna, no Barro Preto. E em um perfil em formato de vídeo, nos maravilhamos com a Casa de Cultura, que há 60 anos zela pelas mais variadas formas de arte.

Mais uma vez, nosso tempo de produção foi curto. Corremos junto ao relógio e conseguimos driblar as barreiras que o tempo impôs para chegar até aqui. A 39ª edição ultrapassa os acontecimentos do que veio antes, do depois e do agora. Nosso dever enquanto jornalistas é lançar olhares de diferentes perspectivas sobre esses locais e temas, sempre nos aprofundando neles.

Esta equipe deixa agora o LAMPIÃO para os próximos que terão a oportunidade de aprender, assim como nós, que não há um “novo normal”. As mudanças não param. Esta edição evidencia que as cidades de Mariana e Ouro Preto são locais atravessados pela memória de um “passado-presente” da história mundial, em constante transformação. Esse é um fato que o LAMPIÃO conseguiu tatear na reportagem investigativa sobre o Pelourinho, que discute questões raciais e o passado colonialista. O passado também está no tempo presente, por isso, tratamos também sobre o caso de blackface envolvendo moradores de repúblicas estudantis durante uma festa em Ouro Preto.

Os espaços estão em movimento — e nós também. O “normal” não existe, muito menos “um novo normal”. O que vai acontecer no futuro? É impossível saber, mas podemos repercutir  e discutir possíveis cenários.

Os recentes cortes de verbas que as universidades públicas vêm enfrentando põem em risco todo o acúmulo de aprendizado desta e das edições passadas e que será repassado às que virão. O LAMPIÃO deixou de existir em sua forma física se modificou, mais uma vez, para se dedicar exclusivamente à sua versão digital. Aliás, abrimos esta edição com uma live — consagrado formato desse novo modelo jornalístico — sobre os desafios para a permanência dos estudantes da Ufop. Debatemos também, em uma outra reportagem, o compromisso que a Universidade Pública tem com a comunidade onde está inserida para além dos seus muros. O conhecimento é um fluxo constante entre a cidade e a universidade, uma não existe sem a outra, este jornal-laboratório é prova disso. 

De acordo com uma nota divulgada pela reitoria da universidade, caso os bloqueios não sejam revertidos, a Ufop terá dificuldades no fechamento do exercício financeiro. Os cortes podem inviabilizar o pagamento de diversos contratos estabelecidos pela universidade, além de impactar o pagamento de bolsas e a continuidade de programas de assistência estudantil, precarizando ainda mais as atividades institucionais e promovendo a exclusão dos estudantes mais vulneráveis do ponto de vista socioeconômico. 

Entregamos o LAMPIÃO para a próxima turma com a certeza de que o trabalho que será desenvolvido terá o mesmo compromisso com a comunidade. Torcemos para que a Universidade Pública permaneça firme e para que a saúde seja prioridade dos gestores públicos. E independente do que aconteça, o LAMPIÃO vai continuar olhando para esses espaços.