Descarte na pandemia: o aumento da produção de lixo e os problemas no seu despejo

PRODUÇÃO: MATEUS HENRIQUE E LIVIA FERREIRA
 

O despejo incorreto de resíduos é um problema que faz parte do cotidiano do brasileiro. Seja por desinformação ou negligência, é uma realidade que traz consequências de curto e longo prazo. Montes de lixo podem se tornar abrigo para animais peçonhentos e foco de doenças como a dengue, além de causarem a poluição do meio ambiente e serem um dos responsáveis por inundações devido ao entupimento de bueiros e bocas de lobo.

É perceptível que o brasileiro tem produzido cada vez mais lixo. De acordo com uma estimativa da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), houve um crescimento de 15% a 20% da produção de lixo doméstico no país após o início da pandemia da COVID-19. Na cidade de Mariana, apesar do aumento da quantidade de descarte doméstico produzido, houve também ampliação da capacidade de separação seletiva dos resíduos, segundo Isabel Santos, uma das catadoras do Centro de Aproveitamento de Materiais Recicláveis (Camar). 

O município de Mariana conta, desde 2008, com o Camar, responsável pela coleta de materiais e resíduos na cidade. Construída e idealizada pelos próprios catadores e com parceria da Prefeitura Municipal, a cooperativa conta com uma equipe de 47 pessoas. Como parte delas pertence aos grupos mais vulneráveis a desenvolver complicações relacionadas à Covid-19, apenas 27 têm trabalhado atualmente. Além disso, a sede conta com uma biblioteca comunitária com o acervo inteiramente construído a partir dos livros que são recolhidos durante a coleta seletiva. Na sede, são coletados materiais como plástico, metais e alumínio, papel, vidro e dispositivos eletrônicos. 

trabalhador separando o lixo
Após realizar a coleta nos bairros o caminhão retorna para a sede do Camar onde é iniciado o processo de separação dos resíduos. Foto: Lívia Ferreira/Prefeitura de Mariana.

Alguns bairros de Mariana sofrem com o acúmulo de lixo em locais inapropriados e em terrenos baldios. É o caso do trecho que liga a sede do município ao distrito de Ribeirão, onde frequentemente é realizado descarte inadequado de restos de construção civil e móveis quebrados. O entulho acumulado no local acaba sendo um prato cheio para a proliferação do mosquito da dengue, devido às poças de água parada que surgem com as chuvas.

descarte de lixo em local irregular
Restos de materiais de construção são descartados clandestinamente na estrada que dá acesso ao distrito de Ribeirão, servindo de foco de proliferação da dengue e esconderijo para animais peçonhentos. Foto: Paulo Andrade

A Prefeitura Municipal de Mariana, por meio da subsecretaria de Vigilância e Promoção à Saúde em conjunto com o departamento de Fiscalização e Posturas, monitora propriedades e lotes vagos do município com o objetivo de conter o avanço da dengue. Conforme a lei complementar 159/2016, proprietários de terrenos não edificados em áreas urbanas são obrigados a realizar a limpeza, capina e retirada de entulhos e lixos. Em caso de não cumprimento o dono é notificado. Em fevereiro, a Prefeitura deu início a campanha contra a dengue, e os agentes de endemias realizaram vistorias nas casas e lotes, além de alertar os moradores sobre possíveis focos de larvas do mosquito. Em caso de terrenos, o lixo que é jogado incorretamente no local é recolhido e levado para o aterro sanitário. 

agentes de saude trabalhando em terrenos baldios
Agentes de endemias dão início a campanha de combate à dengue. São realizadas visitas nas casas dos moradores para averiguar se há focos com larvas do mosquito. – Foto: Maria Gabriela Meireles/Prefeitura de Mariana

De acordo com o artigo 4 da resolução 307/2002 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), os resíduos da construção civil não podem ser dispostos em aterros de resíduos sólidos urbanos, em encostas, lotes vagos e áreas protegidas por Lei. Em Mariana, temos a lei municipal 1897/2005 que regulamenta o uso de caçambas para o descarte desses materiais, não sendo permitida a desova em locais como margens d’água e beira de rodovias, prevendo a aplicação de multas de até 300 reais em caso de infrações. No município, através de um pagamento em diárias, é possível alugar caçambas para realizar o descarte desses resíduos de construção. 

Também em fevereiro deste ano foi aprovado na Câmara Municipal o projeto de lei “Programa Cidade Limpa no Município de Mariana”, com um intuito de desenvolver ações de sustentabilidade e visando o descarte correto de móveis quebrados e pedaços de madeira que são deixados em locais inadequados. O projeto de lei tem como objetivo a realização de mutirões, coleta e encaminhamentos para o aterro. 

streetview google mariana
Durante a construção, proprietário da obra deve alugar caçambas para o descarte correto dos restos dos materiais. – Foto: Google Street View/outubro de 2017
Problemas do descarte incorreto
 

Além das consequências já citadas, o descarte clandestino desses resíduos em locais inapropriados pode acarretar a contaminação do solo, empobrecendo o terreno e afetando a vegetação à sua volta. Quando descartados na margem de rios, os resíduos causam o desequilíbrio aquático e a contaminação dos leitos. 

Em 2021, o município registrou o índice de infestação pelo mosquito transmissor da dengue na média de 4,8% nas residências. O número é maior do que o máximo tolerável de 1%, segundo o estabelecido pelo Ministério da Saúde. Vale lembrar que a reprodução do Aedes aegypti é feita em locais com acúmulo de água parada. Lixões a céu aberto e depósitos irregulares se tornam facilmente focos da proliferação da dengue e outras doenças após uma chuva. 

O descarte correto
 

Mariana conta com caçambas azuis, como as da foto, situadas em diversos pontos da cidade em que a população pode realizar o descarte do lixo doméstico de maneira adequada. Essas caçambas evitam que as sacolinhas fiquem espalhadas em vias públicas e sejam rasgadas por animais. Caso o seu bairro ou rua não seja contemplado com a caçamba azul é recomendado colocar o lixo na porta de casa próximo ao horário de coleta. O ideal é que resíduos domésticos sejam separados em material orgânico e material reciclável. São classificados como orgânico, restos de comida, cascas de ovos, fruta e ossos.  Resíduos como papel de toalha, guardanapo e espeto de churrasco não são recicláveis. Materiais como papel, papelão, metais, embalagens longa vida e vidros são recicláveis e devem ser destinados ao Camar.

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A cidade de Mariana conta com a instalação de caçambas azuis que são destinadas ao descarte de lixo doméstico. Dessa forma, os resíduos ficam concentrados, facilitando o serviço de coleta. Foto: Google Street View/outubro de 2017

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A coleta seletiva também possui caçamba própria. Localizada próximo à Arena Mariana é possível encontrar uma caçamba destinada somente ao lixo reciclável. A coleta neste recipiente é realizada todos os dias pelo caminhão do Camar. Foto: Google Street View/outubro de 2018

Já para os resíduos, o Camar realiza a coleta em todos os bairros da cidade em diferentes dias da semana e horários. O caminhão entoando a famosa música leva todo o material para a sede da cooperativa onde são separados e vendidos, garantindo a renda dos catadores. Neste momento de pandemia é muito importante que a população se atente para a descontaminação do material reciclável manuseado por pessoas infectadas pela COVID-19.  Saiba mais.

Abaixo você confere a cartilha que produzimos sobre o descarte correto do lixo.