Moradores buscam alternativas de transporte para BH

Moradores buscam alternativas de transporte para BH

PRODUÇÃO: ALISSON CRUZ, ANDRÉ NEVES E ERNESTO NETO

Com o serviço de viagem oferecido apenas por uma empresa, a população de Ouro Preto e Mariana enfrenta altos preços e constantes transtornos para locomover-se para Belo Horizonte.

Entre as principais reclamações estão: veículos em péssimo estado de conservação, superlotação e atrasos nos horários. Por esses motivos, os viajantes acabam optando por transportes alternativos e muitas vezes ilegais.

A prática dos caroneiros, muito comum na região, oferece preços mais justos e deslocamentos mais rápidos até o desembarque final. Além disso, mais pessoas aderem à prática de viajar utilizando o serviço oferecido em grupos do Facebook e Whatsapp.

O transporte na Região dos Inconfidentes é associado à Viação Pássaro Verde, empresa responsável pelo monopólio local do translado até Belo Horizonte. As cidades de Ouro Preto e Mariana estão situadas a cerca de 100km da capital mineira e devido ao fato desta região ser um polo turístico e universitário, há um grande fluxo de locomoção que movimenta os municípios.

Outras práticas observadas são os motoristas não regulamentados que vivem desta renda, realizando diversas viagens por dia, buscando encomendas para terceiros e levando passageiros na rodoviária de Belo Horizonte e no aeroporto de Confins.

“Trabalhei a vida inteira como motorista para grandes empresas, porém quando fiquei desempregado não tive opção e as contas chegaram, acabei pegando meu carro e fazendo esses bicos”, destaca M. H., 43 anos.

Na opinião de quem presta o transporte não regulamentado o serviço é uma forma para driblar o desemprego e os elevados preços do combustível, além de oferecer uma alternativa para pessoas que necessitam transitar entre Mariana, Ouro Preto e Belo Horizonte.

“Faço a viagem Mariana – BH a trabalho e aproveito para oferecer a carona, dividir o valor e ajudar os universitários que precisam do deslocamento. Se formos parados na estrada, digo ao policial que estou levando meus amigos”, afirma L. G., 36 anos, que aderiu à prática ainda no ano de 2018.

Em alguns casos, as viagens são feitas em carros particulares e, muitas vezes, por motoristas sem experiência. Além disso, o condutor também não tem garantias sobre quem irá acompanhá-lo.

“Tenho que trabalhar em Belo Horizonte todos os dias e necessito fazer a viagem em meu carro particular. Com o aumento do preço do combustível resolvi anunciar vagas de carona para aliviar o bolso, mas tenho um pouco receio porque tenho que colocar desconhecidos dentro do meu carro”, afirma G. F., 29 anos.

Para os usuários da modalidade, o transporte não regulamentado é uma ajuda para fugir da burocracia habitual das empresas de ônibus, mas com altos riscos de segurança. A carona irregular é uma solução mais prática para conseguir viajar em melhores horários e gastando menos.

“Economizo a metade da passagem e nunca tive problemas e nem uma situação de apuro. Entendo que acaba sendo perigoso utilizar esse meio de transporte, porém a cidade não oferece outras opções além da empresa tradicional”, destaca Pedro Henrique Castro, aluno de graduação da UFOP, de 28 anos.

A belo-horizontina Laís Dutra afirma que além da comodidade na questão dos horários e os valores serem mais acessíveis, o fator tempo de viagem também é crucial para a utilização desse serviço. Por outro lado, Dutra também comenta que o fato desta modalidade de transporte não ser regulamentada gera insegurança.

“Eu me sinto vulnerável fazendo esta categoria de serviço com desconhecidos. Em geral, prefiro escolher mulheres para pegar a carona. Estou em quatro grupos no Whatsapp e geralmente mando mensagens para as meninas.”

Já a estudante de jornalismo, Yasmin Mendes, comenta sobre o serviço irregular.

“Particularmente não sinto medo de utilizar esse modo de viagem, sempre procuro ir com pessoas conhecidas, mas nem sempre é possível. Por bem, nunca passei por situações de perigo, mas acredito que devemos conscientizar as pessoas e criar mecanismos para proteger as mulheres ao longo dos percursos”.

Transporte legalizado

Uma modalidade de transporte legalizada é o fretamento de vans e ônibus em empresas de turismo ou cooperativas. Desse modo, os veículos são cadastrados e inspecionados no Departamento de Estrada de Rodagens de Minas Gerais – DER/MG. Além disso, é necessário o cadastro da habilitação dos motoristas que farão o translado até o destino final.

“Realizo a carona pelo mesmo valor que as pessoas oferecem no grupo, o diferencial é que possuo o cadastro e estou habilitado para oferecer essa modalidade de serviço. Antes de cada trabalho pego o nome e RG dos usuários, incluo na lista de passageiros e realizo a viagem completamente legalizada, sem correr risco de sofrer alguma multa”, destaca Reginaldo Pereira, motorista de 41 anos, que trabalha no setor desde 2004.

A empresa de transporte com itinerário Ouro Preto-Belo Horizonte, Viação Pássaro Verde, realiza o serviço com preço médio de R$ 38,10 em uma viagem de aproximadamente 2h30. Já na rota Mariana-Belo Horizonte, a mesma empresa cobra o valor de R$ 44,02.

Uma nova alternativa de transporte coletivo mais barata é a Buser, agora disponível em Mariana e Ouro Preto. Pioneiro na modalidade de transporte de passageiros por fretamento de ônibus, o aplicativo oferece viagens com menores preços, além de se tornar um opositor ao transporte tradicional.

Na quarta-feira, dia 11 de novembro, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais – ALMG, derrubou o veto parcial do governador Romeu Zema (Novo) no projeto de lei PL 1.155/15, que estabelece limites de funcionamento em empresas de fretamento, como a Buser. Contudo, a empresa seguirá funcionando no estado, por meio de uma liminar judicial que permite o funcionamento dos ônibus normalmente.

Em Mariana, a Buser oferece apenas o trajeto de ida e volta para Belo Horizonte, com embarque no Centro de Convenções, nos horários de 5h30 e 18h, de segunda a domingo.

De Belo Horizonte para Mariana, as viagens acontecem diariamente, às 8h e às 19h. Pelo aplicativo, a passagem sai a R$ 29,90, valor  32,08% menor do que a passagem da empresa Pássaro Verde.

A empresa que oferece a viagem em parceria com a Buser é a Fly Turismo. Para o empresário e proprietário Deyvson Ribeiro, a nova modalidade é uma alternativa justa aos moradores de Mariana.

“Com um ônibus moderno, e com ponto de embarque e desembarque no centro da cidade, turistas, trabalhadores e qualquer pessoa que precise se deslocar entre Mariana e BH têm uma opção com preço justo, conforto e comodidade”, avalia Ribeiro.

Os usuários da plataforma que já utilizaram o serviço da Buser em parceria com a Fly Turismo aprovam a viagem e destacam a vantagem no preço.

“Conheci o serviço há um tempo, através desses anúncios que aparecem no Instagram. Escolhi utilizar principalmente pela diferença de preços. A Buser também oferece muitos cupons de desconto, o que ajuda a viabilizar o custo da viagem”, afirma a estudante Letícia Freitas, de 21 anos.

Uma ferramenta também disponível para viajantes e caroneiros é o BlaBlaCar. Trata-se de um aplicativo de caronas gratuito disponível para celulares que permite aos passageiros e motoristas viajarem juntos por preços abaixo da média. Os usuários da plataforma avaliam-se após a corrida, e podem conferir informações como perfil do motorista, além da cor e placa do veículo.

“Costumo oferecer carona para me ajudar nas despesas e sempre me senti mais seguro utilizando o BlaBlaCar. Através do aplicativo colocava o anúncio com o destino e assim conseguia olhar o perfil das pessoas que se interessavam em viajar comigo”, relata o estudante Rodrigo Nassif, de 23 anos.

O preço, fator que faz a diferença para o bolso do passageiro, muda de acordo com o transporte, como pode ser visto no gráfico comparativo dos custos entre serviços para deslocamento até Belo Horizonte.

Crise agravada durante a pandemia

Com o início da pandemia da Covid-19, em março de 2020, a situação do transporte agravou-se ainda mais. Com a falta dos estudantes, devido às atividades não presenciais das instituições de ensino, diminuição dos turistas e a redução dos horários de ônibus, motoristas e passageiros acabaram enfrentando uma grande crise.

“Desde o começo da pandemia a minha arrecadação realizando o transporte para BH diminuiu em mais de 60%. As pessoas pararam de viajar e eu acabei tendo que me virar fazendo outros trabalhos. Graças a Deus, agora o movimento está voltando e estou conseguindo levar os meus passageiros de volta”, acrescenta o caroneiro de Mariana, Luiz Claudio, motorista de 57 anos.

Para Juliana Cristina, funcionária da rodoviária de Mariana, a pandemia causou um grande impacto, já que os horários de ônibus foram reduzidos e o número de passageiros caiu pela metade,

“as pessoas ficaram mais receosas para entrar em um ônibus com pouca circulação de ar” explicou.

Procurada pela redação do LAMPIÃO, a Viação Pássaro Verde, até o fechamento desta matéria, não se manifestou sobre o assunto.

(CAPA-Fotografia: Jonathan Robert)

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