Antônio Pereira: quando a lama invisível assombra moradores

PRODUÇÃO: HELLEN PERUCCI, THAÍS DOMINGOS E SABRINA ROZA

A tragédia do rompimento da Barragem de Fundão em Bento Rodrigues, no ano de 2015,  vitimou 19 pessoas. 4 anos depois, houve a reincidência em proporções ainda maiores na Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, que resultou na morte de 270 pessoas e outros 10 desaparecidos. Após os episódios, a atenção das autoridades se voltou para a segurança das estruturas construídas para os depósitos de rejeito de minério de ferro: As Barragens

A partir daí, surgiu a necessidade de se criar normas de proteção mais rigorosas em relação às barragens, que deveriam ser seguidas pelas empresas responsáveis. Essas medidas trouxeram graves consequências para a população assombrada pela “lama invisível”, termo que se refere à situação de rompimento que pode acontecer em Antônio Pereira, distrito da cidade de Ouro Preto localizado próximo a Barragem de Doutor. Ela possui uma estrutura de cerca de 35 milhões de metros cúbicos de minério (quase três vezes o volume da barragem da Mina do Córrego do Feijão, que possuía aproximadamente 12,7 milhões de  metros cúbicos).

Nessa matéria, as repórteres Hellen Perucci, Sabrina Roza e Thaís Domingos contaram como estão os moradores, as conquistas da comunidade e o que dizem os órgãos competentes com relação à barragem e a população do entorno.

Níveis de emergência

Perímetro da lama Barragem de DoutorDe acordo com com a  Legislação  Federal Brasileira em Segurança de Barragens, as estruturas são classificadas em três níveis para definição de emergência: 

Nível 1 – Quando detectada anomalia que resulte na pontuação máxima de 10 pontos em qualquer subcategoria dos critérios de segurança: Confiabilidade das Estruturas Estravazoras; Percolação (termo técnico utilizado para definir a passagem de água de uma lado para outro da barragem por meio de uma fissura); Deformações e Recalques; Deterioração dos Taludes/Paramentos. Entretanto, as anormalidades podem ser controladas a partir de inspeções diárias e do monitoramento feito por câmeras.

Nível 2 – Quando o resultado das ações adotadas na anomalia referida for classificado como “não controlado;

Nível 3 – A ruptura é iminente ou está ocorrendo. 

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), as cidades de Mariana, Ouro Preto, e Itabirito possuem 10 barragens pertencentes a empresa Vale; 5 em nível 1, Doutor (Ouro Preto), Dicão Leste (Mariana),  Area IX (Ouro Preto), Maravilhas (Itabirito), Campo Grande (Mariana).  4 em nível 2, Forquilha I e II (Ouro Preto), Xingú (Mariana), e Grupo (Ouro Preto) e Forquilha III em nível 3, ou seja, em o  risco iminente de romper.

Afinal, o que são as obras de descomissionamento?

Descomissionamento é o nome do processo em que uma barragem para de receber rejeitos, ou seja, ela entra em inatividade até que se estabilize e volte a ser uma área segura. Em agosto de 2019, a Agência Nacional de Mineração (ANM) publicou uma resolução que proibia a utilização do método de alteamento de barragens de mineração denominado “a montante”. O método consiste na construção de degraus feitos com material desenvolvido a partir do próprio rejeito. A Barragem de Doutor está sendo descomissionada justamente por ter sido construída com base neste modelo, que agora é proibido. 

As obras de descomissionamento da Barragem de Doutor começaram em março de 2020. As remoções tiveram início em abril de 2020 e foram retiradas as famílias que estavam próximas à barragem, localizada na mina de Timbopeba. Até agora, 588 pessoas e 176 núcleos familiares foram removidos, segundo a Defesa Civil de Ouro Preto. Com o auxílio da empresa Vale S. A e da Defesa Civil, foram preparadas moradias temporárias, como casas alugadas e hotéis para acomodar os moradores.

Obras na Barragem de Doutor

A barragem de Doutor está em obras para sua descaracterização. Foto: Mirtes Perucci

Entendendo o que são as zonas de autossalvamento

Para entendermos um pouco mais sobre as barragens, não podemos deixar de falar sobre as Zonas de Autossalvamento (ZAS). Elas são as áreas que ficam a uma distância de 10 km ou 30 minutos do ponto de rompimento da barragem. Nesse caso, os moradores que estão nas ZAS devem providenciar o seu autossalvamento, saindo  da área da mancha ( lugar que engloba a área que hipoteticamente por ser atingida pela lama caso haja o rompimento da barragem) e se encaminhando para uma zona segura e posteriormente para  a realocação disponibilizada pela empresa responsável.

Segundo informações da mineradora Vale, as barragens são monitoradas 24 horas por dia através do Centro de Monitoramento Geotécnico (CMG),  que possui sofisticado sistema de vídeo, além de acompanhamento via radares, sirenes e medição dos níveis de água.  Clicando aqui você pode acompanhar, na íntegra, a atual mancha do distrito. 

Em contato com moradores da região, fomos informados  que 3 famílias remanescentes ainda estão na ZAS, pois possuem reivindicações que não foram atendidas pela mineradora. A empresa disse que está em negociação com as famílias e que as equipes permanecerão em contato próximo até que o processo seja finalizado.

Placa indica rota de fuga em ZAS
Nas ZAS, há placas indicando a rota de fuga para os moradores. Foto: Hellen Perucci

Conquistas da comunidade

Nos dias 08 e 09 de fevereiro, aconteceram as eleições que definiram a assessoria técnica independente responsável pelo distrito de Antônio Pereira. O Instituto Guaicuy foi eleito pelos moradores com 67,34% dos votos, e prestará assistência aos atingidos da Barragem de Doutor, que atualmente possui nível 2 de emergência. A contratação é fruto de uma decisão preliminar da 1ª Vara Cível da Comarca de Ouro Preto publicada em setembro de 2020.

Para que pudessem disputar a eleição, segundo o edital, as empresas deveriam cumprir requisitos estabelecidos pelo Ministério Público. Dentre eles: Possuir no mínimo três anos de existência; experiência técnica comprovada na atuação com pessoas atingidas por desastres, ou por remoções forçadas ou por grandes obras ou empreendimentos; independência técnica, financeira e institucional em relação à Vale; não ter participado de qualquer prática ou realizado qualquer ato contrário à Lei Anticorrupção Brasileira.

O Instituto Guaicuy, criado em 2000 junto ao Projeto Manuelzão vinculado a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),  atua com uma Assessoria Técnica Independente (ATI) em Antônio Pereira. Segundo Ronald Guerra, vice-presidente do instituto, a ATI foi uma conquista da comunidade, “pois é a primeira vez que moradores da zona de risco de uma barragem que não se rompeu têm direito a uma assessoria técnica independente.” Tal fato evidencia um notável histórico de luta coletiva. E um exemplo disso é  a Comissão de Atingidos, fundada pelos moradores. A ATI tem como principal função trazer informação qualificada para a comunidade, principalmente  na área da saúde, direito e meio ambiente. Segundo Ronald, as principais demandas da comunidade giram em torno dos prejuízos trazidos pelas obras de mineração, além dos vários tipos de poluição consequentes delas como poluição sonora e poluição do ar, que impedem que os moradores tenham uma boa qualidade de vida.  “A assessoria transmite informações para que os moradores lutem por seus direitos.”, ele afirma.

Memórias de um clube

Há mais de 40 anos o Esporte Clube Samisa, localizado na Vila Samarco, funcionava como um local de entretenimento e lazer para os habitantes da região. O clube conta com piscinas, quadra esportiva e costumava lotar aos finais de semana. Contudo, desde o dia 30 de novembro de 2020,  encontra-se vazio após ser interditado pela Vale e pela Defesa Civil de Ouro Preto por estar inserido na área da ZAS. Márcio Aguiar, presidente do Samisa desde 2010, lamenta a interdição do estabelecimento, pois para ele o clube era uma das importantes fontes de lazer da comunidade, além de gerar emprego e renda  com a contratação de funcionários locais. 

“Foi muito triste, porque veio a Defesa Civil e a Vale, fecharam e depois a gente ficou abandonado, sabe? As piscinas ficaram a Deus dará e eu tive que assumir durante um período a manutenção, principalmente das piscinas. Como não nos procuraram, nós não poderíamos deixar as piscinas sem tratamento, porque senão a água fica podre, tem a questão dos insetos, dengue, zika.” Segundo ele, o clube também teve que rescindir o contrato dos empregados, sem antes saber se teriam dinheiro o suficiente para efetuar os pagamentos. Conforme Márcio, os 4 funcionários efetivos que foram dispensados tiveram um ressarcimento por parte da Vale. Entretanto, esse ressarcimento não é a garantia de renda dessas pessoas a longo prazo.

Hoje, observando o clube não mais em funcionamento, Márcio diz sentir muita tristeza e se emocionar toda vez que chega ao lugar vazio. “Nós recebíamos quase 800 pessoas entre sábado e domingo, né? A gente via a alegria  das pessoas vindo e sendo bem tratadas, a gente tinha um bom tratamento tanto dos nossos sócios quanto dos nossos convidados. A gente chega lá e vê o clube vazio, é um sentimento muito de impotência, né? Da gente não poder fazer nada e ninguém fala nada com a gente. A gente fica como um fantoche,” conta.

Ao ser questionada sobre a situação sanitária do clube, a Defesa Civil diz ter entrado com uma intervenção para capina e repelente cítrico, por conta do mato alto que facilitava a entrada de animais peçonhentos em terrenos vizinhos.  

O clube fez parte da vida de muitos moradores, entre eles Gabriela Thainara Veríssimo Fraga, 21. “Sempre nos finais de ano a professora de matemática, Rosilene, que inclusive reside na Vila Samarco, sempre levava as turmas no clube, fechava só para os alunos. Era ótimo ir com a família nos finais de semana, mas ir com os amigos da escola era um máximo!” Entretanto, ela também lamenta pelo estado atual do espaço onde vive:” Vejo como o fim de muitas histórias, um abandono descomunal, um silêncio que corrói a alma, passar pelas ruas e não sentir mais a alegria, não escutar o bom dia de ninguém, é de cortar o coração…” 

Vítimas da lama invisível

As ruas de Antônio Pereira estão vazias, as casas cobertas pelo mato crescido, ouve-se o som do silêncio. Não tem mais ninguém ali, todos se foram, ou melhor, quase todos. Ainda há aqueles que estão esquecidos, deixados para trás, que estão sozinhos e sofrendo com a calmaria. Dos amigos, só restam as lembranças e saudades. Talvez nunca mais se vejam outra vez, e a quietude  persiste dia após dia.

Lucilene Conceição Santos Matias, 40 anos, dona de casa, era moradora do distrito e viu sua vida mudar drasticamente quando teve que deixar sua casa e suas histórias para trás por conta do risco de rompimento da barragem de Doutor, da empresa Vale.

Após pouco mais de 1 ano em nível 2 de emergência, (acionado em 01 de abril de 2020),  a mineradora Vale protocolou, no dia 18 de maio de 2021, junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) e a auditoria técnica do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o retorno do nível 2 para o nível 1 de emergência da estrutura. O que significa que as reparações necessárias foram realizadas e tiveram êxito, segundo a empresa, mas os moradores removidos permanecerão evacuados de suas residências.

Lucilene Santos conta que a Vale não avisou aos moradores sobre a situação da barragem em um primeiro momento; os representantes da empresa chegaram nas casas, juntamente com a Defesa Civil, para a partir dali comunicarem a situação de risco a que estavam submetidos. Somente a partir dali é que foi dado o primeiro passo para cadastrar as famílias que estavam na  área de risco.

O medo dos moradores de que a barragem pudesse romper fez com que eles buscassem ajuda das autoridades para que pudessem ser removidos das áreas de risco, conhecidas como ZAS, (zonas de Autossalvamento). Somente após passeatas, reuniões de moradores e conversas com o prefeito de Ouro Preto é que a mineradora concedeu  às famílias um segundo cadastro para a remoção definitiva da Rua Projetada 10, conhecida como Rua 10.

Lucilene e sua família receberam apoio financeiro da empresa Vale S.A. Ela conta que a sensação de sair do local foi de alívio e ao mesmo tempo de tristeza. Deixar tudo que foi construído com tanto esforço para trás, os amigos e vizinhos de longos anos, despedir-se de seu lar que não era apenas uma casa, mas um lugar com suas histórias, memórias e  alegrias não foi fácil

Duda e Edison: a décima nona casa

Não muito longe dali, na mesma rua onde antes morava Lucilene, ainda reside Duda, apelido de Gislene Costa, 39. A dona de casa sempre teve como característica sua alegria. Enquanto moradora da comunidade, nunca a vi chorar, muito pelo contrário. Sempre foi (e será) sinônimo de força, inspiração e confiança em todas as esferas sociais que está presente: igreja, salão de beleza, família e amigos. E para que todas essas esferas fossem de fato felizes, ela passava pela, agora deserta, Rua Projetada 10, no distrito de Antônio Pereira.

Rua vazia em Antônio Pereira
Com apenas 3 das 21 famílias habitando a Rua 10, o vazio toma conta da via. Foto: Hellen Perucci

A Rua 10 está localizada a 2,77 km da Vila Samarco e também foi afetada pela “lama invisível”, termo que se popularizou porque faz menção às incertezas que uma barragem de rejeitos em nível dois pode trazer. E os antônimos silêncio e barulho se completam ao assustar a população: o silêncio pelas relações perdidas em decorrência das evacuações; e o barulho, já que qualquer buzina de carro ou som que se assemelhe à sirene instalada pela Vale, que acionará caso a barragem venha a se romper, causa pânico e medo.

Diferente do que versam Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, na Rua 10 o silêncio não foi a primeira coisa que existiu. Não naquele local. A rua era um verdadeiro oásis em que crianças podiam brincar sem se preocupar com a passagem de carros, e os responsáveis podiam ficar tranquilos em relação a seus filhos. Por isso, passavam as tardes conversando, enquanto viam seus laços de amizade ultrapassarem gerações através dos descendentes.

Excepcionalmente, na travessa em que a família mora, são 21 casas, das quais 18 foram evacuadas em virtude da mancha hipotética de rompimento. Sabe a mão do “Toca aqui?” É a medida exata da casa da família para o muro onde a “mancha” termina. Sim, a casa de

Gislene está a um palmo (cerca de 20 centímetros) de distância da casa ao lado e 6,06 metros da residência de frente, que também recebeu ordem de evacuação. Sua casa, agora, é a última da rua: 

“Agora, restou só eu e as minhas duas vizinhas acima da minha casa. E você sente, assim, a ausência das pessoas que você tinha tanto costume. Porque antes eu passava aqui eu via os meninos brincando, é muito triste. Quando vieram remover as famílias, eu não saí. Não tive coragem de sair pra ver eles indo.”

Gislene mora com seus dois filhos, Evillyn, de 16, e Enzo, de 5, e seu marido Edison Alves dos Santos, 44, operador de sondas de perfuração em poços de petróleo e gás, uma função que não tem oportunidades de emprego próximas à região. Por isso, o pai e marido que sempre “trabalhou fora” sem preocupações, no momento, tem medo de ir e deixar sua família sozinha, sem segurança e sem os vizinhos que ofereciam ajuda em casos de emergência: “Agora, meu marido tá em casa porque tá com medo de ir trabalhar fora e ter que deixar eu e as crianças aqui sozinhos, a gente não tem vizinho e estamos sem ninguém pra contar”.

Fotos da familia de Gislene
As lembranças de Gislene e família ainda estão sobre a estante. Foto: Gislene Costa

Em distritos afastados da cidade sede, no caso Ouro Preto, é comum que as relações de vizinhança se assemelhem aos “afetos familiares”. E por pelo menos 17 anos, tempo de matrimônio de Gislene, a vizinhança permaneceu a mesma, da primeira até a décima oitava casa. O que além de afeição, trazia também segurança: “Você sabe que se acontecia algo, tinha aonde recorrer. Eu lembro que de um episódio que a minha filha passou mal, chegou a desmaiar, então, quem me socorreu foi o vizinho da casa da frente [agora removido]. Você sabe que eram pessoas que se você desse um grito de socorro,  cê sabe quem tava ali pra te ajudar.”

Além das preocupações físicas que envolvem um rompimento hipotético, Duda carrega consigo uma forte preocupação quando se fala na saúde psicológica e segurança dos seus filhos. E agora, atitudes como ir aos cultos e simplesmente deixar a casa aberta para o ar circular, viraram tarefa difícil e trazem gatilhos para o medo, insegurança e a evidente falta de proteção da rua: “ É como se a gente vivesse um pânico, no medo, porque às vezes eu saio, né? Vou pra igreja, à noite, e tenho muito medo. Tenho filhos, tenho medo de sair e deixar eles sozinhos em casa, porque como não tenho vizinhos mais, então, é um risco.”

Uma das propriedades da família, um haras localizado cerca de 100 metros da residência, lugar favorito de seu filho mais novo, está na ZAS e uma tentativa de remoção dos cavalos aconteceu pela Vale e pela Defesa Civil: “ Eles querem levar os cavalos embora, e a gente não quer deixar porque Enzo  tem vínculo com os cavalos.  Já tiraram as crianças da rua, já tiraram todo mundo da rua que ele tinha convivência. Aí vai tirar os animais dele e levar pra uma fazenda que nós não vamos ter acesso? Para eles está tudo bem. Mas eles não pensam no sentimento de uma criança de cinco anos.”

Haras da família de Gislene em Antônio Pereira
O haras da família de Gislene se encontra em zona de perigo. Foto: Hellen Perucci

Em sua atual residência, Gislene e Edison criaram seus filhos e passaram por altos e baixos para tornar realidade o que sonharam em chamar de lar, mas as alegrias que cultivavam com os vizinhos a cada conquista, se transformaram numa vista para uma rua deserta e tapumes:  “Então é muito triste um caso assim. Que você não vive, é uma solidão, você sabia que tinha todos seus vizinhos ali e agora,  quando você sai na porta,  você vê as casas do jeito que estão: todas interditadas, todas tampadas, você não escuta barulho, você não escuta mais nada. “Cê” vive numa escuridão, ou seja, seu mundinho é aqui. Porque o seu mundo lá fora com as pessoas, a convivência com as pessoas não têm mais.”

E a paz antes comum, se tornou incerteza e medo constante em uma rua que era sinônimo de sorrisos, brincadeiras e amizade. Para se proteger, a família usa o celular para registrar barulhos e quaisquer mudanças nas proximidades, e a preocupação agora é constante: 

“Pelo transtorno que a gente tá vivendo, pelo psicológico que eu tô vivendo, se fosse pra sair eu preferia sair, porque eu não tenho mais vizinhos, sabe? Eu não tenho mais felicidade de viver aqui numa casa que eu sei foi difícil a gente construir até o ponto que tá hoje, né? Como foi difícil, quantas lágrimas nós derramamos pra chegar até o ponto que tá, mas eu preferia sair, até mesmo pelo risco de vida que eu tô correndo, não só da barragem, mas pelo risco que eu tô correndo de vida, de não ter vizinhos, de não ter ninguém na minha rua. É uma rua escura, é uma rua parada.”

Em nota, a empresa afirmou que a equipe de Relacionamento com a Comunidade (RC) da Vale está disponível exclusivamente para atender as demandas das famílias locais, essas que também são acompanhadas pelos profissionais do Programa Referência da Família, e recebem acompanhamento psicossocial desde as horas iniciais da evacuação. O atendimento é realizado por assistente social, psicólogo ou terapeuta ocupacional, sendo oferecido escuta ativa e identificação dos impactos vivenciados, buscando trabalhar a ressignificação dos meios e modos de vida da família. E completou que a limpeza da rua 10 tem previsão de início nos próximos dias.

Durante a entrevista, Gislene chorou na maioria das vezes. E eu, repórter e moradora, chorei junto dela, em todas. Toda a incerteza e o medo quanto ao risco diário está em cada morador de Antônio Pereira, isso é indiscutível. Não existe quem durma tranquilo ou quem toque nesse assunto sem ser assombrado por situações como as de Bento Rodrigues e de Brumadinho. Não existe descanso quando se trata de “rompimento hipotético”, “testes de sirene” ou “reuniões intermináveis”. Não existe tranquilidade com notas, documentos institucionais ou planos de compensação que façam com que épocas de chuva não sejam temidas e façamos a prece: “Deus, mande uma chuva tranquila e segure essa barragem”. É um pesadelo. E quem diz isso é a repórter e, no momento, porta-voz de 5 mil moradores que também são atingidos das mais diferentes formas diariamente.

Plano de segurança

No dia 15 de junho, a Defesa Civil de Ouro Preto se reuniu com Ministério Público, Polícia Militar, Polícia Ambiental, Guarda Municipal e Empresa Vale para elaboração do Plano de Segurança de Antônio Pereira. Uma reivindicação que partiu dos moradores do distrito e vai oferecer a aplicação de ações de proteção para a comunidade na Zona de Auto Salvamento (ZAS). Também serão incluídos no plano melhor iluminação dos espaços públicos e a atenção aos animais peçonhentos que estão aparecendo no distrito. 

O Secretário Municipal de Defesa Social de Ouro Preto, Juscelino Gonçalves, explicou sobre o plano e seus objetivos: “Estamos preparando e confeccionando o plano de segurança que vai ser aplicado na zona de auto salvamento em Antônio Pereira. Esse plano de segurança é um grande trabalho, uma metodologia de aplicação de medidas de proteção e segurança no território afetado, em vista de buscar a proteção contra furtos, contra roubos, contra tráfico de drogas, contra a usurpação do uso do solo. Enfim, é um plano de segurança que vai ser oferecido à população de Ouro Preto, sobretudo, aqueles que moram no entorno das Zonas de Auto Salvamento (ZAS)”.

As ações estão previstas para terem início no segundo semestre de 2021, após a conclusão da fase de preparação e de construção da metodologia do plano. O objetivo é trazer segurança  para as pessoas que moram nas áreas que serão evacuadas e no entorno. Polícia Militar, Polícia Ambiental e Guarda Municipal terão participação mais ativa no distrito e dentre as propostas estão a instalação de câmeras de segurança, com imagem compartilhada na sede da Guarda Municipal.

Casa depredada em Antônio Pereira
Algumas casas foram depredadas após a desocupação. Foto: Hellen Perucci

O Lampião elaborou um compilado de noticias publicadas entre 2015 a 2021, enunciando crimes de rompimento de barragem em Minas Gerais que estiveram nos noticiários do Brasil.