Carnaval de Ouro Preto: entre o sim e o não para o próximo ano

Carnaval de Ouro Preto: entre o sim e o não para o próximo ano

PRODUÇÃO: JOYCE EMANUELE, RODRIGO NASSIF E CLEVERTON MONTEIRO

Após 1 ano e 8 meses do início da pandemia da Covid-19, muito tem sido questionado quanto à volta da “normalidade”. Perguntas como “Quando é que vamos parar de usar máscara?”, e “Quando vamos poder aglomerar novamente?” rondam o imaginário dos brasileiros que sobreviveram à maior crise sanitária e hospitalar da história, que segue sendo enfrentada no país.

De acordo com o consórcio de veículos de imprensa, mais de 55% da população brasileira está totalmente vacinada (considera-se totalmente vacinada a pessoa que tomou a vacina em duas doses ou dose única). A partir dessa porcentagem é possível observar uma queda na média móvel de casos. A exemplo, foram registrados 9.932 novos casos de quinta (4/11) para sexta (5/11), o que representa 20% a menos do que a média das duas semanas anteriores. Além disso, o número de óbitos também registram queda segundo a estatística da Universidade Johns Hopkins, publicada no Google Notícias.

Consoante a isso, a liberação gradual de eventos já acontece no estado de Minas Gerais. A cidade de Ouro Preto, por exemplo está, atualmente, sob ordens do Decreto Nº 6.193, de 20 de agosto de 2021, publicado pela câmara municipal, que permite a realização de eventos com até 12 horas de duração e com 50% de lotação máxima para ambientes fechados e sem limites para locais abertos, durante a onda verde.

Esse caminho de retorno gradativo alimenta a possibilidade da realização de eventos grandiosos no próximo ano, como as festividades do carnaval, que representam grande movimentação na economia da cidade. A Liga dos Blocos – formada pelos blocos do Caixão, Cabrobró, Praia e Chapado – já começou a divulgação do seu tradicional carnaval, assim como as repúblicas estudantis que também oferecem pacotes com hospedagens e festas. De acordo com o estudante Felipe Sueth, morador e um dos organizadores da Dose Folia, o momento da celebração é muito aguardado.

“A realização do carnaval pode ser encarada como um marco, uma esperança de “saída” da crise sanitária que o mundo enfrenta”.

Mesmo com o olhar positivo em relação a pandemia, Felipe explica que o contexto sanitário está sempre presente nas reuniões de organização, sendo a segurança dos envolvidos a maior preocupação. Frente à possibilidade de um novo agravamento da pandemia, o evento pode ser cancelado e devido às incertezas os turistas são informados sobre o risco antes de fecharem negócio – essa é uma das cláusulas do contrato que é firmado pelas partes. Ainda que haja esta expressão de cuidado por parte dos organizadores, e que tenha-se margem para a realização da festa diante das permissões sanitárias, os moradores de Ouro Preto se sentem seguros e confortáveis com o cenário da possível realização do Carnaval em 2022?

Para a professora de história Solange Palazzi, esse ainda não é o momento.

Moradora da cidade histórica desde o seu nascimento, Solange não se sente segura com a realização das festividades no próximo ano.

“Precisamos de programas, precisamos de protocolos eficazes, precisamos de vacina, precisamos melhorar os hospitais”, ressalta a professora ao descrever o que, para ela, ainda é necessário para voltar a se sentir segura diante de grandes aglomerações.

Além de conversar com a Solange, nossa equipe realizou uma pesquisa de opinião com moradores, estudantes e comerciantes de Ouro Preto e Mariana, para saber o que tem ocupado o imaginário da população com relação ao evento. Durante o período de 15 dias, foram coletadas as respostas de 80 pessoas, das quais 61 afirmam ser contra a realização da festa no início do próximo ano. Este número representa 76,3% do total de respostas, e dentre as justificativas, destacam-se a preocupação com o grande fluxo de turistas vindos de diversas regiões do país, a possibilidade de surgimento de uma nova onda da Covid-19 e, principalmente, o fato de que a pandemia ainda não acabou.

Nós procuramos a Secretaria de Turismo, Indústria e Comércio de Ouro Preto para saber sobre as proposições da Prefeitura com relação às festividades de carnaval na cidade, para 2022. Recentemente, a pasta passou pela exoneração de seu então Secretário Rodrigo Câmara; e, segundo uma fonte de dentro da própria secretaria – que preferiu não se identificar – esta pauta tem sido motivo de muitos debates internos, e por isso nenhum representante estaria disposto a falar até o momento de finalização desta reportagem.

É fato que os dias têm sido velados pela incerteza com relação ao futuro. Apesar do imaginário desfavorável à realização das festividades do carnaval ouropretano, apresentado pela pesquisa, há respostas que estão alicerçadas em alguns “poréns” e a infectologista Karina Napoles conversou conosco sobre este cenário.

Ela atuou na linha de frente do enfrentamento à Covid-19 até o mês de julho deste ano, atendendo hospitais em Belo Horizonte e Barão de Cocais, e hoje se diz aliviada ao ver a queda no número de óbitos – consequência da cobertura vacinal – que tanto esperamos. Em sua opinião, é viável a realização do carnaval de Ouro Preto no próximo ano e existem algumas alternativas e medidas que podem ser adotadas pelas repúblicas para que o evento ocorra com alguma segurança.

“O incentivo à vacinação dos participantes, apresentação do cartão de vacinação, orientações quanto à autopreservação e o auto isolamento em caso de sintomas e promoção da higiene nos ambientes, continuarão sendo indispensáveis”, segundo a médica.

Todavia, a realização do carnaval também divide opiniões entre os infectologistas. Em entrevista à reportagem do R7 sobre o Carnaval de São Paulo, o médico sanitarista, fundador e ex-diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Gonzalo Vecina Neto, afirma ser contra a realização do Carnaval em fevereiro de 2022, diante da impossibilidade de controlar o fluxo de pessoas e a aplicação efetiva das medidas sanitárias. No contexto da cidade mais populosa do país, a festa aglomera milhões de pessoas nas ruas. Esta realidade se aplica, proporcionalmente, à cidade de Ouro Preto que recebe cerca de 50 mil pessoas durante as festividades carnavalescas. Dentro de um evento deste porte, a questão de “segurança sanitária” não pode ser relativizada.

Ineficiência governamental

Desde o início da pandemia, a comunidade científica esteve empenhada no desenvolvimento de estudos que previam novas ondas da Covid-19, além de traçar os protocolos mais eficazes para o controle de circulação e contaminação do vírus em todo o planeta. No Brasil, esses estudos foram arbitrariamente ignorados, dando espaço para o negacionismo e descrédito da ciência, sendo apontado como o pior país do mundo no quesito “gestão da pandemia”, segundo um ranking global de 09 de janeiro de 2021 divulgado pelo instituto Lowy Institute. (Após este relatório, o Brasil não forneceu dados completos referentes à situação da pandemia, motivo pelo qual o país não foi inserido nas classificações posteriores).

Também, em razão da falta de protocolos governamentais eficazes de contenção à pandemia, o Brasil chegou à marca de 600 mil mortos em outubro. Todo o país vive um período de luto, em que foi ceifada a vida não só de grandes nomes e personalidades de reconhecimento nacional; mas também de pais, mães, filhos e amigos. O luto vivido na pandemia, é uma experiência sem precedentes na qual, em muitos casos, a despedida fica marcada pelo distanciamento e pela impossibilidade de um último adeus. Ouro Preto registra, até o momento, 132 óbitos pela doença, o que diz muito sobre as opiniões contrárias à festa, por parte de uma população que ainda lida diariamente com a dor da perda de seus entes queridos.

Para tanto, a decisão de realização do evento, além de considerar o cenário de movimentação econômica e turística na cidade, deve lançar o olhar sobre essa realidade em que a retomada das atividades “normais” atravessa vidas que jamais serão as mesmas e, portanto, dão novos sentidos às atividades cotidianas.

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