Novo acesso ao bairro Cabanas: uma obra para todos?

PRODUÇÃO: DÉBORA FERNANDES E THÚLIO HENRIQUE
 

A dificuldade de transitar no bairro Cabanas

Você já imaginou as dificuldades encontradas por uma cadeirante, ao sair de um bairro afastado, em direção ao centro da cidade de Mariana? O município concentra em sua área central a maioria dos estabelecimentos comerciais da cidade: os bancos, as principais lojas e instituições. Com o crescimento do perímetro urbano ao longo do tempo, os bairros mais periféricos se expandiram e, a partir disso, novos problemas relacionados à infraestrutura e à locomoção das pessoas residentes destes locais surgiram. Este é o caso do bairro Cabanas, um dos mais populosos de Mariana.

Maria de Lourdes Faria Silva sofreu um acidente automobilístico em 1995, na cidade de Ponte Nova, localizada a 70 quilômetros da primaz mineira. Como consequência, ela perdeu permanentemente o movimento das pernas. Moradora do bairro Cabanas há 16 anos, Maria enfrenta diariamente diversos problemas para se locomover na Avenida Diamantina, principal acesso do bairro atualmente. Pouco se fala, se pensa e se discute acerca das questões que envolvem acessibilidade e, por isso, não é observado nenhuma melhoria ou adequação para essa população que, assim como todos, tem o direito de ir e vir garantido pela Constituição. Quando observamos as atuais condições da avenida, encontramos uma via esburacada, com passeios insuficientes, desníveis em diversos pontos e redes de escoamento de água de chuva no meio da rua, tudo isso dificulta o trânsito livre de Maria com sua cadeira de rodas.

Também não se observa nenhuma medida que possibilite a moradora ir até outros bairros utilizando o transporte público. Isso ocorre porque os pontos de ônibus se encontram em locais onde o elevador para deficientes físicos não pode ser operado, devido ao relevo da rua. Com isso, a moradora acaba dependendo de outras pessoas para poder realizar atividades e tarefas cotidianas, como por exemplo ir para a faculdade, comparecer a consultas e exames médicos e ir para o trabalho.

Em vídeo, Maria de Lourdes conta como é viver no bairro:

A moradora aponta ainda que se questiona se o trajeto escolhido para a obra irá trazer melhorias para pessoas com sua condição, pois a avenida não possui calçadas adequadas e irá continuar dividindo espaço com os automóveis. “É muito perigoso e traz pra gente uma grande insegurança”, afirma Maria.

A obra do novo acesso

Não só a moradora Maria de Lourdes é afetada pela dificuldade de acesso ao bairro onde mora. Os moradores da região pediram por mais de 7 anos para que a prefeitura tivesse uma iniciativa para melhorar o trânsito e, consequentemente, o acesso a suas casas. Principalmente nos horários de pico, o bairro apresenta dificuldades no trânsito.

Segundo o presidente da Associação dos Moradores do Bairro Cabanas, Roberto de Lima, muitos pedidos foram reiterados para a prefeitura do município para que a situação fosse melhorada. Roberto calcula que os efeitos de um novo acesso para controlar o trânsito não afetaria somente o bairro Cabanas, mas também toda a região chamada de “Cidade Alta” – compreendida pelos bairros Santa Rita de Cássia, Santa Clara e Cabanas. Além disso, outros bairros que fazem fronteira com a Cidade Alta teriam fluxos de veículos reduzidos, como é o caso do bairro Vale Verde e do Cartuxa. 

Roberto afirmou também que a iniciativa partiu dos moradores da região, que pediam a ajuda da Associação e, com o apoio da Federação das Associações de Moradores de Mariana – FEAMA – conseguiram peso suficiente para que os pedidos fossem ouvidos pela prefeitura.

Em outubro do ano passado foi assinado o contrato da obra de serviço nº 299/2020, referente à construção do acesso alternativo ao bairro Cabanas. O valor acordado entre a empresa TC Obras e Locações Eireli, responsável pela realização da obra, e a Prefeitura Municipal de Mariana ficou em R$2.458.254,15,aproximadamente dois milhões e meio de reais. Para realizar a fiscalização da obra, foi delegado o Engenheiro de Obras Carlos Henrique Reis Antunes, inscrito no CREA/MG sob o número 99192/D.  

Confira na imagem o local escolhido para o novo acesso, compreendido pelo número 1:

Acesso ao bairro Cabanas
Na imagem, podem ser observadas em amarelo e vermelho as possibilidades do novo acesso, sendo o caminho 1 o escolhido pela prefeitura para realização da obra. Foto: Google Street View – 2021.

O presidente da Associação reitera que a obra precisa ser mais fiscalizada, uma vez que o canteiro de obras se encontra próximo a um córrego e que, se não seguidos os protocolos ambientais, pode vir a ser assoreado com a terraplanagem que está sendo executada. A Prefeitura até o momento presente dessa reportagem não se pronunciou a respeito das medidas ambientais que estão sendo tomadas para barrar os impactos.

A opção escolhida anteriormente pela prefeitura para fazer o novo acesso era o caminho representado pelo número 2 no mapa. No entanto, foram encontradas dificuldades de realização da obra naquele local, uma vez que a estrada precisaria passar por terrenos privados que não foram concedidos. Com isso, foi apresentada uma nova opção, o caminho de número 1. 

O vereador Manoel Dougas acrescenta que uma terceira opção viável seria fazer o acesso pelo distrito de Passagem de Mariana. Em resposta às perguntas do Lampião sobre a atual situação da obra, a Prefeitura respondeu apenas que “a obra está em andamento, o status atual é de readequação do projeto inicial”. Por conta disso, ainda não existe uma previsão para conclusão.

O vereador também foi responsável pela criação da Comissão Parlamentar de Inquérito, CPI, das obras. Em entrevista ao Lampião, ele afirmou que essa CPI foi necessária para averiguar a situação das obras realizadas pela prefeitura que apresentavam inconsistências – contratuais, de execução ou de pagamento. No entanto, ele garantiu que a obra do novo acesso não faz parte das apurações da Comissão.

É perceptível que a obra não atende às expectativas de pessoas como Maria de Lourdes, que continuarão com dificuldades para se locomover e realizar suas atividades. Um olhar mais humanizado do poder público poderia amenizar situações como essa, e conceder uma melhor qualidade de vida a esta parte da população. Muitos são os problemas que envolvem o novo acesso, tanto administrativos, quanto humanitários, portanto, esperamos o dia em que todos terão suas necessidades supridas, podendo, então, transitar de forma livre e segura pelas vias do município.