De quem é a rua?

Protesto, arte e polêmicas marcam os muros de Mariana

Texto: Túlio Gariglio | Foto: Deivid Oliveira

 

O primeiro registro de uma pichação no Brasil foi feito durante a ditadura militar (1964-1985). Durante todo o regime, o picho se difundiu no país como uma forma de protesto contra os abusos cometidos à população e foi fortemente reprimido. O momento em que o país estava deu margem para que algumas pessoas usassem o picho para exporem suas opiniões no anonimato, já que quase nenhuma pichação vinha assinada. Com o passar do tempo, o picho se difundiu mais na cultura das ruas e, mesmo com o fim do governo militar, se espalhou em grande escala nas cidades brasileiras, principalmente nos centros urbanos. Propriedades particulares como casas, prédios e estabelecimentos comerciais são alvos constantes das pichações, que continuam trazendo frases de protesto, além de assinaturas próprias dos pichadores, as chamadas tags, e frases com assuntos variados.

O assunto é polêmico e divide opiniões. Em Mariana, cidade pequena de Minas Gerais, os muros pichados podem dizer muita coisa sobre os problemas sociais e econômicos do município. Pode ser um grito de protesto dos pichadores que sentem esses problemas e também uma forma de ocupação do espaço urbano, ao mesmo tempo em que não agradam parte da população, que considera as pichações apenas como poluição visual.

No Brasil, a pichação é crime ambiental, passível de detenção, de acordo com artigo 65 da Lei 9.605/98 (Lei dos crimes ambientais). O artigo prevê pena de reclusão de três meses a um ano, além de  multa para quem pichar, grafitar, ou, por qualquer meio, danificar uma edificação ou monumento urbano, sem permissão do proprietário ou do órgão público competente. No entanto, isso não impede a manifestação dos pichadores, que se arriscam ao desafiar a lei para se expressar.

O pichador João*, que prefere não se identificar, picha nas ruas de Mariana e conta que se inseriu nesse universo cedo, desde os dez anos, principalmente sob a influência do Hip-Hop. Para ele, o picho é uma forma forte de expressão. “Picho foi feito pra incomodar, principalmente o setor público, a polícia, alguns setores que acabam se tornando inimigos de uma parcela da população. Acho que é nesse sentido, de estar ali incomodando as pessoas certas”.

Em Mariana, os problemas sociais não passam despercebidos pela população que os enfrenta, e João ressalta que é importante escancará-los. “Mariana é assim, das periferias pro Catete é como se fosse outra, um lugar que deseja ter concessionária, loja de departamento, vida noturna. É como se fosse uma tentativa de criar um simulacro da cidade dentro da cidade histórica”.

Ele vê esse movimento como algo prejudicial para os moradores de Mariana, pois o crescimento centralizado que visa somente o lucro prejudica os menos favorecidos que residem em bairros periféricos. “A ideologia do pichador está muito ligada a isso, ao antimaterialismo, ao desapego.” João se refere à grande discrepância que se pode observar entre os bairros marianenses. É possível notar tal diferença, por exemplo, entre o Catete, onde se localizam vários pontos comerciais e o Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (Icsa) da Ufop, e bairros que se situam afastados da concentração do comércio e dos pontos turísticos.

O picho em Mariana pode ser observado em várias localidades, como nas periferias, no Centro Histórico e em bairros como a Chácara. De acordo com dois pichadores entrevistados, os lugares mais visados para pichações de protesto são os que possuem casas melhores e maior infraestrutura.   

Com pichações que variam de formas e letras incompreensíveis para os leigos a mensagens com forte crítica social, como “a cidade é da humanidade, mas não da comunidade”, os muros abrigam questões que vão além de apenas rabiscos, em alguns casos. Para o pichador Rafael*, que também prefere não se identificar, a cidade é um prato cheio para os protestos do picho, e a ideia principal é fazer as pessoas olharem para esses problemas. “No Centro Histórico, que é uma das maiores críticas que eu faço no meu trabalho, tem muitos locais que não têm nada a ver com a história”.

Ele denuncia principalmente os problemas estruturais que existem na cidade, citando a falta de lixeiras, a má organização do comércio e o descaso da prefeitura. Para ele, o picho é uma forma de ocupação do espaço, que mostra a existência de outras demandas na cidade, além daquilo mostrado pelo poder público aos turistas: “É uma forma de se botar na cidade, por exemplo, um picho no centro feito por alguém que não é do centro. É uma forma daquela pessoa mostrar que está ali também”.

Ideologias. Manifestações ecoam nos muros da cidade e ressignificam a paisagem histórica.

A favor do picho, mas não em uma cidade histórica

O jornalista Arthur Medrado, 26 anos, se formou pela Ufop em 2014 e como trabalho de conclusão de curso fez uma monografia analisando o documentário Pixo, de 2009, dos diretores João Wainer e Roberto T. Oliveira. Entusiasta do movimento, ele acha que o picho é uma forma de resistência e ocupação do espaço, que se encaixa bem naquilo que propõe, considerando a negligência com que uma parcela da população é tratada pelo poder público.

Mas, para ele, o contexto no qual o picho se insere em uma cidade histórica é diferente, pois os monumentos históricos possuem um valor muito grande para a sociedade e contam muito sobre a construção do país. Ao mesmo tempo, ele consegue entender o que faz uma pessoa sair de casa e pichar esses lugares, porque, para ele, o poder público não está olhando para outros patrimônios que são muito mais importantes: as pessoas. “Enquanto tiver gente morrendo na periferia, sendo abordada pela polícia na periferia que nem louco, não faz sentido a gente ter um prédio bonito no centro. É um conflito complicado”.

O picho que incomoda

Mesmo que o picho apresente suas motivações ideológicas e artísticas, ele não agrada a todos. Os pichadores e os entusiastas do movimento defendem seus motivos mas, da mesma forma, muitos que são atingidos diretamente se veem prejudicados.

O restaurante Bistrô, localizado no centro de Mariana, é um exemplo de estabelecimento que foi afetado pelo picho. O local, bastante conhecido pelas pessoas que frequentam o centro da cidade, foi pichado três vezes seguidas com os dizeres “bistrô é caro”. Fotos da pichação circularam nas redes sociais, com pessoas a favor e outras contra a ação. O constrangimento público causado ao restaurante foi grande, além dos gastos para limpar a pichação, o que teve de ser feito três vezes – na terceira tiveram de contratar um pintor.

A gerente Catharina Rolim, 22 anos, diz que entende a função do picho de dar voz àqueles que não são ouvidos de outra forma, mas não concorda com o fato de muitas vezes o picho atingir pessoas que não têm nada a ver com aquilo, em suas palavras. “Acho que dessa forma não foi legal. Pichar que um restaurante é caro, na frente do estabelecimento, não sei se isso é um protesto ou se é só alguém fazendo uma coisa de brincadeira, não querendo alcançar nada.”

Mesmo com o constrangimento, o Bistrô não sofreu nenhuma baixa em relação à clientela, segundo Catharina. O estabelecimento recebeu inclusive mensagens de apoio de clientes, que não concordaram com o teor da pichação. “Uma coisa que acho complicada na pichação é o fato de ela geralmente ser feita em propriedade privada. Você vai gerar o gasto de consertar para uma pessoa que não tem nada a ver com o protesto deles”.


Fatal error: Uncaught exception 'wfWAFStorageFileException' with message 'Unable to verify temporary file contents for atomic writing.' in /home/lampiaod/public_html/wp-content/plugins/wordfence/vendor/wordfence/wf-waf/src/lib/storage/file.php:52 Stack trace: #0 /home/lampiaod/public_html/wp-content/plugins/wordfence/vendor/wordfence/wf-waf/src/lib/storage/file.php(659): wfWAFStorageFile::atomicFilePutContents('/home/lampiaod/...', '<?php exit('Acc...') #1 [internal function]: wfWAFStorageFile->saveConfig('synced') #2 {main} thrown in /home/lampiaod/public_html/wp-content/plugins/wordfence/vendor/wordfence/wf-waf/src/lib/storage/file.php on line 52