Como bares, restaurantes e lanchonetes da região atravessam a crise do setor

Donos de bares e empreendedores do ramo alimentício repensaram o modo de fazer negócio durante o isolamento social
PRODUÇÃO: MATHEUS SANTOS, PEDRO LEAL E YASMIM PAULINO

O setor de bares, restaurantes e lanchonetes no Brasil teve que lidar com drásticas mudanças a partir da chegada da pandemia, em março de 2020. Fechar as portas, trabalhar apenas com delivery ou até mesmo não trabalhar foi o que restou. De um dia para o outro, tudo mudou. Tudo fechou. Todos precisavam ficar em casa. E os negócios? Como passariam por uma das crises mais turbulentas que o mundo viu nas últimas décadas e que os afetam intensamente? Em pesquisa divulgada em abril, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), informa que ocorreram mais de 35 mil fechamentos de bares e restaurantes ao longo da pandemia no Brasil.

A pandemia de coronavírus  impediu encontros, cancelou agendas, fechou as portas das lojas e fez bares e restaurantes guardarem as mesas. É final de semana, sexta-feira, você abre a geladeira mas queria estar com a sensação caótica do tumulto, bebendo cerveja e comendo aquela porção que só existe no boteco que fica na esquina da sua casa. Não é possível, estamos em quarentena e, apesar dos decretos municipais que liberam a abertura dos bares, não há garantia de segurança sanitária para os trabalhadores e consumidores nestes ambientes. 

Na primeira quinzena de março, os primeiros casos de Covid-19 são registrados no Brasil e os governantes, a nível estadual e municipal, começam a tomar medidas preventivas de combate à pandemia. Aulas de escolas e Universidades foram suspensas, trabalhadores que pudessem estariam em home office e o setor de serviços alimentícios como bares e restaurantes não poderia mais receber os clientes em seus estabelecimentos. O único modo de funcionamento permitido seria o de entrega a domicílio, o delivery. Sem muitas alternativas para consumidores e microempresários, os aplicativos de entrega, especialmente de alimentos, tomaram conta de vez dos serviços, principalmente nos grandes centros urbanos.

Consequências da pandemia para bares e restaurantes: Entregador fazendo entrega
O delivery se tornou tendência durante a pandemia, já que restaurantes, bares e lanchonetes viram em aplicativos uma oportunidade de viabilizar seu funcionamento. Foto: Yasmim Paulino

O Jornal Lampião entrevistou seis estabelecimentos de diferentes perfis nas das cidades de Mariana e Ouro Preto, além de entregadores, para entender como eles passaram por esse período, o que sentiram, como reagiram à crise e os modos de sobrevivência que buscaram para continuar de portas abertas.

O Fábrica Pub, bar e petiscaria localizado na Praça Gomes Freire (popularmente conhecido como Jardim), em Mariana,  já vinha sendo afetado mesmo antes da pandemia, pois com a reforma do Jardim realizada pela prefeitura e pela empresa Renova, no começo de 2020, houve uma queda significativa de cerca de 50% no faturamento. De março a junho de 2020, as perdas chegaram a 80%, já que o local não trabalhava com delivery e demorou a se adaptar ao novo modelo de negócio. 

Outro estabelecimento que também não trabalhava com Delivery é o Tuca’s bar, localizado na Avenida Nossa Senhora do Carmo, em Mariana. A chegada da pandemia trouxe o medo de fechar as portas e a dispensa de funcionários. “O delivery trouxe muita oportunidade para autônomos, né? Para quem não tem empresa registrada e atua em comércios de delivery clandestinos. Isso tirou muito a receita dos que já estavam no mercado”, explica o proprietário Glauber Ferreira, destacando que o faturamento chegou a cair 80% durante o início das restrições.

Em Ouro Preto, no bairro universitário Bauxita, o Bar e Petiscaria Galpão 89 sentiu o baque das restrições e da volta dos universitários às suas cidades de origem, além de ter ficado de portas fechadas por um tempo durante os decretos mais rígidos.

E os comércios menores, administrados por uma única pessoa e que possuíam uma estrutura menos robusta? A resposta parece ser unânime: não foi fácil para ninguém. A dificuldade de manter as portas abertas, de se inserir no meio digital e de fazer contato com outros meios não utilizados anteriormente foi um impasse para estabelecimentos mais tradicionais, o que dificultou inclusive a comunicação  do Lampião com esses bares, cujo funcionamento é centrado na presença das pessoas no local. Este é o caso de Leidiane Silva, que gerenciava  seu bar há dez anos no bairro Rosário, em Mariana: o Petiscos Bar. Ela tentou, durante sete meses, manter as portas do estabelecimento abertas, mas não conseguiu.

Na cidade há mais de 20 anos, a tradicional “Pastelaria do Seu Jadir”, localizada na Rua Dom Viçoso, próxima ao Jardim, é bastante prestigiada na cidade. As restrições também acertaram em cheio o funcionamento do negócio, obrigando Seu Jadir a demitir dois dos seus  quatro funcionários e passar a atender na porta do estabelecimento. 

William Mendes é um caso diferente. No período pré-pandemia, trabalhava com encomendas para eventos. Com a proibição deles, por ocasião das restrições sanitárias,  a solução para continuar trabalhando foi criar a Juanita Confeitaria. “Nossa produção começou por causa da pandemia. Foi em virtude da quarentena que algumas atividades, que fazíamos presenciais, não puderam mais acontecer. Nós trabalhávamos em eventos, principalmente. Devido ao contexto, nos vimos obrigados a partir para um plano B”, ele conta, sobre o início do negócio. 

Após o susto

Após o impacto inicial de se adaptar a um novo contexto, como continuar a caminhada e tentar sobreviver? Mesmo em meio a perdas, os negócios continuaram, mas precisaram se adaptar à nova realidade. A partir de junho de 2020 o Fábrica Pub passou a oferecer pizza no cardápio e começou a trabalhar com delivery e aplicativos de entrega, enquanto suas portas continuavam fechadas. “Foi um momento bem difícil. Se a gente quisesse continuar tentando sobreviver, a gente tinha que de alguma forma buscar novas soluções”, desabafa Luíza Mariano, co-proprietária que trabalha com marketing e faz a divulgação da empresa, que funciona desde fevereiro de 2017.

A equipe do Pub, que antes da pandemia contava com 24 funcionários, chegou a apenas sete, que agora trabalham diretamente com o delivery de pizza. Os trabalhadores foram demitidos no final do ano, após o fim do Programa Benefício Emergencial, auxílio do Governo Federal que compensava parte dos salários de trabalhadores temporariamente dispensados.

A falta de apoio governamental também foi sentida. As esferas local, estadual e federal não trouxeram soluções eficazes. “Não teve nenhum suporte financeiro trazido pelo governo local nem federal pra nós, não. Mas não vou ficar reclamando aqui não, porque nós, como empresários, a gente sabe que nós mesmos é que temos que buscar o nosso caminho”, desabafa Luíza, co-proprietária do Fábrica.

As principais queixas de Glauber Ferreira, do Tuca’s bar, foram a falta do público universitário e a lacuna deixada pelo governo. “Eu não tive nenhum incentivo, nem do Governo Federal, nem do Municipal. Houve, sim, até um cadastramento de empréstimo de não sei quanto tempo, de não sei que taxa, mas pouco perante o que passamos”.

No Galpão 89, o proprietário Rafael Pires diz que trabalhar durante esse período foi muito desafiador; era nítido o desânimo dos funcionários e até mesmo dos clientes. “A gente tá trabalhando mais horas, mais tempo por dia, mas às vezes, um pouco mais desmotivado. As pessoas estão mais abatidas, mais tristes, porque quem trabalha com com bar e alimentação gosta de trabalhar, é loucura, ou seja, atender muitas pessoas, produzir muita coisa, criar muito conteúdo e fazer várias e várias e várias coisas”, explica.

A solução encontrada por ele durante esse tempo sem poder receber clientes dentro do bar foram os aplicativos Ifood e 99 food, populares pelo serviço de entrega de comida. “É legal, assim, dá um complemento. O  certo seria, pelo menos aqui para gente, que funcionasse como um complemento de faturamento de renda, não o principal. Mas querendo ou não, durante a pandemia foi o principal, mas não o suficiente”, comentou Rafael.

Como ponto negativo do delivery, Rafael destaca a perda da qualidade da comida. “Eu não sou o maior adepto de delivery, porque eu acho que tem uma perda de qualidade muito grande na comida. Uma coisa é você comer no bar, outra coisa é viajar por vinte, trinta, quarenta, cinquenta minutos até chegar no cliente”, disse. 

Consequências da pandemia para bares e restaurantes: Cardápio Galpão 89
Em momentos de maior restrição, quando puderam operar apenas com delivery ou retirada de alimentos na porta, os estabelecimentos bloquearam a entrada. Foto: Rafael Pires/Instagram Galpão 89

O delivery também foi a principal forma de sobrevivência da Leidiane. “Não tive nenhuma ajuda assim não, de prefeitura, de nada não. Ninguém nunca me perguntou nada. Sempre fui eu mesma, correndo atrás”, afirma. A solução em meio ao caos foi  fornecer marmitex para uma empresa da cidade. Em média, servia 40 marmitas por dia. Além disso, começou a vender lanches por aplicativos de delivery, passando por cima das adversidades até poder reabrir o Petiscos Bar. 

Diferente de seus colegas do ramo, a pastelaria não conseguiu se adaptar à nova realidade imposta. Chegou a fazer entregas durante um curto período, mas não deu certo.“Trabalhar com entregadores dava muito trabalho e não compensava”, alega Seu Jadir, que tentou fazer entregas por conta própria, mas não conseguiu conciliar o trabalho com a produção dos pastéis e decidiu priorizar o atendimento mais pessoal e direto aos clientes. 

Convivendo com o vírus

Com o passar dos meses, as medidas de restrição ficaram mais brandas e permitiram, com algumas limitações, a volta gradual do funcionamento presencial de bares e restaurantes.

Consequências da pandemia para bares e restaurantes: Distanciamento em restaurante
Medidas de distanciamento social foram adotadas por estabelecimentos, como a colocação de barreiras físicas em mesas ocupadas por mais de uma pessoa. Foto: Fernanda Almeida

Após tomar a primeira dose da vacina contra o Coronavírus e estando a poucos dias de tomar a segunda, Seu Jadir explica que buscou implementar todos os cuidados no estabelecimento. “Se a pessoa chegava sem máscara, eu não deixava entrar, pelo menos, ao atendimento no balcão”, explica, deixando claro que orientava os consumidores a retirar a máscara apenas quando fossem comer.

O Fábrica Pub chegou a funcionar presencialmente durante os meses de novembro e dezembro de 2020, quando foram permitidas apresentações de música ao vivo. Durante esse período, Luíza conta que todos os protocolos foram seguidos. “Aconteceu um caso ou outro de algum funcionário vir sem máscara, porque tinha tirado pra fazer alguma coisa e tal, e a gente teve algumas críticas, mas a gente sempre tentou seguir todas as medidas necessárias”, salientando que, junto com a vacinação, o respeito às medidas sanitárias é essencial para a volta da normalidade do setor 

Com a permissão para reabrir as portas, Glauber também falou sobre o receio em trabalhar com a pandemia em curso. “O risco de contaminação ainda é muito grande né?”, pondera, complementando que vem mantendo cuidados no estabelecimento, como a higienização do local e uso de máscaras.

A Juanita foi construída no contexto pandêmico e mesmo com uma boa recepção do público consumidor, desafios de toda ordem não deixaram de aparecer pelo caminho. A equipe trabalhava a todo momento com medo, tanto pela oscilação dos preços dos produtos no mercado quanto pelo perigo sanitário. “O que preserva a gente é esse medo”, diz o confeiteiro.   

A situação atual

Todos os estabelecimentos precisaram se reinventar. Alguns de maneira mais agressiva, outros de maneira mais pontual, mas todos viram seu modo de operar mudar em algum nível.  Mesmo com o avanço da vacinação, a cobertura da imunização ainda é baixa e a maioria dos locais mantém o delivery como principal fonte de renda. Os proprietários sabem que certas mudanças vieram para ficar, mas esperam abrir mão de algumas assim que o controle da pandemia permitir.

O Galpão 89 entrou nos aplicativos de delivery e, para amenizar os impactos econômicos, criou um cardápio online, além de um pix para o bar e uma conta em banco digital para ajudar no pagamento à distância e evitar que os funcionários precisassem ir  à mesa dos clientes.  

Seu Jadir conta que “sempre teve muita vontade de trabalhar, e foi isso que o manteve de pé durante a pandemia”. Chegou a fazer um empréstimo no banco para dar continuidade ao negócio, que não pôde contar com auxílios de crédito por parte do governo devido à burocracia demandada por eles. Hoje a Pastelaria tem o WhatsApp como única rede social, onde é divulgado o cardápio e são recebidos os pedidos para retirada ou consumo no local. A lanchonete também não está nos aplicativos de entrega, como Ifood ou Aiqfome, pois o foco do atendimento, segundo o proprietário, está na relação direta com os clientes.

Consequências da pandemia para bares e restaurantes: Preparação de pedido
O uso de protocolos de segurança perpassa diversas etapas de produção, desde o atendimento ao cliente ao preparo de alimentos, feito pelo Seu Jadir. Foto: Elisangela Aparecida

O faturamento com o delivery vem conseguindo manter o Fabrica Pub funcionando, mas sem lucros expressivos. “A gente em nenhum momento chegou a pensar em fechar as portas definitivamente. A gente passou um sufoco sim mas, graças a Deus, sempre tivemos um fluxo de caixa bacana”, relata Luíza.

A inserção no meio digital também foi fundamental para a resistência do negócio durante a pandemia, através da divulgação de produtos e promoções. O bar, através da entrega  de pizza, entrou em aplicativos de delivery como Ifood e Aiqfome, além de contar com atendimento por telefone, WhatsApp e site. O estabelecimento também pretende lançar, em breve, um aplicativo próprio. “A gente está postando todas as nossas fichas nesse lançamento”, revela.

O bar quer ser cauteloso quanto à volta às atividades, já que novas restrições podem vir a acontecer. Por isso, aguarda um período mais estável para retomar as atividades, mesmo com o funcionamento permitido pelos decretos vigentes. Luíza explica que o Pub pretende reabrir as portas em agosto, mas que precisam “ter certeza de que não vão contratar uma equipe inteira e daí a quinze, dez dias ter que fechar de novo”.

A previsão de abertura do bar coincide com as novas medidas anunciadas pela prefeitura. A cidade de Mariana encontra-se, desde 10 de julho de 2021, na Onda Amarela do Plano Minas Consciente. No dia 24 de julho o Jardim foi reaberto ao público, o que deve influenciar na presença de mais pessoas visitando e permanecendo no local, que devem, mesmo com medidas restritivas flexibilizadas, respeitar os protocolos de segurança vigentes, como uso de máscaras e distanciamento social. 

Glauber, do Tuca’s, espera que novas restrições não venham a acontecer. Ele diz não saber como os empreendimentos na área conseguirão sobreviver a mais um período sem renda: “Tenho certeza que muitos vão baixar as portas, vão deixar de de de fazer o que mais gostam e vão simplesmente abandonar seus negócios. Nós comerciantes temos que torcer muito pra que isso não aconteça”. 

A equipe do Juanita está no catálogo do iFood. O sistema cobra um percentual significativo das vendas, à medida que recebe pedidos. O valor pode ser alto mas, segundo William, é a vitrine do comércio online. “Para a gente, a experiência do delivery durante a pandemia está sendo bem marcante. A gente está tendo um retorno bom do nosso público. A gente está consolidando a nossa marca”. Além do valor do produto, ainda é cobrado a taxa de entrega, que na cidade de Mariana, geralmente é fixa para qualquer bairro. 

Consequências da pandemia para bares e restaurantes: Pedidos prontos para entrega
Trabalhar com aplicativos de delivery exige maior organização nas etapas de produção e preparo, como as embalagens e o cuidado no transporte. Foto: William Mendes

Em notícia publicada em seu portal em 28 de maio de 2021, a Prefeitura de Mariana anunciou o Programa Municipal de Crédito Emergencial, voltado a microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte. A breve descrição do programa diz que “será concedido crédito a juros zero para aplicação na manutenção da saúde financeira dos empreendimentos da cidade […] com prazo de carência de seis meses para início da quitação, e os beneficiários terão 24 meses para quitar todas as parcelas”. A medida, anunciada após mais de um ano de pandemia, não teve mais detalhes divulgados pela gestão municipal, como quem seriam os beneficiários, qual seria a data de implantação e o porquê da medida ter sido criada tão tardiamente. O Lampião entrou em contato com a Prefeitura, que respondeu com a seguinte nota:

“A Prefeitura de Mariana informa que foi aprovado o Programa de Crédito Emergencial, que visa beneficiar o pequeno e médio empreendedor local. Como benefício, a lei garante empréstimos com taxa zero de juros, seis meses de carência para iniciar os pagamentos e 24 meses para quitação. Podem participar as pequenas empresas, microempresas e microempreendedores individuais do Município de Mariana. Sendo liberado o total de R$ 5 mil para MEI, R$10 mil para ME e R$ 20 mil aos Empresários de Pequeno Porte. Na data de hoje, seis de agosto, foi publicado no Diário Oficial o credenciamento para as instituições financeiras que tenham interesse na prestação de serviço. Agora, o projeto passa por outros trâmites antes de liberar a abertura de crédito”.

O governo de Minas Gerais anunciou, em 8 de abril de 2021, um plano de ações com o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) para auxiliar micro e pequenos empreendedores, através da renegociação de dívidas e redução da taxa de juros. O governo Federal anunciou, em 2020, a criação do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), para auxiliar micro e pequenos empresários durante a pandemia, oferecendo linhas de crédito a juros mais baixos e maior prazo para pagamento. As medidas, das três esferas governamentais citadas, não chegaram efetivamente aos entrevistados, que não conseguiram aderir aos auxílios de crédito oferecidos. 

Do outro lado do delivery

O mercado de entrega de comida sempre existiu, mas  aplicativos como iFood, AiqFome, Rappi e UberEats enxergaram a oportunidade de comprar esse espaço e torná-lo lucrativo para empresários. Entretanto, se esqueceram de incluir os motoboys e motogirls na conta. À medida que os estabelecimentos aderiram à ferramenta, os motofretistas se viram obrigados a entrar no ritmo dos apps. Se por um lado os proprietários ganham visibilidade, acesso a públicos maiores e comunicação facilitada com o cliente, de outro os entregadores perdem a segurança de um emprego com direitos. Os aplicativos não garantem vínculo empregatício com os profissionais que, além de precisarem ter seu próprio equipamento de trabalho, têm seu salário  calculado por cada entrega realizada quando surgem pedidos. Em Mariana, uma cidade do interior de 61.288 habitantes, segundo o censo de 2020, ficar de fora desse aplicativo é cada vez mais difícil, e a forma de realizar as entregas ainda oscila entre o antigo sistema e os novos modelos.

Julian Frederick trabalha como motoboy em Mariana para restaurantes, mercados e lojas de maneira independente. Quando perguntamos sobre a experiência dele com os aplicativos, disse que tem colegas de trabalho que usam mas que as taxas são um problema, não cobrem o trabalho e todos os gastos envolvidos. Sua rotina é pegar a moto de domingo a domingo, cerca de 9 horas seguidas e quase sempre sem parada para almoço. “As vezes eu não almoço porque tem muita demanda, então não dá tempo. Então, eu não posso parar ali dez, quinze minutos pra almoçar porque eu tô entregando almoço pra outra pessoa”, explica Julian. 

Essa relação de ter que abrir mão das próprias necessidades pessoais e até mesmo direitos básicos do trabalho são bastante comuns na rotina de entregadores. Quando adoecem ou sofrem algum acidente, eles têm que voltar ao serviço em questão de poucos dias, sem se recuperar totalmente, pois não podem ficar sem conseguir renda e correr o risco de perder o lugar no emprego. “Infelizmente ou a gente perde ficando em casa ou a gente vai trabalhar machucado desse jeito mesmo”, comenta Jussara de Fátima Matias, entregadora de Mariana que relata uma queda em que fraturou seu dedo mindinho do pé. A recomendação do médico era não usar tênis, caso contrário o dedo não voltava pro lugar. Jussara, como vários outros colegas de trabalho que conhece e já se acidentaram, precisou voltar ao serviço antes do prazo de recuperação. Em suas palavras: “porque a gente precisa colocar comida dentro de casa, entendeu?”

A experiência de Jussara como motogirl em Mariana é um pouco diferente da de Julian. Apesar de ter passado por vários lugares que a negaram uma oportunidade de trabalho por ser mulher e dirigir uma moto, hoje ela faz entregas para dois estabelecimentos diferentes e é ‘fichada’ no horário de almoço. A Pastelaria do Vitinho é o lugar que a entregadora conhece que ainda trabalha com profissionais de delivery fichados. Isso significa que Jussara possui renda fixa, férias, décimo terceiro e direitos como qualquer outro trabalhador. A lanchonete está cadastrada no aplicativo do Ifood e consegue oferecer um bom reconhecimento aos entregadores.

A pandemia fez a demanda pelos serviços de entregas disparar e o momento de instabilidade econômica do país apresentou o ramo como uma oportunidade de emprego para muitos jovens brasileiros. Rafael Carvalho, de 21 anos, começou o serviço quando o coronavírus chegou ao Brasil. Desde então, trabalha de forma independente, sem o uso dos aplicativos, treze horas divididas em restaurantes e uma farmácia, diariamente. Apesar da carga horária pesada, Rafael comenta estar satisfeito com o trabalho, “Até o momento as condições de trabalho são favoráveis”, diz, “Como sou autônomo não tenho férias, nem acerto, mas tenho uma boa renda e um tempo livre maior do que quando eu tinha carteira assinada”. 

A audioilustração produzida pelos repórteres mostra a realidade dos entregadores durante a pandemia.

Da ponte pra cá

Algumas semanas atrás, durante a apuração da reportagem, entramos em contato com o Sindicato de Motociclistas de São Paulo para saber qual a situação dos entregadores de delivery na capital paulista. No ano de 2020, a cidade foi um dos palcos que se organizou para protestar no ‘Breque dos Apps’, uma manifestação contra as condições de trabalho impostas pelos aplicativos. A movimentação chamou a atenção dos jornalistas, dos sindicatos e de outros colegas de trabalho ao redor do Brasil. Quando perguntamos aos entregadores marianenses se tinham ouvido falar sobre os protestos, eles disseram que sim, mas sem muito interesse. Julian foi o único que demonstrou sentir falta de um sindicato na cidade, uma organização melhor da classe e disse estar conversando sobre uma associação com os colegas. Em São Paulo, as avenidas pegam fogo e no interior, as ruas seguem pacíficas como manda a rotina. 

No Sindimoto, conseguimos o contato de Rodrigo Silva, diretor de Relações Institucionais do sindicato. Na correria diária, ele passou seu e-mail pessoal para marcar uma entrevista, mas acabamos batendo um longo papo por telefone. Num tom de completo cansaço, ele explicitou várias informações sobre a questão trabalhista na Assembleia Legislativa de São Paulo e como a situação virou um nó de problemas. Na chamada, também perguntou mais sobre a matéria e a Universidade, com tom de desconfiança, e rimos um pouco quando eu o tranquilizei dizendo que não seria necessário mais uma live. Em seguida, disse que muitas empresas estavam infiltrando pessoas no telefone como jornalistas, tentando descobrir as movimentações do sindicato. No fim, desabou sobre as perseguições: “Se você soubesse do que esses caras são capazes, você nunca mais pediria um lanche por um aplicativo!”.  

É perceptível como a pandemia intensificou mudanças no mercado de bares, restaurantes e lanchonetes. A busca pela sobrevivência partiu não apenas dos estabelecimentos, que ainda passam por grande sufoco, mas também dos entregadores, que se viram obrigados a trabalhar em condições já precarizadas e se expondo ao vírus da Covid-19. A pandemia  está longe de acabar e muitas incertezas rondam. O Jornal Lampião deseja a recuperação dos afetados, através do avanço da vacinação e presta solidariedade aos que perderam seus entes queridos.