Amamentação como um Ato de Resistência

Amamentação como um Ato de Resistência
Texto: Fernanda Walmer / Foto: Amanda Alves / Ilustração: Sofia Fuscaldi / Podcast: Glauciene Oliveira e Júlia Carvalho

Mães relatam dificuldades e preconceitos ao amamentar em público

A amamentação em público é um dos grandes desafios apontados pelas mães durante a fase de lactação. A contradição entre a necessidade do aleitamento e a reprovação quando isso é feito na frente de outras pessoas acaba por criar reações opostas à valorização do aleitamento materno.

“A repreensão vem de todos os lados, mas em sua grande maioria por homens. Quando tive minha filha, o próprio pai dela me reprimia quanto à amamentação feita na rua. Quando eu saía sozinha com a bebê, eram frequentes os olhares de reprovação; em festas de família, a mesma coisa. Fui parando de sair com minha filha, e quando saía e ela começava a chorar, apressava a volta pra casa ou entrava em pânico”, relata a estudante Thais Souza, 29 anos.

Desde 1999, entre os dias 1 e 7 de agosto, o Ministério da Saúde coordena a semana do aleitamento materno no Brasil. Em 12 de abril de 2017, a Lei Federal Nº 13.435, reconheceu agosto como o mês do Aleitamento Materno, também chamado de “Agosto Dourado” — em referência ao leite humano, que nutricionistas chamam de alimentação de ouro. A ação já vinha sendo elaborada desde 1991, em Nova York, em uma reunião entre ONGs, planejada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). A ideia inicial era reservar um dia do mês em dedicação ao tema, mas o tempo de celebração foi alterado, posteriormente, para uma semana.

A partir daí, e em conjunção com os relatos de preconceito à amamentação que ganharam força na internet, movimentos de mulheres foram às ruas: foi criada a iniciativa “A Hora do Mamaço”, em que, juntas, mulheres de todo o país amamentam seus filhos em locais públicos previamente combinados, a fim de conscientizar sobre os benefícios do aleitamento materno e mostrar que a amamentação em público é algo natural que deve ser respeitado.

A doula e empresária Laura Muller, 31 anos, participou dos primeiros “mamaços” em Florianópolis (SC), onde ela morava e teve seu primeiro filho: “em 2011, depois de ter meu filho, precisei usar o ônibus e fui impedida de amamentar. Me disseram que lá dentro não era lugar para fazer isso, que eu devia ter amamentado antes de entrar. Muitas mulheres passaram pelo mesmo em Floripa, o que, junto a diferentes relatos de preconceito, deu origem ao movimento na cidade”.

Na internet, as ações em favor da amamentação em público foram significativas. Mulheres de todas as idades, profissões, cores e classes sociais postaram fotos usando a hashtag #aleitamentomaterno, com o objetivo de compartilhar suas experiências com a amamentação, com o preconceito, e mostrar apoio umas às outras.

Essas iniciativas contribuíram para a aprovação de leis de âmbitos municipal e estadual para impedir que estabelecimentos proíbam ou constranjam mulheres por amamentar em público. Há previsão de multas, em alguns casos.

Os efeitos do preconceito podem afetar diretamente a amamentação, como comenta Thais: “por conta desse falso moralismo, como se esse ato de cuidado e aproximação fosse obsceno, muitas mães começam a dar mamadeira para seus bebês para não amamentá-los na rua”, interferindo, assim, na nutrição da criança que fica incompleta sem o leite materno.

Experiências de limitação e julgamento acompanham as mulheres desde pequenas, porém ficam mais evidentes em momentos em que há a ideia de que elas estejam mais sensíveis ou vulneráveis. “Como a gente é enxergada tem influência direta em como a gente é tratada. É por machismo, é pela naturalização das violências que entendem a ofensa, a provocação como uma piada ou brincadeira. E quando essas coisas são ditas durante o puerpério na fase de amamentação isso tem um peso muito grande sobre a mulher”, conclui Laura.

#mãe

Benefícios do Aleitamento Materno

Eficaz para garantir a saúde dos bebês, o leite materno produz benefícios que se estendem pelos anos. Crianças amamentadas desde a primeira hora de vida, são menos propensas a desenvolver doenças respiratórias, diarreias, infecções e alergias, pois os nutrientes e anticorpos de que precisam nos primeiros meses estão presentes no leite da mãe. Por recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), o leite materno deve ser o único alimento até os seis meses de idade .

Benefícios para a mãe:

  • Reduz a depressão pós parto;
  • Ajuda na recuperação do útero, diminuindo risco de hemorragia e anemia;
  • Auxilia na redução de peso;
  • Minimiza o risco de desenvolver câncer de mama e de ovário, doenças vasculares e diabetes.

Benefícios para o bebê:

  • Reduz a ocorrência de cólicas;
  • A sucção colabora para desenvolvimento da arcada dentária, da fala e da respiração;
  • Fortalece a imunidade. Protege a criança de doenças como obesidade, infecções, intolerância ao glúten, anemia, alergias, etc;
  • Bebês amamentados por mais de um ano têm 3 pontos a mais em testes de QI, 10% mais escolaridade e renda 33% maior
FONTE: GOVERNO FEDERAL E MINISTÉRIO DA SAÚDE

Confira o passo a passo da coleta de leite humano para doação no podcast produzido pelo LAMPIÃO: