Covid: um desafio, três histórias

POR ISABELLA VILLELLA,  PAMELLA DAVIS E SARA NONATO

A trajetória dos estudantes que precisaram adaptar suas rotinas no período de isolamento e aulas remotas. 

)(Créditos: arte sobre imagem Arquivo pessoal de Maria Luísa Souza.)(Créditos: arte sobre imagem Arquivo pessoal de Lorraine Costa.)

Créditos: arte sobre imagem. Arquivo pessoal de Anderson Morais.

Anderson Morais, 26 anos, chegou à Universidade Federal de Ouro Preto no segundo semestre de 2014, mas sua relação com a cidade é um amor antigo.

O estudante de engenharia de controle e automação, que agora conta os dias pra sua colação de grau oficial, passou boa parte de sua infância na cidade histórica., Apesar de nascido em Tocantinópolis, estado do Tocantins,e criado em Belo Horizonte , Anderson é filho de um ouropretano e  especialmente apaixonado pelo bloco de carnaval Zé Pereira, pelo qual desfila desde a infância.

Essa relação de longa data com a cidade faz com que a despedida a distância cause estranheza ao quase engenheiro:

“Eu me formaria no primeiro semestre de 2019, mas precisei ir para BH fazer estágio. Voltaria no primeiro semestre de 2020 para terminar meu TCC e colar grau. Eu até voltei, mas, uma semana depois, tive que retornar para BH  por conta da pandemia.”

Para Anderson, a pior parte das aulas remotas foi o processo de produção de sua monografia, porque, apesar do constante contato online com o orientador, algumas coisas demoraram muito mais do que em um período presencial.

Anderson até fez baile de formatura, cerimônia simbólica de colação de grau e a famosa inauguração de quadrinho, ritual que marca a mudança de status para ex-aluno nas repúblicas de Ouro Preto, em agosto de 2019.

Morador da República Maternidade, Anderson  – ou Faustão, como é conhecido no meio republicano -, diz que, apesar de ter cumprido  todo  o protocolo , não sente que se despediu de sua casa, da universidade e da cidade amada  da maneira como esperava: “Eu não consegui me despedir de nada nem ninguém como me planejava; só peguei minhas coisas, entrei no carro e voltei pra BH, achando que seria por alguns dias e agora já estou praticamente formado.”

Maria Luísa Souza – 18.1 Jornalismo

Créditos: arte sobre imagem. Arquivo pessoal de Maria Luísa Souza.

Para quem já conhecia as aulas na modalidade presencial, como é o caso de Maria Luísa Andrade, 22 anos, do curso de Jornalismo da UFOP, a migração para a modalidade remota foi difícil.

Malu, como é chamada pelos amigos, acredita que, para o curso de jornalismo, as atividades práticas no período de pandemia foram prejudicadas, principalmente por conta da falta de recursos que a maioria dos estudantes não possui em casa, como é o caso de câmeras, filmadoras e outros equipamentos de audiovisual, editoração etc.

Em Nova Lima, sua cidade natal, onde passou todo o período de confinamento, sem nunca ter estudado em regime remoto, ela se viu diante dos primeiros problemas dessa modalidade:

“no início das aulas, eu não tinha um ambiente adequado para estudar. Precisei adaptar a sala da minha casa, transformando em uma sala de aula. Outra dificuldade foi a falta de materiais, por dividir o computador com a minha irmã, que também estava estudando EAD. Algumas vezes era difícil assistir a aula no horário certo”, relembra.

Dois anos após o início desse processo, Malu afirma que a modalidade remota também possui benefícios, como, por exemplo, a facilidade de encontrar estágios na área, em outras localidades.

Atualmente, ela considera estranho pensar que um dia o ensino foi presencial, pois já se acostumou com o novo formato.

“Apesar da distância física, sinto que os professores e alunos se esforçam muito para parecer que estamos todos reunidos em um mesmo lugar.”

Mesmo com as grandes expectativas para a retomada, Malu revela estar insegura  para  voltar às aulas presenciais, principalmente por conta do surgimento da nova variante.

“Acho que o modelo híbrido seria ideal, poderíamos aproveitar a parte prática das disciplinas sem precisar nos expor tanto. Não sei se ainda é o momento para a retomada das aulas presenciais”, pondera.

Lorraine Costa – História 20.2

Créditos: arte sobre imagem. Arquivo pessoal de Lorraine Costa.

‘Eu quero ser igual a ele’. É o que pensava a jovem Lorraine em cada uma das aulas de História com seu professor preferido no pequeno município de Bom Jesus do Amparo, Minas Gerais.

Em meados do inverno pandêmico de 2020, Lorraine ficou estarrecida. Não acreditava que a História entraria para sua própria história. Pedia para os familiares olharem. Pedia aos amigos. Incrédula, solicitava a  confirmação. Quando conquistou sua vaga para o curso dos sonhos, na Federal de Ouro Preto, havia pouco tempo que se mudara para Belo Horizonte — onde vivenciou apenas duas semanas da vida de caloura em Arquivologia na UFMG.

Em mais uma mudança de rumo, deixou suas malas nos braços de Maria Capitolina Santiago, a República Capitu, na cidade de Mariana, enquanto voltava, momentaneamente, para sua terra natal. O que seria um curto período de tempo, porém, tornou-se tão duradouro quanto às discussões sobre a traição a Bentinho.

As experiências de viver a sincronicidade dos encontros marcados nos históricos corredores do ICHS ou as amizades feitas no Jardim Marianense foram trocadas pela pouca interação no ciberespaço. Para ela, o que mais cansa são os infindáveis 100 minutos em frente à tela do computador, a cada aula, somados às incontáveis páginas lidas nos pdfs e e-book.

Os diálogos nas salas digitais perdem o fôlego com o ruído do som das pessoas em sua casa fazendo suas tarefas; a troca de ideias se perde junto com a conexão ruim da  internet da zona rural. Diversos são os motivos para que Lorraine queira, enfim, voltar para o lugar que nunca, nem sequer, chegou a ir, ao menos não fisicamente.

A pandemia, que estragou sua vivência enquanto caloura, por duas vezes, agora dá lugar à empolgação de quem não vê a hora de pisar na sala de aula física. Ainda que o medo da contaminação seja real, Lorraine se anima só de pensar nos inúmeros personagens, enredos e cenários que a Universidade poderá agregar à História da garota que leu, repetidamente, seu nome, na tão aguardada lista de aprovação.