Arte na Praça: projeto cultural movimenta Mariana

Arte na Praça: projeto cultural movimenta Mariana

Matheus Ferreira e Maria Alice

A Praça Gomes Freire, o Jardim, recebeu cores, sons e arte no dia 23 de abril. A rua Dom Viçoso foi tomada pelo azul e rosa bebê dos mantos que vestiam conguinhos, reis e rainhas do Congado da Barroca. Enquanto o cortejo passava, ouvia-se a mistura dos instrumentos e aos poucos chegavam os visitantes do evento Arte na Praça. O dia ensolarado ressaltava as cores das vestimentas e os instrumentos que titubeavam pelas mãos dos congadeiros abrilhantavam e animavam os recém-chegados.

As crianças corriam para formar filas à espera das pinturas corporais e oficinas de pintura e entalhe que foram oferecidas no local. Cavaletes a postos, tintas dispostas sobre as mesas, madeiras de cedro e formão: a coleção de instrumentos para que a oficina de pintura e entalhe começasse estava a espera das crianças ansiosas pela sua vez. Nas filas, ouvia-se os planejamentos do que fariam, quem presenteariam com aquelas obras ou onde pendurariam os artesanatos criados.

Segundo os organizadores, o evento realizado no sábado contou com a presença de mais de 500 pessoas de todas as idades. Alguns acompanhavam os filhos, outros apenas aproveitavam os shows que aconteciam no centro da praça, atrás do coreto. Entre as atrações estava a cantora mirim Yasmin Melo, a dupla de rap Serginho e Nicão, a cantora pop Duda Show e o grupo Sabor de Samba.

Após a abertura, houve uma palestra sobre mudanças climáticas com o doutor em Engenharia Ambiental, Luíde Rodrigo Martins, levando para o evento o debate sobre a fragilidade da camada de ozônio e a poluição da água. Logo o animador Sérgio Ferreira, 44, chamou todas as crianças para a concentração em frente ao palco: era o momento das brincadeiras e dos brindes. Em conversa, Sérgio ressaltou a importância do projeto. “A importância de fazer parte desse projeto é saber que a arte chega onde ainda não teve a possibilidade de chegar: [para] quem ainda não teve o contato com a arte como um todo. Não só no entalhe, na pintura, na escultura, mas também na parte de entretenimento que nós levamos até o público infanto-juvenil e também ao público adulto”.

Ali, no meio do Jardim, formaram-se rodas com cadeiras, deram play na música e as crianças cirandavam na dança das cadeiras. O vencedor ganhou uma cesta de chocolates de brinde e pôde se divertir mais com a corrida de sacos, interagindo com os colegas de brincadeira. Alguns já eram conhecidos, mas não se viam há algum tempo devido ao isolamento social, enquanto outros formavam novas amizades proporcionadas pelo projeto.

Bruna Queiroz, 23 anos, mãe de Emanuelle, 3, fala sobre como o projeto insere as crianças no espaço público e cria relações afetivas com a cidade. “Geralmente você chega na praça, não tem nenhum brinquedo, nem nada, as crianças ficam andando de bicicleta ou algo do tipo e essas atividades estimulam de forma lúdica a criatividade, a imaginação. O Arte na Praça agrega memórias, porque as crianças vão lembrar da infância e do momento de lazer delas”. 

A criação do projeto

O Arte na Praça é um projeto criado pelo artista plástico e atual presidente da Associação Marianense dos Artistas Plásticos, Geraldino Pereira da Silva, de 44 anos. Foi idealizado em 2014, quando o artista e seu primo, Maurício, observaram que o Jardim estava violento e pouco iluminado. Segundo o artista, a criminalidade havia tomado conta de um dos principais pontos turísticos da cidade. Sentia naquele momento a vontade de resgatar a cultura local e levar conhecimento para as crianças da cidade.

O início não foi tão fácil. Divulgavam com cartolina, buscavam apoio de porta em porta. Às vezes conseguiam com a Prefeitura alguns equipamentos de som e água para os ajudantes. Foi com a ajuda de amigos que trabalham como monitores, muitas vezes pagos com churrasco ou uma festa pequena de comemoração, que o Arte na Praça conquistou, segundo Geraldino, “essa cara jovem”. Aos poucos foram introduzidas brincadeiras e gincanas. À medida que o projeto crescia, incorporaram a capoeira, convidaram músicos locais, batalha de rima, dança de rua, folia de reis, e os bonecos Zé Pereira. “A cultura de Mariana toda numa praça”, ressalta Geraldino.

O evento acontecia anualmente no mês de agosto, mas ao participarem de um edital, em 2019, da Fundação Renova, conseguiram subsídio para realizar quatro meses seguidos, contemplando de Janeiro a Abril deste ano. O desejo é que permaneça assim, acontecendo mensalmente, mas, para isso, será necessária a participação em outros editais e mais apoio por parte de empresas privadas. Entretanto, por ser um projeto sem fins lucrativos e de iniciativa pessoal, é provável que o evento volte a ser realizado anualmente.

O evento no isolamento social

Em 2019, o isolamento social tirou o projeto das ruas e fez com que toda a equipe se movimentasse para repensar em uma nova forma de levar cultura às crianças. Para Geraldino, manter o evento foi um ato de coragem. Mesmo que as atrações fossem feitas de forma virtual, foi necessário que a equipe se reunisse e trabalhasse para que o projeto se mantivesse de pé.

Com o retorno presencial, o Arte na Praça segue cheio de planos e sonhos. O objetivo atual é levar o projeto para as estradas. Depois de algumas experiências, em São José da Lapa — a 40 minutos de Belo Horizonte — e Nova Era — a 2 horas da capital, Geraldino tem o sonho de levar a cultura de Mariana para outras cidades e promover mais encontros entre crianças e a cultura local. O projeto, que nasceu com um pequeno artista no interior de Minas Gerais, busca estimular nas futuras gerações o prazer pela arte, cultura e conhecimento.