Cobras no espaço urbano: saiba o que fazer para evitar acidentes

Cobras no espaço urbano: saiba o que fazer para evitar acidentes

PRODUÇÃO: CLEVERTON MONTEIRO, JOYCE OLIVEIRA E RODRIGO NASSIF

Na pista de caminhada da Vila Maquiné, localizada à Rua Oito de Julho em Mariana (MG), apareceram algumas cobras nas últimas semanas e isso chamou a atenção de moradores da região. Residente do bairro Estrela do Sul, Carlos Antônio viu, recentemente, uma serpente às margens da pista, por volta das 18h30, horário em que o local normalmente fica movimentado com ciclistas e pedestres praticando atividades físicas após o pôr-do-sol. Não foi possível identificar a espécie do animal, que rapidamente voltou para dentro da mata.

Os comentários sobre a aparição das cobras na pista colocaram a vizinhança em estado de alerta. Professor universitário, André Luís Carvalho é morador do bairro Nossa Senhora Aparecida, frequenta a pista quase diariamente e ouviu alguns relatos de aparição do animal silvestre, que o deixaram preocupado. Ele conta que, aos finais de semana, costuma levar a filha pequena para andar de bicicleta ou brincar no parquinho que há no local.

O maior medo é em relação às crianças, que muitas vezes brincam na grama ou correm pelo espaço, e podem não saber como reagir e serem picadas”.

Há ainda a preocupação com o conjunto de brinquedos do parquinho público instalado ao lado da pista, que pode servir de esconderijo para as cobras. 

Segundo o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, durante a primavera e o verão existe um aumento de ocorrências com animais peçonhentos. Neste período, mais quente e chuvoso, esses animais  saem de seus habitats naturais e vão para espaços urbanos ou que geralmente não ocupam. Além dessa justificativa, a coordenadora de Zoonoses e Vigilância de Fatores de Risco Biológicos da  Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), Mariana Gontijo, contou ao Jornal Hoje em Dia que esse é um período em que ocorre uma expansão no crescimento da população das cobras, o que contribui não só para o aparecimento, como também para os acidentes que podem ocorrer caso aconteça o ataque desses animais.

Em nota à equipe de reportagem do LAMPIÃO, a Subsecretaria de Vigilância e Proteção à Saúde de Mariana, através da Técnica em Meio Ambiente, Natália Gomes, informou que no ano de 2021, até a presente data, foram registrados nove acidentes por picada de serpentes em Mariana. Com relação aos protocolos em ocorrências de picadas, desde o ano de 2015 o município se tornou uma das centrais para onde o Estado envia os soros para o tratamento de pacientes vítimas de acidentes com animais peçonhentos (serpentes, escorpiões, aranhas e lagartas), de modo que o atendimento pode ser realizado na própria região. Os casos de acidentes são encaminhados ao hospital Monsenhor Horta, localizado na rua Colonia São Pedro, nº 01 (Centro), que é o pólo de soroterapia da cidade. O telefone do hospital é: (31) 3557-1244

COBRAS NA REGIÃO

A região de Mariana possui ainda uma especificidade em relação aos tipos de serpentes mais comuns. O estudo do Museu Nacional “Serpentes de uma área de transição entre o cerrado e a mata atlântica no sudeste do brasil” – realizado nas cidades de Mariana, Ouro Preto e Itabirito – mostra que a maioria das espécies registradas na região são incluídas na família Colubridae (cobra-verde, coral-falsa) e uma minoria Viperidae (jararacas, cascavéis) e Elapidae (corais-verdadeiras). Na pesquisa, foram encontradas mais espécies de cobras que não possuem veneno, o que mostra menor risco de acidentes graves com serpentes.

Cobra coral verdadeira
Foto: André Pessoa – Flickr

Ainda assim, é importante conhecer sobre as cobras peçonhentas, que inclusive podem ser causadoras potenciais de acidentes seguidos de envenenamento. O estudo listou algumas das espécies registradas consideradas de importância médica. Entre elas: Urutu, Jararaca, Cascavel, Coral-verdadeira, Cipó-listrada, Cipó-carenada, Papa-pinto. Dentre essas, é preciso fazer um alerta para dois tipos específicos: a jararaca, que além de ser a mais agressiva, é a mais recorrente em todo o Brasil (responsável por mais de 90% dos acidentes); e também a coral-verdadeira, que apesar de fugir ou ficar imóvel em situações de risco, possui toxinas que agem no sistema nervoso e, em caso de picada, é necessário atendimento médico de urgência para aplicação do soro específico, responsável por cortar o veneno no corpo humano. 

Acidentes com animais peçonhentos, como aranhas, escorpiões e serpentes, acontecem com certa periodicidade no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, nos últimos dois anos foram registrados 140 mil incidências de casos com bichos venenosos, o que evidencia a importância de estar atento à possibilidade destes acidentes. 

TEM COBRA. E AGORA?

Para amenizar o medo, é preciso pensar em alguns cuidados que devem ser tomados a fim de evitar acidentes. A observação dos ambientes é um dos primeiros pontos. Estar atento(a) ao caminho à frente é muito importante para recuar e estar devidamente calçado(a) também é muito importante, uma vez que as serpentes são rasteiras. Nesse sentido, é necessário evitar o uso de chinelos e de sapatos abertos em lugares com registro de incidência. Nunca colocar as mãos em tocas ou buracos na terra, ocos de árvores, cupinzeiros, montes de lenha ou entre pedras,também é importante, pois as cobras podem se esconder nestes espaços e, em alguns casos, se camuflarem com muita facilidade. Além disso, é muito importante contribuir com a limpeza dos ambientes, visto que a sujeira é propícia para a camuflagem das serpentes. 

Ao avistar uma cobra, duas atitudes podem ser tomadas. A primeira é desviar do caminho e não se aproximar do animal. Tentar se aproximar ou manipular a serpente pode torná-la agressiva e aumentar o risco de um acidente – deixá-la seguir o caminho à natureza pode ser uma das saídas. A segunda atitude que pode ser tomada é realizar uma ligação para o Corpo de Bombeiros Militar, através do número 193. O animal será recolhido e devolvido  ao ambiente adequado, evitando perigo às pessoas.

Já para os casos de acidentes com cobras, os primeiro passos a serem seguidos são:

ESPECIALISTA EXPLICA

A médica veterinária, Lara Meyer, pontua os riscos que a tentativa de captura do animal podem causar.

“Não indico com qualquer animal peçonhento. Então, se você foi picado por um animal não tente pegar, porque a chance de você tentar realizar a captura desse animal e você se acidentar de novo, ou ter outra pessoa acidentada, na tentativa de captura é muito grande. Se você conseguir fazer um registro fotográfico, ótimo, para auxiliar a equipe médica”.

Além disso, com os avanços científicos, a necessidade de captura de animais peçonhentos tornou-se menos necessária, conforme afirma Mayer.

“Na realidade, ao buscar atendimento médico e você explicar que foi picado por um animal, eles podem te aplicar um soro antiofídico polivalente. Então, não é só aquela coisa que as pessoas falam que ‘ah tem que saber se você foi picado por uma jararaca ou por uma cascavel porque o soro tem que ser específico’. Hoje em dia, já existe no mercado um soro polivalente que é, geralmente, o que eles aplicam, porque, dificilmente, alguém tem a identificação do animal no momento do acidente”.

A especialista alerta para os perigos das pessoas tentarem identificar um animal como peçonhento ou não para sua captura.

“Existem algumas formas de você identificar um animal peçonhento quando você tem conhecimento no assunto. Para pessoas leigas, a regra é: sempre encare como animal peçonhento, não chegue perto e tente entrar contato com algum órgão que possa ajudar na retirada daquele animal”. 

A veterinária Lara ainda menciona as características comuns de animais peçonhentos, mas recomenda manter distância de qualquer espécie, sendo venenosa ou não.

“Existem aquelas características clássicas que você encontra no Google sobre formato de cabeça, formato de corpo, formato de olho, mas isso não é regra. E para pessoas leigas eu acho isso bastante perigoso, porque a pessoa pode olhar um animal que tem as características de um animal não peçonhento e esse animal acabar sendo peçonhento. Então, na dúvida, sempre encare como peçonhento, se afaste, não tente capturar, saia de perto e procure a ajuda de alguém que possa lidar com esse animal.”

SAIBA MAIS: 

  • No site do Ministério da Saúde há uma página destinada a acidentes por animais peçonhentos que contém dicas, sintomas e outras informações sobre diversas espécies da fauna brasileira.
    Entrar em contato com o Corpo de Bombeiros Militar, ligue gratuitamente para o número 193. 

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