Cine Vila Rica: história e descaso

PRODUÇÃO: EMANUEL SILVA E MARCELA PARTELINI

O único cinema da região dos Inconfidentes segue de portas fechadas. O prédio do Cine-Theatro Vila Rica, localizado na Praça Reinaldo Alves de Brito, em Ouro Preto, está inativo desde 2016, quando a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) anunciou que iria realizar reparos no imóvel como parte do programa “Minas de Todas as Artes”.

Mas a reforma prometida ainda não foi realizada. Um dos motivos para o atraso nas obras foi a reorganização das atividades no governo de Minas. Em 2018, a Codemig passou a ser subsidiária da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), que assumiu os projetos iniciados pela então prestadora de serviços públicos. 

Após essa troca de gestão, a Codemge assinou um Acordo de Cooperação com a Universidade Federal de Ouro Preto, atual proprietária do imóvel. Tal proposta, assinada em 5 de julho de 2018, com vigência de dez anos,  prevê  investimentos de, aproximadamente, R$ 5 milhões para viabilizar o projeto de restauração.

Além das portas fechadas, o problema financeiro também atinge diretamente o material utilizado nas exibições. Durante live “Memória e História do Cine Vila Rica”, transmitida em junho de 2021 no canal Audiovisual UFOP no Youtube, coordenadora do Cine, Lâne Mabel, revelou que, após um dano no projetor principal, o mais potente da sala de exibições, a administração não teve dinheiro suficiente para substituir o aparelho.

“Mesmo com o projetor queimado, a gente arrumou um projetor de sala de aula e adaptamos esse projetor para que as atividades continuassem sem interupção”, relatou Lâne.

Apesar das dificuldades, esse esforço da equipe do Cine permitiu que as sessões continuassem sendo exibidas. 

Em junho de 2019, a Codemge informou, ao jornal O Tempo, não haver mais previsão para o início das obras. O anúncio causou estranheza e, em 2021, durante uma reunião realizada com o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, a reitora da UFOP, Cláudia Marliére, pediu atenção à questão da reforma do Cine e ressaltou a importância do espaço e dos equipamentos para a formação dos estudantes.

“Existe potencial, mas precisamos de investimento”, disse a reitora durante o encontro. 

Ainda assim, o problema segue sem solução para este importante equipamento cultural e histórico. 

Fundação do Cine Vila Rica 

As exibições de filmes no Cine-Theatro Vila Rica começaram com a iniciativa de Salvatore Tropia, um imigrante italiano apaixonado por filmes e que queria realizar o desejo de ter um cinema na região. Antes mesmo de ocupar o Cine-Theatro, Salvatore já havia iniciado seu projeto, exibindo filmes mudos em uma pequena sala, o Cine Central. Em 1953, o imóvel que até então abrigava o Liceu de Artes e Ofícios (de 1886 a 1937) foi leiloado e o italiano finalmente adquiriu o prédio  que seria transformado no Cine-Theatro.

 

Para realizar seu projeto de ter um cinema, Salvatore precisou reformar o antigo Liceu e, como o imóvel é um patrimônio material tombado, as mudanças arquitetônicas foram condicionadas à aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Após anos de negociações, a reforma foi aprovada e resultou em uma fachada completamente diferente da obra original. Em 1957, o Cine Vila Rica abriu as portas e finalmente exibiu filmes para o público. 

Hoje, o Cine-Theatro conta com uma ampla sala de projeção com lugar para 650 pessoas, mas, com o prédio fechado, o público não pode desfrutar desse espaço. O município de Ouro Preto é conhecido por ser um importante destino do turismo histórico, mas infelizmente o descaso com a reforma impede que o Cine-Theatro figure como um espaço de atividades que fomenta a cultura por meio  da tela de cinema.

Com a popularidade da televisão e os altos custos do aluguel de filmes das distribuidoras, em 1985, o Cine Vila Rica anunciou seu fechamento, 27 anos após a fundação. Mas, no ano seguinte, em 1986, o prédio foi adquirido pela UFOP. Com as atividades administradas pela Universidade, em 2004, o Cine retomou a exibição de filmes ao público, após uma reforma que incluiu a troca do telhado de amianto e a criação de uma galeria de arte no andar inferior. 

Projetos do Cine e eventos culturais 

A arquitetura, a tradição do cinema de rua e o acesso gratuito atraíam o público para o local. Além disso, o Cine-Theatro também foi palco de eventos como a Mostra de Cinema de Ouro Preto e o Festival  Varilux de Cinema Francês, promovidos anualmente. Como o prédio original está fechado para reformas desde 2018, as exibições são realizadas no Anexo do Museu da Inconfidência, espaço com características de auditório.

Lucas de Assis, idealizador do projeto de extensão Cineclube Vila Rica, acredita que o “charme maior fica para o prédio histórico”, mas as sessões de cinema no Anexo também são confortáveis. “O que vai importar no fim das contas é a experiência do filme em si”, comentou.

O projeto, criado em 2018, nunca teve sessões realizadas no espaço do Cine original. Sua proposta é selecionar filmes para mostras temáticas e promover debates, após as exibições, para discutir as obras e criar um espaço de diálogo entre os amantes de cinema. 

O projeto “Cinema com a escola” também traz uma proposta que busca aproximar o público da linguagem cinematográfica. Com apoio pedagógico, turmas do ensino fundamental e médio são convidadas a ver e debater sobre filmes que abordam diversos temas, estimulando o senso crítico e estético dos alunos. O projeto também incentiva os participantes a produzirem filmes de curta duração, proporcionando a eles uma experiência criativa e dinâmica.

Pensados e realizados para difundir cultura através do cinema, os projetos ainda têm suas atividades ativas no endereço do Anexo do Museu. Mas o Anexo lembra mais um auditório e, com isso, perde-se um pouco a magia do cinema. Além disso, o prédio possui menos de 100 assentos, algo que limita o acesso de grandes públicos. 

Exibições remotas

A curadoria do Cine Vila Rica traz filmes diversos e que, muitas vezes, estão fora do circuito de cinema comercial, como obras de vários países e autores independentes.

Lucas de Assis ressaltou que a exibição e debate sobre os filmes revelam “como eles nos influenciam e podem nos tornar mais sensíveis, mais cientes sobre os debates sociais mais atuais”.

Com o distanciamento social, uma das alternativas para não deixar as atividades paralisadas durante a pandemia foi a apresentação de filmes e debates online. Em 2020, a curadoria levou filmes clássicos para a discussão e, em 2021, segue com uma agenda de seleções temáticas, como o “Cinema Chinês” e “Negritude no cinema”. 

Um dos pontos positivos da projeção online é que o Cineclube atravessa fronteiras e alcança mais pessoas.

“Temos um caso interessante de uma participante de Santa Catarina que, inspirada no nosso Cineclube, criou um cineclube comunitário em uma cidade do interior”, comentou Lucas.

Mesmo com a previsão de volta das atividades presenciais em 2022, ele acredita que existe um público que seguirá fiel aos debates online e que vão “manter uma retomada híbrida dos nossos trabalhos no ano que vem”, disse. 

Presencialmente ou online, ver filmes é uma experiência coletiva que aproxima o público de diversos contextos sociais e, através dos debates promovidos pelo espaço do Cine Vila Rica, estimulam a formação crítica dos espectadores.

Como Lucas ressaltou, o cinema “é uma linguagem que tem seu impacto inerente à forma de sua exibição, com muitas imagens, sons e emoção envolvida”.

Por isso, esperamos ansiosos a reabertura das portas do Cine-Theatro para que essa emoção seja devidamente compartilhada e celebrada. 

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